domingo, 31 de janeiro de 2016

O livre direito à manifestação está em risco

Artistas, professores universitários, ativistas e militantes sociais alertam: 'o livre direito à manifestação está em grande risco hoje no Brasil'.

Tatiana Carlotti

Artistas, professores universitários, ativistas e militantes sociais alertam: “o livre direito à manifestação está em grande risco hoje no Brasil”.

Em repúdio aos sucessivos e truculentos episódios de repressão policial contra manifestantes nas ruas, eles lançam o Mani-f-esta livre!, denunciando ameaças em curso e propondo uma série garantias ao livre exercício da manifestação popular.

“O manifesto pretende expressar a voz da esquerda das ruas”, afirma o sociólogo Jean Tible, um dos signatários do documento. “Partindo da perspectiva de que o cidadão faz política no seu cotidiano, e não apenas no momento das eleições, nós colocamos em debate essa situação absurda, na qual as pessoas que reivindicam determinadas pautas acabam sendo reprimidas de uma forma totalmente violenta e antidemocrática”, explica.

Segundo o sociólogo, existe um consenso no atual momento político do país: “só teremos mais conquistas sociais e mais igualdade a partir da luta e das manifestações populares. A democracia das ruas é decisiva neste sentido”. Em contrapartida, “qualquer pessoa que faça uma manifestação, em qualquer lugar, vai se deparar com uma repressão desproporcional”. 

Entre os pontos defendidos pelo Manifesto está a proibição do uso de armas (letais ou menos letais) durante os atos populares. Além do livre exercício do trabalho de jornalistas, advogados, primeiros socorros e defensores legais durante as manifestações. “Defendemos o direito de cada cidadão de lutar sem correr o risco de “perder um olho, de sair com uma perna queimada. As pessoas estão sendo alvejadas por estarem lutando democraticamente”, denuncia Tible.


Repressão cotidiana


Além da denúncia da repressão policial contra os manifestantes, como os violentos episódios registrados na capital paulista, na última semana, durante o quinto ato público organizado pelo Movimento Passe Livre (MPL), o Mani-f-esta livre! repudia a cotidiana repressão das instituições policiais contra os cidadãos nas periferias e nos centros urbanos, nas florestas e no campo.

Tible destaca que uma das propostas apresentadas pelo Manifesto é, justamente, a reforma da polícia e a desmilitarização da Polícia Militar. “A violência da PM é cotidiana nas periferias e no campo. O número de mortes dos povos indígenas é altíssimo. A questão é ´como não ficamos chocados com o grau de violência produzida a todo momento?´”.

O documento defende, também, o fim imediato da criminalização dos movimentos sociais, posicionando-se contrário à Lei Antiterrorismo, em tramitação no Congresso Nacional; e contra qualquer uso da lei de organizações criminosas para enquadrar manifestantes.


Lei Antiterrorismo é um grande perigo


Destinado a tipificar o crime de terrorismo no país, o projeto de Lei Antiterrorismo, apresentado ao Congresso pelos ministérios da Justiça e da Fazenda, em junho de 2015. Frente à subjetividade do conceito de “terrorismo”, ele abre brechas na legislação brasileira para a criminalização de organizações e movimentos sociais no país.

Mesmo assim, o projeto foi aprovado na Câmara dos Deputados, com a garantia de que lei não se aplicaria “à conduta individual ou coletiva de pessoas em manifestações políticas, movimentos sociais, sindicais, religiosos, de classe ou de categoria profissional, direcionados por propósitos sociais ou reivindicatórios, como objetivo de defender direitos, garantias e liberdades”. 

No Senado Federal, porém, o artigo que mantinha essa garantia foi retirado do texto original. As penas ficaram mais duras: 16 a 24 anos de reclusão para quem for enquadrado no crime de terrorismo; 24 a 30 anos caso o ato resultar em morte; e reclusão de 10 a 16 anos para quem recrutar, aliciar, organizar ou aparelhar pessoas para atos de terrorismo.


O projeto aguarda nova votação no plenário da Câmara.


“Essa lei é um grande perigo para as lutas a médio e longo prazo. Quem vai às ruas já está desfavorável diante do uso indiscriminado das forças de repressão, isso [Lei Antiterrorismo] pode aguçar mais ainda”, avalia o sociólogo. Citando as manifestações populares no Egito, nos Estados Unidos e na Argentina, Tible destaca que nos últimos anos “houve um levante de uma multidão mundo afora e, ao mesmo tempo, as leis e forças policiais em vários países se aguçaram”.

