sábado, 28 de junho de 2014

As 13 previsões mais catastróficas, e furadas, sobre a Copa no Brasil

É hora de relembrar, com algumas boas gargalhadas, as previsões mais pessimistas e catastróficas feitas por cartomantes de plantão que previram o caos.

Najla Passos

A Copa do Mundo não resolveu e não irá resolver todos os problemas do país. Aliás, nem é esta a função de um evento esportivo privado. Mas que o mundial atrai turismo e investimentos externos, não há mais dúvidas. Como também não há nenhuma de que ele mexe com autoestima de um país incentivado durante séculos a cultivar um inapropriado “complexo de vira-latas”! 

Por isso, agora que o sucesso do evento já é reconhecido em todo o mundo, que o país já provou que pode ser organizar uma bela copa e que os turistas e os investimentos estrangeiros continuam chegando, é hora de dar boas gargalhadas com previsões mais pessimistas feitas pelas cartomantes de plantão que tanto torceram contra a realização do mundial.

Das adivinhações às avessas do mago Paulo Coelho à mudança de planos da cineasta que fez sucesso afirmando que não viria ao Brasil, dos prejuízos contabilizados pelo tucanato ao delírio do protesto do chuveiro no “modo quentão”, do mau-humor da imprensa estrangeira à campanha permanente da Veja, confira as 13 previsões mais catastróficas – e furadas – sobre a Copa do Mundo no Brasil!

1 – O mago Paulo Coelho: “A barra vai pesar na Copa do Mundo”

Em entrevista à revista Época, publicada em 5/4/2014, o mago, guru e escritor Paulo Coelho, que mora na Suíça, disse que não viria ao Brasil assistir aos jogos da Copa do Mundo nos estádios, apesar de ter sido presenteado com os ingressos pela FIFA. “A barra vai pesar na Copa. A Copa será um foco de manifestações justas por um Brasil melhor. Os protestos vão explodir durante os jogos porque vai haver mais gente fora do que dentro dos estádios”, afirmou.

O Mago, que “previra” que o Brasil ia ganhar a Copa das Confederações, evita arriscar o resultado para o mundial. E apresenta certezas já desconstruídas pela realidade, como a de que o Brasil deveria disputar a final com a Espanha, eliminada na 1ª fase: “Agora não sei. Certamente o Brasil irá à final com a Alemanha ou a Espanha, duas seleções fortíssimas nesta Copa. A Argentina não. A Suíça vai surpreender. Eu ousaria dizer que a Suíça vai para as quartas. No futebol, você tem que ser otimista, não tem outra escolha. O Brasil tem chances de não ganhar”.

2 – Arnaldo Jabor: “A Copa vai revelar ao mundo a nossa incompetência” 

No dia 6/6/2014, às vésperas da abertura da Copa, o cineasta Arnaldo Jabour, emcomentário para a Rádio CBN, ainda insistia no pessimismo em relação à Copa, com o objetivo claro de influir no processo eleitoral de outubro. “Nós estamos jogando fora a imensa sorte que temos, por causa de dogmas vergonhosos que não existem mais. Estamos antes do Muro de Berlim e a Copa do Mundo vai revelar ao mundo a nossa incompetência”, afirmou.

3 – Veja: “Por critérios matemáticos, os estádios da Copa não ficarão prontos a tempo”

Em 25/5/2011, a Veja previu o fracasso da Copa do Mundo no Brasil. E com a ajuda da matemática, uma ciência que se diz exata desde tempos imemoriais. Na capa, a data da logo do mundial era substituída por 2038. O intertítulo explicava: “Por critérios matemáticos, os estádios da Copa não ficarão prontos a tempo”.

De lá para cá, foram muitas outras matérias, reportagens e artigos anunciando o fracasso do mundial. E mesmo com o início dos jogos, com estádios prontos e infraestrutura à altura do desafio, a revista estampou, na edição desta semana, uma nova catástrofe iminente: “Só alegria até agora - Um festival de gols no gramado, menos pessimismo nas pesquisas, mais consumo, visitantes em festa e o melhor é aproveitar, pois legado duradouro, esqueça”.

Melhor mesmo é torcer para que, quem sabe até 2038, a Veja aprenda a fazer jornalismo!


4 – Cineasta brasileira radicada nos EUA: “Não, eu não vou para a Copa do Mundo”

Em junho de 2013, a cineasta brasileira Carla Dauden, radicada em Los Angeles, nos Estados Unidos, fez sucesso na internet com o vídeo “No, I’m Not Going to the World Cup” (“Não, eu não vou para a Copa do Mundo”), que alcançou quatro milhões de curtidas. Mas antes mesmo da bola começar a rolar nos gramados brasileiros, a ativista já era vista circulando pelo país.

No Twitter, ela justificou a abrupta mudança de planos: “Não vim para ver a Copa, vim para falar dela. A Copa nunca vai ser a mesma para os brasileiros. As pessoas não vão se esquecer do que acontecerá por aqui”, diagnosticou, antes da abertura. A frase, de fato, parece fazer sentido. Mas por motivos opostos do que aqueles que a ativista advoga!

5 - Protesto do chuveiro no “modo quentão” vai causar apagão!

Até bem pouco tempo antes do início da Copa, eram muitos os setores que insistiam no risco iminente de blackout no país, da oposição à imprensa monopolista. Um grupo de internautas, porém, levou as ameaças infundadas a sério e decidiu criar uma página no Facebook destinada a acelerar o caos: usar os jogos da Copa para provocar um apagão generalizado no Brasil e, assim, boicotar a realização do evento.

A estratégia definida foi a utilização sincronizada dos chuveiros no “modo quentão”. “Chuveiros devem ser ligados na hora dos hinos nos jogos. A carga elétrica anormal derrubará a energia em bairros, cidades, regiões, estados e o país inteiro, em efeito dominó. Acompanhem os hinos por rádio, para maior garantia de sincronização”, diz a descrição do evento que conquistou pouco mais de 4,5 mil curtidas.

Dado o fracasso do evento, a página agora é utilizada para a troca de memes contra o PT, a esquerda e as pautas sociais e progressistas!

6 – Marília Ruiz: “Vai ser um vexame. Um vexame!”

No dia 26/1/2014, a TerraTV publicou um comentário da jornalista esportiva Marília Ruiz em que ela previa que, se o Brasil conseguisse realizar a Copa, já seria uma grande vitória. A antenada comentarista até admitia que os estádios ficariam prontos. Mas sem qualidade: "Se eu sentaria o meu corpinho numa cadeira recém colocada, com um parafuso a menos? Eu não sei”.

Do alto de sua experiência em cobertura de outras copas e de um etnocentrismo latente, ela também alertava que, mesmo fazendo sua Copa após a da África, o país passaria vergonha. “Eu achei que a gente ia passar vergonha, que nós, brasileiros, que o país ia passar vergonha. Aí eu pensei, é até um alento porque a Copa do Brasil vai ser depois da Copa da África: ninguém vai lembrar muito como foi na Alemanha. Muito menos as pessoas vão lembrar como foi no Japão e na Coreia. E eu posso dizer porque estive lá. É uma vergonha ao cubo!”

Confira o comentário completo e saiba quem é que está passando vergonha!

7 - Álvaro Dias: “O país ficará com mais prejuízo do que lucro”

De todas as aves de mau agouro que bravatearam contra a realização da Copa no Brasil, o tucano Álvaro Dias, senador pelo PSDB, foi uma das mais barulhentas. Previu que o governo amargaria um prejuízo de mais de R$ 10 bilhões com a realização do evento, que os turistas não apareceriam, que os aeroportos não ficariam prontos e não dariam conta do fluxo de passageiros.


“O legado da copa do mundo me parece ser um grande fracasso. O país ficará com mais prejuízo do que lucro”, disse ele em entrevista à TV Senado, publicada no Youtube em 7/8/2013. Agora que os turistas chegaram, os investimentos estrangeiros entraram e o país tá fazendo bonito em mobilidade e infraestrutura, o senador desapareceu por completo do noticiário. Não se sabe se está esperando o evento acabar para profetizar outro apocalipse ou aproveitando as férias para curtir os jogos, como fez durante a Copa das Confederações!