Longe das polarizações, aponta o sociólogo, o manifesto visa congregar as sensibilidades da esquerda brasileira para essas questões que dizem respeito ao livre direito de manifestação no país. Entre seus 500 signatários, conta Tible, estão “desde anarquistas a representantes de uma esquerda mais moderada”.

“Há também um peso bastante significativo do pessoal da cultura. Cineastas, músicos, pessoal do teatro, tanto que a lista é encabeçada pelo José Celso Martinez Corrêa, do Teatro Oficina”, complementa.

Confiram a íntegra do manifesto e cliquem aqui para a assiná-lo:


Mani-f-esta livre!


“Está em grande risco hoje no Brasil um direito elementar e fundante dos direitos humanos, que define a qualidade e vitalidade das nossas democracias: o livre direito à manifestação.

Demonstrações diárias de uma inaceitável repressão: bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo, gás de pimenta, balas de borracha e de chumbo assim como cercamentos são convocadas pelas instituições policiais, nas periferias e nos centros, nas florestas e no campo, usadas contra os cidadãos comuns, justamente aquelas e aqueles que estão lutando contra as cercas.

Em 13 de junho de 2013, uma certa editoria paulista (a folha) clamava por "retomar as ruas", isto é, tirar os manifestantes dela para que o fluxo "normal" dos carros motorizados e individuais retomasse a paisagem urbana. Nesse mesmo dia, a infeliz e brutal repressão à manifestação chamada pelo MPL virou o jogo na opinião pública. Desde então está em plena disputa a ocupação das ruas por manifestantes.

É nas ruas que os direitos são epicamente conquistados, desde o direito ao voto, o de realizar greves ou a abolição da escravidão. E é nas ruas que arrancaremos o combate às desigualdades, a reforma das polícias, o fim do extermínio da juventude negra, do etnocídio dos povos indígenas e do encarceramento em massa - e assim será também com o direito a um transporte público de qualidade, democrático e com o pleno direito às nossas cidades.

Por isso, defendemos:

  • o livre exercício do trabalho de jornalistas, advogados, primeiros socorros e defensores legais nas manifestações;
  • proibição do uso de armas (letais e menos letais) pelas forças policiais nas manifestações;

  • reforma das polícias (com a desmilitarização da PM);

  • o rechaço à lei anti-terrorismo, pelo seu caráter anti-democrático, e ao uso da lei de organizações criminosas para enquadrar manifestantes;

  • o fim imediato da criminalização das lutas e dos movimentos sociais;

  • o debate democrático sobre políticas públicas e a construção de decisões, sobretudo a respeito do transporte público."
Texto original: CARTA MAIOR

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O DIABO E A GARRAFA

(Rede Brasil Atual) - Em pleno processo de impeachment, e de julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), das ações envolvendo a chapa vitoriosa nas últimas eleições, a situação da República tem sido marcada pela espetacularização de um permanente “pega para capar” jurídico-policial, a ascensão da “antipolítica”, o aprofundamento da radicalização e a fascistização do país.

Políticos e empresários têm sido presos – muitos por ilações frágeis ou exagerado rigor cautelar –, enquanto outros homens públicos e bandidos e delatores premiados apanhados com milhões de dólares na Suíça circulam livremente ou estão em prisão domiciliar.

Milhares de brasileiros acreditam piamente que o Brasil é um país quebrado e destruído, quando temos as sextas maiores reservas internacionais do mundo e somos o terceiro maior credor individual externo dos Estados Unidos.

Que um perigoso “bolivarianismo” pretende implementar uma ditadura de esquerda na América Latina, quando, seguindo os ritos democráticos normais, e sob amplo acompanhamento de observadores internacionais, a oposição liberal acaba de ganhar, pelo voto, as eleições na Venezuela e na Argentina.

Que o Brasil é um país comunista quando pagamos juros altíssimos, e somos, historicamente, dominados, na economia e na política, por um dos mais poderosos sistemas financeiros do mundo, pelo agronegócio e o latifúndio, por bancos e empresas multinacionais.

Discutindo na mesa de pôquer da sala de jogos do Titanic, envolvidos por suas disputas, e por uma rápida sucessão de fatos e acontecimentos, que têm cada vez mais dificuldade em digerir e acompanhar, os homens públicos brasileiros ainda não entenderam que a criminalização da política, criada por eles mesmos, como parte de uma encarniçada e deletéria disputa pelo poder, há muito extrapolou o meio político tradicional, espalhando-se, como o diabo que escapa da garrafa, como uma peste pela sociedade brasileira, na forma de uma profunda ojeriza, preconceito e desqualificação do sistema político, e daqueles que disputam e detêm o voto popular.