8 - Ex-presidente FHC: “A Copa do Mundo como símbolo de desperdício”

Em artigo publicado no norte-americano The Wold Post, em 21/1/2014, o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso se referiu à Copa como símbolo do desperdício de dinheiro público. Tal como seu companheiro Álvaro Dias, perdeu a chance de ficar calado. Segundo a Fipe, só a Copa das Confederações rendeu R$ 9,7 bilhões ao PIB brasileiro. A projeção de retorno da Copa é de R$ 30 bilhões. A Apex-Brasil, aproveitando a Copa do Mundo, trouxe ao Braisil mais de 2,3 mil empresários estrangeiros, de 104 países. A agência estima trazer US$ 6 bilhões em negócios para o Brasil.

9 - Redação Sport TV: do fracasso ao espírito de porco!

No Programa Redação Sport TV de 22/1/2014, o apresentador deu sonoras gargalhadas ao exibir a foto de um estádio da copa ainda sem gramado e fazer previsões catastróficas sobre o evento. Na edição de 26/6/2014, o tom mudou completamente: um outro apresentador mostrou como a imprensa internacional elogiava o evento e ouviu do entrevistado Ruy Castro: “A nossa imprensa foi rigorosamente espírito de porco antes do evento começar”.


10 – Governo alemão: “O Brasil é um país de alto risco”

Há seis semanas do início da Copa, o Ministério de Assuntos Exteriores da Alemanha divulgou um relatório pintando uma imagem desoladora do Brasil, descrito como um país ode as leis não são respeitadas e o turista corre o risco de ser roubado, sequestrado e se envolver em conflitos entre policiais e criminosos. O documento listava uma série de cuidados que os gringos deveriam tomar, incluindo atenção redobrada com as prostitutas, apontadas como membros e organizações criminosas, e vigilância contínua com os copos, para não serem vítimas de um “Boa noite, Cinderela”.

Pelo documento, até mesmo a seleção alemã estaria em perigo em terras tupiniquins. E não apenas dentro de campo. “Arrastões e delitos violentos não estão descartados, lamentavelmente, em nenhuma parte do Brasil. Grandes cidades como Belém, Recife, Salvador, Fortaleza, Rio de Janeiro e São Paulo oferecem altas taxas de criminalidade”, ressaltava.

O Ministério ainda não divulgou relatórios sobre o número de alemães que vieram ao Brasil e o que estão achando da experiência. Mas quem circula pelas ruas brasileiras, repletas de gringos felizes e sorridentes, já sabe!

11 - Der Spiegel: “Justamente no país do futebol, a copa poderá ser um fracasso”

Um dos principais semanários da Europa, a revista alemã estampou, um mês antes do início da Copa, a manchete “Morte e Jogos”, destacando que, justamente no país do futebol, a Copa poderia ser um fiasco, por causa dos protestos, da violência nas ruas, dos problemas do transporte coletivo, dos aeroportos e dos estádios. Praticamente um alerta vermelho recomendando que os europeus não viessem ao Brasil.

Mas os turistas vieram e estão adorando. A imprensa estrangeira também: o jornal norte-americano The New York Times, fala em “imenso sucesso”. O francês Le Monde, em “milagre brasileiro”. O espanhol El País diz “não era pra tanto” para as previsões catastróficas. A revista inglesa The Economist, remenda que “as expectativas, que eram baixas, foram superadas”. A própria Der Espiegel, na edição desta semana, dá destaque para a animação da torcida e admite que os protestos em massa ainda não aconteceram. 


12 – Ronaldo, o fenômeno: “Da vergonha à constatação de que a Copa é um sonho”

Na véspera do início do mundial, o ex-atacante Ronaldo se disse envergonhado com os atrasos das obras da Copa. Mas, membro do Comitê Organizador Local da FIFA que é, defendeu a entidade e culpou o governo Dilma por todos os problemas. “É uma pena. Eu me sinto envergonhado porque é o meu país, o país que eu amo. A gente não podia estar passando essa imagem”, disse à Agência Reuters o cabo eleitoral e amigo do senador Aécio Neves, candidato do PSDB à presidência.

Agora, consolidado o sucesso do evento, tenta mudar o discurso. Em coletiva nesta quinta (26), procurou se justificar. "Não critiquei a organização da Copa, até porque eu faço parte dela. Disse que poderia ser muito melhor se todas as obras de mobilidade urbana tivessem sido entregues”, remendou. ”Vivíamos um clima muito tenso, com a população muito descontente. Começou a Copa, e agora estamos vivendo um sonho", concluiu.

13 – O vira vira lobisomem de Ney Matogrosso

De passagem por Lisboa, em 11/5, Ney Matogrosso resolveu usar a Copa para criticar duramente a política brasileira na TV ATP. Só esqueceu de estudar, primeiro, os argumentos. “Se existia tanto dinheiro disponível para gastar com a Copa, por que não resolver os problemas do nosso país?”, disse ele, desconhecendo que, desde 2010, quando começaram os preparativos para a Copa, o governo já investiu R$ 850 bilhões em saúde e educação, enquanto os investimentos totais no mundial – incluindo federais, locais e privados – atingem R$ 25,6 bilhões.

Foi ácido quanto à construção dos estádios que, segundo ele, irão virar “elefantes brancos” e não serão usados para mais nada. Embolou dados, números e fatos em vários argumentos. Acabou sustentando uma visão preconceituosa sobre as classes populares. Questionado se há uma maior consciência dos pobres em exigir seus direitos, concordou: “O escândalo é tamanho que até essas pessoas param para refletir”.

Texto original : CARTA MAIOR

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Legado da Copa: fatos e falácias (parte 1)

Em relação às arenas da Copa, até o momento, nenhuma obra foi definitivamente classificada como superfaturada, em relatório do TCU aprovado pelo Congresso.

José Augusto Valente (*)

Em relação ao chamado “Legado da Copa”, o que a grande imprensa tem veiculado sobre o assunto apresentam mais falácias do que fatos comprováveis. É o que tentaremos demonstrar em alguns artigos sobre o tema.

Falácia 1 – Obras dos estádios foram superfaturadas

Para início de conversa, não são estádios de futebol e sim arenas multiuso, e isso faz toda a diferença. Essas arenas foram projetadas para receber não apenas partidas de futebol, mas uma série de outros eventos, como shows, espetáculos, conferências e reuniões. Esse múltiplo uso tem um nível de exigência muito maior do que o de simples estádio. Essas arenas, por serem obras originais, com graus de dificuldade únicos, com rigorosos requisitos de segurança, conforto e sustentabilidade, quase sempre necessitam de ajustes e consequentes aditivos. 

Sem essa flexibilidade, dificilmente haveria empresas de construção de porte interessadas no contrato. Especialmente, nos casos das PPPs e concessões, que representam a modalidade de contratação de boa parte das arenas, no qual a TIR (taxa interna de retorno) é definida pelas condições de mercado e não por decreto. Além disso, pelo fato de todas as arenas serem originais - não existirem iguais no mundo – não há como estabelecer comparações de custo com outros empreendimentos similares.

Assim também, obras de urbanização no entorno das arenas, como os jardins de Burle Marx em Brasília, incluem um forte componente de custo, que impede a comparação com outros estádios no mundo.

Quanto ao termo “superfaturamento”, ele é utilizado, a todo momento, como se fosse óbvio o seu significado. Será que é mesmo?

O que o TCU considera “superfaturamento”? Buscando essa palavra, no site do órgão, não aparece qualquer resultado. Idem, no Regimento Interno. A única menção a esse termo foi encontrada em uma retenção cautelar, em um caso no qual o pagamento de valores de mão-de-obra foram inferiores àqueles declarados nos demonstrativos de formação de preços. O custo do contratado era, na prática, bem inferior ao custo mencionado na sua proposta.

Então, o que é necessário ocorrer para se afirmar que houve “superfaturamento de obra pública”? Na minha opinião, é necessária a ocorrência das seguintes três condições, isolada ou simultaneamente, sendo a primeira imprescindível, caso contrário não se aplica falar em “superfaturamento de obra pública”:

a) a obra é financiada total ou parcialmente com dinheiro público;
b) o valor pago pelo contratante está acima do valor proposto ou aditivado; e
c) os valores unitários dos itens da obra estão muito acima dos valores de mercado, em situações similares.