Se não se convocar a razão e o bom senso, para reagir ao que está acontecendo, e se estabelecer um patamar mínimo de normalidade político-institucional, tudo o que restará será o confronto, o arbítrio e o caos.

Está muito enganado quem acha que o mero impedimento de Dilma Rousseff resolverá a questão.

No final da década de 20, os judeus conservadores comemoravam, da varanda de suas mansões, na Alemanha, o espancamento, nas ruas, de esquerdistas e socialistas, pelos guardas de grupos paramilitares nazistas como as SS e as SA, e se regozijavam, em seu íntimo, por eles os estarem livrando da ameaça bolchevista.

Depois também viram passivamente – achando que estariam resguardados por suas fortunas – passar sob suas janelas, as filas de operários e pequenos comerciantes judeus a caminho dos campos de concentração – até chegar a sua vez de ocupar, como sardinhas em uma lata, o seu lugar nas câmaras de gás.

Poucas vezes, na história, o efeito bumerangue costuma poupar aqueles que, como aprendizes de feiticeiro, se atrevem a cutucar o que está dentro da caixa de Pandora.

Depois de Dilma e do PT, seria a vez de Temer, e depois de Temer virão os outros – todos os partidos e lideranças que tenham alguma possibilidade de alcançar o poder, por via normal.

Parafraseando Milton Nascimento, na política brasileira “nada será como antes amanhã”.

O Brasil que se seguirá à batalha sem quartel e sem piedade, levada a cabo pela oposição nos últimos anos e meses tendo como fim a destruição e total aniquilamento do PT – cujas principais vítimas não serão esse partido, mas o Estado de Direito, o presidencialismo de coalizão, a governabilidade e a própria Democracia – não terá a cara do Brasil do PSDB de Serra, de Aécio, ou de FHC, mas, sim, a de Moro e a de Bolsonaro.

A do messianismo, da vaidade, da onipotência e do imponderável, e a do oportunismo e do fascismo – e aqui não nos referimos ao velho fascio italiano – em seu estado mais puro, ensandecido e visceral.

Texto original: MAURO SANTAYANA

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Ku Klux Klan: a tolerância dos EUA com o terrorismo branco

Extremistas associados a várias ideologias de extrema-direita mataram muito mais pessoas nos EUA do que os extremistas motivados pelo islamismo.

Garikai Chengu

Esta semana marca o 150º aniversário de fundação da organização terrorista mais letal da história dos EUA: a Ku Klux Klan.

Desde 11 de setembro, extremistas associados com várias ideologias de extrema-direita, incluindo a KKK e extremistas judeus, mataram muito mais pessoas nos Estados Unidos do que os extremistas motivados pelo islamismo radical.

Um velho exemplo dos dois pesos e duas medidas do governo dos EUA, quando se trata de terrorismo, é a infame Ku Klux Klan. A Klan aterrorizou e matou muito mais americanos do que os terroristas islâmicos jamais puderam conceber; e apesar de ser a mais antiga organização terrorista dos Estados Unidos, o governo dos EUA não considera oficialmente a KKK enquanto uma organização terrorista, classificando-a como um mero "grupo de ódio".

Ao classificar as ações do KKK como atos de ódio, em vez de terror, o governo dos EUA permite que a Klan, ao contrário do Estado Islâmico, realize livremente comícios na América, levante fundos e até mesmo apareça na TV para promover sua ideologia. Recentemente Franco Ancona, um líder da KKK, apareceu em rede nacional e ameaçou usar "forças letais" contra manifestantes negros.
A KKK foi fundada poucos dias depois de a escravidão ser abolida nos EUA; e, desde então, bombardeios, linchamentos, tortura e outras formas violentas de terrorismo sobre quem desafia a supremacia branca sempre foram a marca registrada da Klan. No seu auge, na década de 1920, a adesão a Klan excedeu o equivalente a 8 milhões de americanos em todo o país.

O simples fato de que, até hoje, o governo dos EUA se recusa a designar a KKK como uma organização terrorista doméstica fala muito sobre o compromisso da nação no combate ao terrorismo e na promoção da igualdade racial.

O mais mortífero ataque terrorista em solo americano, antes de 9/11, foi o atentado de Oklahoma City, que foi idealizado por Timothy McVeigh, um homem que tinha laços profundos com círculos militantes nazistas de extrema-direita. Em 2011, Kevin Harpham, veterano de guerra, colocou uma bomba na rota de um desfile em homenagem ao dia do Martin Luther King Jr.. Em 2012, Wade Michael Page atirou e matou seis inocentes em um um templo Sikh em Wisconsin. Page era membro de uma banda supremacista e era associado aos Hammerskins, um grupo neo-nazista violento. Há alguns meses atrás, um Imperial Grand Wizard [título] da KKK de Kansas, cometeu um atentado gritando "Heil Hitler", em que um menino de quatorze anos foi morto.