Como disse no início deste texto, o fato da arenas serem obras únicas impede a comparação com outras obras, já que não existem situações similares. O item (c) fica, portanto, eliminado, para fundamentar “superfaturamento”.

Quanto ao item (a), três arenas são totalmente privadas (São Paulo/Corinthians, Porto Alegre/Internacional e Curitiba/Atlético). Não cabe, portanto, falar em superfaturamento nestas obras. Cabe, no máximo, questionar a aprovação do financiamento pelo BNDES.

Quatro arenas foram construídas e serão gerenciadas, em regime de PPP, com os governos de estado, como as de Belo Horizonte, Salvador, Fortaleza e Recife e duas, em regime de concessão, como a de Natal e Rio de Janeiro. Nestes casos, o item (a) está contemplado, cabendo então analisar se os custos finais estimados, e considerados para o financiamento do BNDES, são adequados ou não.

A arena de Brasília terá gestão do Governo do Distrito Federal cabendo, portanto, análise de eventual superfaturamento. Duas outras arenas serão definidas após a Copa, como as de Manaus e Cuiabá, com possibilidade de concessão. Por envolver recurso público, cabe aqui também analisar a possibilidade de superfaturamento.

Os problemas identificados pelo TCU incluem sobrepreço, falhas na elaboração dos projetos, suspeita de irregularidades nos contratos e salto no custo das obras. Num primeiro momento, o TCU detecta eventuais indícios de irregularidades e solicita informações aos gestores públicos para esclarecimento. Normalmente, nesse momento, a imprensa já afirma que há superfaturamento e não simples “indícios a serem esclarecidos”. Na grande maioria dos casos, após os esclarecimentos, o TCU se considera satisfeito e a obra prossegue. Não conheço um caso em que a imprensa tenha noticiado a não procedência de suspeita de irregularidades, previamente anunciada com estardalhaço.

Em relação às arenas da Copa 2014, até o momento, nenhuma obra foi definitivamente classificada como superfaturada, em relatório do TCU aprovado pelo Congresso Nacional, o que torna falaciosa qualquer afirmação de que houve superfaturamento!

(*) José Augusto Valente – especialista em logística e infraestrutura

Texto original: CARTA MAIOR

terça-feira, 24 de junho de 2014

5 falácias e 5 verdades sobre a Copa no Brasil

Os arautos do caos e do desconcerto na velha mídia nacional e internacional perderam o pé e estão naufragando. Mas nem por isso vão perder a esperança.

Flávio Aguiar

Com base na cobertura da velha mídia nacional e internacional podemos afirmar sem medo de que eram e são falácias:

1. Acreditar que o Brasil não tem condição para organizar eventos deste porte, porque é um país onde grassam apenas a corrupção, a violência e a incompetência. Quem acreditou nisto perdeu a aposta. E tem mais: o Brasil já ganhou prêmio da ONU pelo combate à corrupção e lidera a comissão a respeito na OCDE.

2. O Brasil é e será um país de eternos pobretões, miseráveis e favelados para sempre. O Brasil está se superando e deixando outras nações a ver poeira em matéria de combate à pobreza. No recente Congresso da Confederação Sindical Internacional, que elegeu o brasileiro João Felício (ex-presidente da CUT e da Apeoesp) como seu presidente, o pronciamento da representante da ONU a respeito foi enfática: em matéria de dminuição da pobreza o Brasil é um exemplo a ser estudado e seguido. Mas não esqueçamos: isto não deve ser motivo de desprezo em relação a outros países. Ao contrário, deve ser motivo de maior solidariedade internacional.

3. A população brasileira tornou-se contrária à realização da Copa no país. Esta é a oração mais repetida da ladainha contra o nosso país. Não é verdade. Sucessivas reportagens de outros países atestam o entusiasmo de nossa população com a Copa, além de depoimentos oriundos do Brasil também. 80% da população é a favor, indicam as últimas pesquisas.

4. O Brasil não deveria aplicar em estádios o dinheiro que deveria aplicar em educação e saúde. Não só isto não é verdade (os investimentos motivados pela Copa, inclusive nos estádios, são pequenos em relação ao que o país investe em educação e saúde), como revela má fé ou ignorância por parte de quem os manipula ou repete. Quem faz isto ou oculta ou ignora a complexidade econômica, social e cultural de um país como o Brasil. Os investimentos em infra-estrutura de mobilidade urbana, viária, ou ainda aérea geraram mais de 700 mil empregos no país. Eles deveriam ter sido feito antes – isto sim pode ser uma crítica construtiva. Mas agora saíram do papel. Graças, em parte, à Copa.

5. As vaias e os insultos do setor VIP no Itaquerão e as manifestações “Não vai ter Copa” são representativas do sentimento e mal estar geral da população. Não são. As vaias e xingamentos provocaram mais repúdio do que aplauso, inclusive por parte de gente do setor conservador e/ou que por qualquer razão não votou nem votaria na presidenta em outubro. As manifestações minguaram em frequência e em número de manifestantes e só ganham espaço na mídia devido à busca de sensacionalismo.

Vamos agora às verdades:

1. Esta pode não ser a Copa das Copas em matéria de futebol (confesso que para quem viu, a de 58 não sai das retinas), mas decididamente é a melhor Copa nestes termos nos últimos tempos. Hospedar futebol de tamanha qualidade, ofensivo, bonito e eletrizante por vezes, além de ser uma honra para um país, certamente será um incentivo para nossos jogadores – presentes e futuros – ostentarem algo parecido. Além disso é lindo ver times como os do Uruguai, da Costa Rica e de Gana fazerem das tripas coração e jogarem bonito contra equipes milionárias e tidas como imbatíveis.

2. Nosso povo está dando um show de bola em matéria de alegria, hospitalidade e esportividade. Incidentes isolados e menores não conseguem tapar esta realidade com as peneiras do descrédito e do desprezo, que insistem que as cidades brasileiros são verdadeiros faroestes de violência, desorganização, furtos, roubos e assassinatos. A Copa renderá dividendos no futuro: a grande maioria dos visitantes vai desejar voltar e conhecer o que ainda não teve oportunidade de conhecer, do Oiapoque ao Chuí e do Acre à Paraíba.

3. O nosso povo pensa com a cabeça e o coração e ama o nosso país. Estão correndo mundo cenas como a da camareira supreendida no quarto de hotel a cantar e a dançar o hino nacional que vioa e ouvia pela televisão. Também correm mundo as cenas dos estádios inteiros a cantar nosso hino com vontade e... afinação também! Nem por isto viramos nacionalistas xenófobos e que não vêem o próprio país com discernimento e também críticas. Atesta isto a rotação do nome “Não vai ter Copa”, uma ilusão deste sempre, para o de “Vai ter luta na Copa”, ou “Copa com luta”, que pode ser algo positivo e produtivo.

4. A realização da Copa está contribuindo para construir uma imagem muito positiva do Brasil e disseminando-a pelo mundo afora. Aos poucos populações de todo o mundo vão pulando por cima dos noticiários preconceituosos e exclusivamente negativos e percebendo por trás deles ou mesmo nas entrelinhas o entusiasmo com que o nosso povo recebe a Copa e seus benefícios. Comentários de leitores indignados com notícias ou artigos que torcem tudo para mostrar apenas o que é ruim – ou o que deveria ser ruim – se multiplicam.

5. Os arautos do caos e do desconcerto na velha mídia nacional e internacional perderam o pé e estão naufragando. Mas nem por isso vão perder a esperança, na expectativa de que ainda haja alguma catástrofe dentro dos campos (por exemplo, uma possível eliminação precoce do Brasil) ou fora dele: aqui serve qualquer coisa, de inundação a desastre. Afinal, velha mídia é velha mídia, e tem uma reputação a manter.

Texto original: CARTA MAIOR

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Exoesqueleto do Professor Nicolelis deu um chute no traseiro dos detratores do Brasil

De vez em quando, torcer contra o Brasil chega ao limite do ridículo e faz vítimas improváveis. O mais recente alvo dessa babaquice foi Miguel Nicolelis.