Apesar do número crescente de fuzilamentos em massa e de ataques terroristas pela extrema-direita, a mídia escolhe se concentrar quase exclusivamente na ameaça menor do islamismo radical. Especialistas de mídia rotineiramente exigem dos muçulmanos moderados que condenem os atos de violência perpetrados por outros muçulmanos. Quando foi a última vez que você viu padres brancos sendo pressionados a ir à televisão para denunciar a violência dos supremacistas brancos, a fim de mostrar que "nem todos os cristãos" são assim? Por quanto tempo um grupo muçulmano, com um registro de violência igual a da KKK, seria autorizado a operar livremente antes de ser derrubado pela segurança nacional? Claramente o racismo, tanto quanto o petróleo, são combustíveis da Guerra ao Terror.

A ameaça do terrorismo islâmico em solo doméstico tem sido largamente fabricada, de modo a ressaltar a chamada Guerra ao Terror e promover, no exterior, um militarismo rentável e, em casa, uma violação das liberdades civis.

Quatorze anos após o 11 de setembro, a Al Qaeda não realizou com sucesso nenhum outro ataque dentro dos Estados Unidos. De acordo com um relatório recente da Universidade de Harvard, chamado The Exaggerated Threat of Home Grown Terror [A ameaça exagerada do terrorismo doméstico], “(...)desde 2001, apesar das advertências de autoridades públicas e dos analistas de terrorismo, há pouca evidência de que o risco de ataques terroristas nos Estados Unidos por muçulmanos americanos seja especialmente sério ou esteja em crescimento".

Por que então os Estados Unidos gastaram mais de US$6 trilhões de dólares na Guerra ao Terror?

Dados do FBI dentre 1980 a 2005 demostram que terroristas judeus cometeram cerca de 7% dos atos de terrorismo dentro dos Estados Unidos, valor superior aos 6% cometidos por extremistas islâmicos. Esta estatística é ainda mais notável pelo fato de que o FBI subregistrou drasticamente os casos de terrorismo perpetrados por extremistas judeus, devido aos diferentes pesos e medidas raciais institucionalizados. Aparentemente os americanos podem fundar, sem rodeios, a Liga de Defesa Judaica ou a Resistência Armada Judaica, ambos grupos terroristas que cometeram mais atos de terror do que suas contrapartes muçulmanas.

A infame Liga de Defesa Judaica vem operando nos EUA por mais de meio século. Um relatório do Departamento de Energia sobre ameaças terroristas a instalações nucleares observa que "(...)por mais de uma década, a Liga de Defesa Judaica tem sido um dos grupos terroristas mais ativos nos Estados Unidos". Sem o conhecimento de muitos norte-americanos, esses extremistas judeus enviaram cartas-bomba para a polícia, atacaram embaixadores da ONU e bombardearam civis durante uma orquestra sinfônica.

Se o governo dos Estados Unidos fala realmente sério quando promete enfrentar o terrorismo doméstico e os tiroteios em massa, as estatísticas do FBI sugerem que ele deveria ostensivamente vigiar homens brancos. O simples fato de as autoridades americanas não terem se infiltrado para espionar grupos cristãos conservadores ou comunidades judaicas a fim de impedir organizações violentas de extrema-direita apenas confirma aquilo que os muçulmanos nos EUA já sabem: adorar seu Deus pode lhe tornar um suspeito.

Muçulmanos americanos sentem cada vez mais como se vivessem em um estado policial totalitário, com uma crescente ampliação do assédio, do perfilamento e da vigilância por parte do Estado. O pesquisador Arun Kundnani mostrou como o FBI tem 1 espião de contraterrorismo para cada 94 muçulmanos nos EUA, o que apenas nos recorda da média infame da agência de espionagem totalitária da Alemanha Oriental, a Stasi, com 1 um espião para cada 66 cidadãos.

Cristãos brancos e judeus não precisam se preocupar que um agente secreto ou com um informante se infiltrando em suas igrejas, grupos de estudos ou clubes sociais.

Durante séculos, os terroristas brancos dos EUA foram autorizados, com ampla passabilidade, a espalhar a sua ideologia e planejar seus ataques, o que de certa forma explica a maior letalidade relativa dos supremacistas brancos. E também a taxa muito menor de indiciamento dos agressores brancos.

Nos EUA, pessoas pretas ou pardas são reflexivamente consideradas terroristas ou criminosos, merecedores de escárnio da sociedade, ao passo que as pessoas brancas que cometem ataques terroristas são simplesmente solitários "mentalmente perturbados" que precisavam de ajuda.

A decisão social de chamar um ato de violência em particular de "terrorismo" indica que tal ato pertence a um padrão mais generalizado e que necessita de uma atenção especial, para além do combate ao crime normal. Nesse sentido, chamar fuzilamentos em massa cometidos por supremacistas brancos apenas de "ódio" ou assassinato, em vez de terrorismo, minimiza o papel significativo das motivações racistas do agressor e evita perguntas difíceis sobre a prevalência do racismo na sociedade americana.

Recentemente, James Holmes atirou em mais de 80 pessoas dentro de um cinema, Ele foi capturado com vida pelas autoridades e, por incrível que pareça, a mídia se recusou a chamar suas ações de terrorismo, concentrando-se em retratar o Sr. Holmes como um "estranhão solitário". Da mesma forma, o supremacista branco Dylan Roof massacrou nove fiéis negros em Charlestown e não só foi capturado vivo, mas também a polícia o descreveu, no momento de sua detenção, como um sujeito "muito quieto, muito calmo(..) não problemático". A própria polícia foi comprar o almoço do Sr.Roof no Burger King, momentos depois de seu atentado terrorista contra fiéis negros inocentes. Em um contraste evidente com os inúmeros linchamentos policiais modernos de meninos e homens negros inocentes, muitas vezes sem nome, tudo isso explicita que a justiça norte-americana é tão tolerante com o terrorismo branco, quanto institucionalmente racista em seu núcleo.

Claramente, há uma obsessão custosa e pouco saudável por parte da sociedade e da justiça norte-americanas no que se refere à prevenção da violência cometida por muçulmanos. A mesma obsessão que ignora tanto a ameaça real do terrorismo branco, quanto o terrorismo policial em curso sobre cidadãos negros.

Tradução por Allan Brum de Oliveira

Texto replicado: CARTA MAIOR

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Antropoceno: a grande obra do capitalismo

Como a população será informada sobre a real situação das mudanças climáticas se os próprios autores dessas informações são dominados pelas corporações?

Najar Tubino

A Comissão Internacional de Estratigrafia vai definir em 2016 se a espécie humana é a maior força natural do planeta, o que precisa de registro nas pedras, tal como já acontece com a radioatividade liberada em mais de dois mil testes nucleares já ocorridos. Argumentos para reforçar a tese de alguns pesquisadores não faltam: metade das florestas foi detonada, mais de 50% das populações de vertebrados, o que envolve pássaros, peixes, anfíbios, mamíferos, foram aniquiladas, o mesmo valendo para populações de espécies de água doce ou marinhas. Anualmente os extratores revolvem as entranhas da terra para buscar dois bilhões de toneladas de ferro, 15 milhões de toneladas de cobre – somente os Estados Unidos extraem três bilhões de toneladas de minérios.

Além de 272 milhões de toneladas de plásticos produzidas em 192 países, sendo que uma parcela entre 4,8 milhões e 12 milhões são jogadas nos oceanos. E as 57 mil represas existentes no mundo que drenaram metade das zonas úmidas e retêm 6.500km3 de água, algo equivalente a 15% do fluxo hidrológico dos rios. Sem contar os 2,3 gigatoneladas de sedimentos retidos nos reservatórios. Não é a toa que nos últimos 10 anos, 85% dos deltas foram inundados pelo mar.

O livro: Capitalismo e colapso ambiental

Podemos acrescentar mais números: 2,2 bilhões toneladas de resíduos sólidos jogados no ambiente, incluindo fezes e urina da população urbana que já domina o planeta – mais de quatro bilhões de pessoas. Ou seis trilhões de cigarros fumados, que depois formam uma montanha de 750 mil toneladas de plástico e resíduos cancerígenos. Ou ainda mais, na direção da era digital: 93,5 milhões de toneladas de lixo eletrônico previstas para este ano, com a grande contribuição de computadores e smartphones, que agora usam 63 elementos na sua composição. É óbvio que os Estados Unidos lideram a excrescência- 29,8 quilos per capita, seguidos pela União Europeia com 19,2, sendo que na Alemanha o consumo per capita é de 23,2kg. Não custa acrescentar mais uma informação – o Centro de Dados do Facebook, na Carolina do Norte, inaugurado em 2012 consumirá na próxima década um milhão de toneladas de carvão. A Agência Internacional de Energia prevê que em 2030 o carvão será a grande fonte de energia elétrica no mundo – entre 34 e 43% da capacidade das usinas.
Os números circulam diariamente pelo globo terrestre e o professor Luiz Marques, da UNICAMP, transformou no livro “Capitalismo e Colapso Ambiental”, com 641 páginas e uma interrogação: será que ainda estamos vivos ou só falta aguardar a hora da catástrofe. Mas tem um fundamento que define melhor a situação no mundo globalizado em 2016. Uma citação do livro “Capitalismo e Colapso Ambiental”:

“- A riqueza da humanidade adulta de 4,7 bilhões de pessoas é de US$240,8 trilhões (2013), 68,7%, mais de dois terços dos indivíduos adultos situados na base da pirâmide de riqueza possuem 3% - US$7,3 trilhões da riqueza global, com ativos de no máximo 10 mil dólares. No topo da pirâmide – 0,7% dos adultos possuem 41% da riqueza mundial ou o equivalente a US$98,7 trilhões de dólares. Somados os estratos superiores da pirâmide – 393 milhões de pessoas, 8,4% da população adulta – detêm 83,3% da riqueza global.”

Para completar: as 500 milhões de pessoas mais ricas no planeta produzem metade das emissões de CO2, enquanto os três bilhões mais pobres emitem 7%.

Quem são os responsáveis?

Por isso, quando a mídia conservadora e idiota disseminada pelo mundo como um gás tóxico alardeia a força da espécie, ou do “homem”, como sempre preferem, como destruidora do meio ambiente é preciso perguntar o seguinte: quem são os representantes da espécie, de que sociedade participam, qual o conluio socioeconômico e político que estão investidos? Enfim, quem são os responsáveis pela sexta onda de extinção de espécies do planeta, pela destruição das florestas, dos mangues, das margens dos rios, do envenenamento dos solos e do ar e que jogam grande parte da humanidade numa corrida insana atrás de acumulação e desperdício?

O professor Luiz Marques tem razão quando diz que a definição do Antropoceno é uma questão filosófica. Não existe mais a visão da divisão entre homem e natureza, agora é natural que a natureza se humanize. Dito isso, após listar todas as consequências da onda capitalista que varre o planeta nos últimos 300 anos.

Entretanto, quem está envolvido com a realidade ambiental, social e econômica do mundo, do país, da sua cidade sabe que a pergunta mais complicada de responder é: por que as pessoas não reagem, não lutam contra a maré acumulativa, contra o apelo consumista, afinal, temos uma catástrofe logo ali na esquina nos esperando. Ou, no mínimo, sabemos que estamos condenando os nossos descendentes a viver no Planeta sobre o administração de HADES, o inferno grego.

Metano da calota polar é um detonador

Deixando de lado o que é óbvio, porque no mundo moderno, onde 28 megacidades têm mais de 10 milhões de habitantes, a corrida pela sobrevivência ou pela manutenção do patrimônio mínimo – casa, carro, bicicleta, skate, que seja – não dá margem para vacilo. Ou a pessoa está dentro do sistema e comunga das regras, ou está à margem e luta unicamente pela sobrevivência física. Teoricamente, as informações sobre a situação do mundo circulam, mas de uma forma exótica, sempre com um caráter longínquo ou até mesmo controverso, ou polêmico, como dizem os agentes da mídia corporativa. Aliás, como as populações serão informadas sobre a real situação das mudanças climáticas, se os próprios autores dessas informações rezam pela cartilha de conservadores e autoritários políticos e as corporações que os dominam, sem o mínimo escrúpulo em discutir o assunto. A maior preocupação dos pesquisadores envolvidos nas questões ambientais e sociais do planeta é com a velocidade do aquecimento da temperatura. Segundo ponto: uma maior aceleração pode incluir a calota polar ártica, a parte da Sibéria onde as temperaturas subiram acima das médias dos últimos anos, e estão abrindo furos no permafrost- que é o solo congelado com vegetais- e uma imensa quantidade de metano – entre 100 bilhões e um trilhão de toneladas permanece estocada.

Isso não é uma dedução ou uma análise filosófica. Pode realmente ser um detonador do aumento da temperatura global em poucos anos, antecipando entre 15 e 35 anos a data em que o aumento da temperatura ultrapassaria os dois graus centígrados. Agora, em 2030, exatamente daqui a 14 anos, quando a população ultrapassar os oito bilhões de pessoas, a quantidade de carros que deverá circular no planeta será de dois bilhões. A pergunta é simples: alguém acredita que a velha Terra com seus 4,6 bilhões de anos aguenta dois bilhões de veículos fumegando de norte a sul?

Texto original: CARTA MAIOR

sábado, 2 de janeiro de 2016

A grande seca do Nordeste

Foto de uma das vítimas da Grande Seca, Ceará, 1878. Foto de Joaquim Antônio Correia, “Vítimas da Grande Seca”, Albúmen, Carte de Visite, 9 X 5,6 cm, Ceará, CA. 1878. Acervo da Fundação Biblioteca Nacional – Brasil.
Das grandes secas que assolaram o Brasil, uma das mais graves e lembradas foi aquela que compreendeu os anos de 1877 à 1879, ficando conhecida como a grande seca do Nordeste. Foram quase três anos seguidos sem chuvas, com perda de plantações, mortes de rebanhos e miséria extrema. A situação foi tão desesperadora, que famílias inteiras se viram obrigadas a migrar para outros estados, promovendo uma onda de imigrações.

O cenário ficou cada vez mais caótico, principalmente quando os retirantes chegaram em outras cidades e estados. Devido à miséria extrema das pessoas que chegavam, os moradores locais temiam saques no comércio e armazéns. Além disso, as cidades para as quais as vítimas da seca se dirigiam começaram a ficar cada vez mais apinhadas de flagelados. Fortaleza, por exemplo, converteu-se na capital do desespero. De 21 mil habitantes pelo censo de 1872 passaram a ter 130 mil.

Somando-se ao quadro caótico, os rebanhos de animais sobreviventes sucumbiram diante da ação de zoonoses, furtos, fome e sede. A flora e a fauna da região praticamente desapareceram. Por fim, para completar o quadro de tragédia, houve um surto de varíola, dizimando milhares de pessoas. Finalmente o governo imperial enviou ao Nordeste uma comissão de engenheiros para a perfuração de poços, construção de estradas de ferro e armazenamentos de água, para assim resolver o grande problema da seca.

Vítimas das secas de 1877/1878, no Ceará – Brasil. Foto: autor desconhecido, Biblioteca Nacional.
Curiosidade:

Calcula-se que 500 mil pessoas morreram por causa da seca, em que o Estado mais atingido foi Ceará. O imperador dom Pedro II foi ao Nordeste e prometeu vender “até a última joia da Coroa” para amenizar o sofrimento dos súditos da região. Não vendeu, porém enviou engenheiros para a construção de poços.

Alguns anos depois da primeira grande seca no século XIX, em 1915 um novo episódio assolou o sertão nordestino. Mais uma vez, a nova seca fez com que diversos nordestinos migrassem para as grandes cidades, porém, ao contrário do primeiro episódio, o governo cearense resolveu se precaver de uma maneira desumana. Desta feita, o governo criou os primeiros currais humanos, campos de concentração em regiões separadas por arames farpados e vigiadas 24 horas por dia por soldados para confinar as almas nordestinas retirantes castigadas pela seca.

Notícia sobre o Campo de Concentração dos Flagelados, publicada no Jornal O POVO, em 16/04/1932.
A oeste da cidade de Fortaleza foi erguido, então, na região alagadiça da atual Otávio Bonfim, o primeiro campo de concentração brasileiro. Ali ficaram confinadas cerca de 8 mil pessoas com alimentação e água controladas e vigiadas pelos soldados do Exército. Naquele mesmo ano de 1915, após incentivos para que os retirantes migrassem para a Amazônia, o curral humano foi desativado.

Cerca de 17 anos mais tarde, em 1932, foi a vez de reabrir o campo de concentração de Otávio Bonfim e criar novos currais humanos. Naquele ano, outra grande seca castigou novamente o sertão nordestino, fazendo com que, mais uma vez, milhares migrassem para os grandes centros urbanos. Após dezessete anos, nem o governo federal, nem os governos estaduais haviam se precavido para diminuir os efeitos da seca e a solução, novamente desumana, passou a ser a criação e ampliação dos campos de concentração nordestinos.

Vítimas da seca. Crianças e adultos jazem ao lado da linha férrea que levava para o Campo de concentração de Senador Pompeu. De forma assustadoramente parecida, as cenas brasileiras dos currais humanos lembravam bastante os campos de concentração nazistas.
Pela segunda vez, foram erguidas regiões cercadas por arames farpados e vigiadas diariamente por soldados para confinar os nordestinos afetados pela seca. Corpos magros, de cabeças raspadas e numeradas se apinhavam aos montes dentro dos cercados de Senador Pompeu, Ipu, Quixeramobim, Cariús, Crato (ou Buriti, por onde passaram mais de 65 mil pessoas) e o já conhecido Otávio Bonfim, os maiores currais humanos instalados no Brasil para conter a massa castigada pela seca dos anos de 1915 e 1932.

Poema “Campos de Concentração no Ceará”, por Henrique César Pinheiro.

No Estado do Ceará
A exemplo do alemão
Houve por aqui também
Campo de concentração
Lá era pra matar judeu
Aqui o povo do sertão.

Na seca de trinta e dois
Criamos uns sete currais
Para evitar que famintos
Criassem problemas sociais
E pudessem invadir
Na capital seus mananciais.

Currais foram construídos
Em Senador Pompeu, Ipu,
Quixeramobim e Crato,
Fortaleza e Cariús.
Fortaleza teve dois
Otávio Bonfim, Pirambu.

Pessoas foram confinadas
Como bando de animais.
Tinha a cabeça raspada
Sacos de açúcar, jornais
Era o que lhes serviam
Como vestes mais usuais

Sem nome, ou identidade,
Chamados por numerais.
Desta maneira estavam
Registrados nos anais.
Só se comia farinha,
Rapadura nos currais.

Toda essa gente foi presa
Sem ter crime praticado
E para isto bastava
Somente estar esfomeado.
Pedir prato de comido
Que seria logo enjaulado.

E controlados por senhas,
Pelas forças policiais.
Quem entrava não saía,
Senão pros seus funerais.
Sessenta mil lá morreram.
Nos registros oficiais.

Para aqueles locais, todas
Pessoas foram atraídas.
Com promessas que seriam
por médicos assistidas,
Que teriam segurança
E fartura de comidas

Experiência que houve
Somente aqui no Ceará.
Que se iniciou em quinze
Naquela seca de torrar
Depois disso os alemães
Trataram de aperfeiçoar.

Alguns campos projetados
Para abrigar duas mil pessoas
Dezoito mil chegou alojar.
Presos por vilões e viloas,
Felizes os governantes
Ainda cantavam suas loas.

Em Ipu todos os dias
Morriam de sete a oito.
A maioria era de fome
E até por ser afoito,
Nas tentativas de fugas,
Pro que não havia acoito.

Nas décadas posteriores,
Pra mudar essa imagem,
governos criaram albergues
para evitar sacanagem,
mesmo assim pouco funcionou
pois sempre há malandragem.

E o povo nordestino
ainda de pires na mão,
espera de todos governos
pro problema solução.
Agora estamos na briga
pela tal transposição.

Ceará de Terra da Luz
É chamado no Brasil.
Foi nosso primeiro estado
Que escravatura aboliu
Pra isso não foi necessário
Nem mesmo usar um fuzil.

Mas a geração atual
Tem que redimir o erro
De governantes passados.
Não permitir o desterro
De seus filhos pra terra alheia
e muitos acham o enterro.

HENRIQUE CÉSAR PINHEIRO
FORTALEZA/MARÇO/2008
HENRIQUE CÉSAR

REFERÊNCIAS:

– “A SECA DE 1877 – 1879“, FÁTIMA GARCIA, FORTALEZA EM FOTOS.
– AZEVEDO, MIGUEL ÂNGELO. CRONOLOGIA ILUSTRADA DE FORTALEZA.
– KOSSOY, BORIS. UM OLHAR SOBRE O BRASIL: A FOTOGRAFIA NA CONSTRUÇÃO DA IMAGEM DA NAÇÃO (1833 – 2003). 1° EDIÇÃO. SÃO PAULO: FUNDACIÓN MAPFRE E EDITORA OBJETIVA, 2012. P. 94.
– LESSA, LETÍCIA. CURRAIS DE GENTE NO CEARÁ.
– “CURRAIS HUMANOS“. DIÁRIO DO NORDESTE
– SÁ, CHICO. “CEARÁ: NOS CAMPOS DA SECA“. REVISTA AVENTURAS NA HISTÓRIA. EDITORA ABRIL: 2005.
– ARQUIVO “O POVO NO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO“. 1932.


TALITA LOPES CAVALCANTE

28 anos, formada em Economia, paulista de nascença e sulista por opção, é apaixonada pela liberdade de viver e fazer o que tiver vontade. Exatamente por isso, sonha um dia poder viver de espalhar o conhecimento a quantas pessoas puder. Atua como administradora, criadora de conteúdos no site.


Texto original: IMAGENS DE MUSEU

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

COMO A INFORMAÇÃO É MANIPULADA

Sempre encontro reportagens, texto e agora encontrei este vídeo falando de como a imprensa manipula a informação e consegue fazer a população pensar errado. O nome do vídeo:Denuncia sobre a verdade da transposição do Rio São Francisco. Mas uma observação importante: assista até o final para entender a importância da informação passado pela mensagem do vídeo.




Outro texto muito bom em relação das informações é :