Antonio Lassance

Dizem os mais espirituosos que, no jogo de abertura da Copa, Brasil x Croácia, quando o lateral Marcelo (tricolor) viu a bola e o goleiro Júlio César (flamenguista) à sua frente, não resitiu e pensou: "quer saber, isso aqui é Fla-Flu" - e mandou a bola para dentro do gol brasileiro.

A piada é ótima porque explora o absurdo de uma situação improvável. Improvável?

Torcer contra o Brasil, por razões que vêm de outros carnavais, é algo mais comum do que se imagina.

Há, de tudo, um pouco. Comemorar o gol da Croácia é o de menos. Dizer que #NaoVaiTerCopa e queimar nossa bandeira em praça pública mostraram-se atos isolados, que acabaram surtindo efeito contrário.

Torcida do contra, para valer mesmo, foi aquela feita pelo representante oficial de um grande banco privado brasileiro, feita em Davos (Suíça) e alhures, que declarou enfaticamente torcer para que o país fosse rebaixado pelas agências de classificação de risco - aquelas mesmas que não viram o elefante na sala de estar do capitalismo na megacrise que explodiu em 2008.

De vez em quando, torcer contra o Brasil chega ao limite do ridículo e faz vítimas improváveis.

O mais recente alvo desse tipo de babaquice foi o respeitado neurocientista Miguel Nicolelis - respeitado principalmente lá fora, pois, aqui dentro, sobram detratores.

Nicolelis se apresenta nas redes sociais como cientista e "apaixonado pelo Brasil". Revela, porém, seu defeito de ser palmeirense - ainda assim, uma razão irrelevante para se torcer contra Nicolelis.

Este brasileiro de quem me ufano lidera pesquisas pioneiras que se dedicam a fazer com que pessoas que perderam seus movimentos voltem a andar, a correr, a jogar bola, a ter uma vida com menos limitações. Seu principal projeto tem um sugestivo e emocionante nome: "Andar de novo".

Sua mágica é juntar neurociência, computação e robótica. A combinação foi representada no exoesqueleto levado a campo, na abertura da Copa, para ajudar o paraplégico Juliano Pinto a dar um chute que, simbolicamente, foi o pontapé inicial de muitos avanços.

Mas nada disso mostrou-se suficiente para evitar que Nicolelis fosse alvo dos ataques dos calunistas de plantão, que o acusaram de midiático, perdulário com o dinheiro público, farsante e de criar algo que pode ter futuro uso militar - claro, como a pólvora, o avião, os alimentos enlatados, o satélite, o computador, o telefone celular.

Acredite, Nicolelis foi acusado de "nacionalista" e também de ser um novo Santos Dumont, pejorativamente, por se dizer inventor de algo já inventado - sim, há quem, por aqui, prefira acreditar na lenda de que quem inventou o avião foram os irmãos Wright, aqueles que fabricaram um planador que só decolava catapultado, que teve um voo documentado por uma foto desfocada e de escassas testemunhas. 

Até hoje, ninguém conseguiu fazer uma réplica do aeroplano dos irmãos Wright que conseguisse voar, ao contrário do voo perfeito da réplica do 14-Bis, em seu centenário (2006).

A maledicência contra Nicolelis lembra o destino de outro gigante da Ciência do Brasil, Carlos Chagas (1878-1934).

A tripanossomíase americana, popularmente conhecida como Doença de Chagas, em homenagem ao cientista, era um verdadeiro flagelo de várias regiões mais pobres de países de clima tropical.

Chagas descobriu o agente transmissor da doença, descreveu seu ambiente de propagação, seu ciclo evolutivo e, mais importante, salvou muitas vidas.

Como o professor Nicolelis, Chagas era um apaixonado pelo Brasil. Seu filho, Carlos Chagas Filho, também grande cientista, conta em seu livro de memórias que uma das mais marcantes recomendações que recebeu do pai foi a de que conhecesse o Brasil - que fosse para o interior do País, visitasse as localidades mais distantes e pobres. Isso era ciência para os Chagas.

Carlos Chagas, o pai, foi indicado ao Prêmio Nobel e sua descoberta tinha razões de sobra para que ele fosse laureado.

Curiosamente, a principal oposição à indicação de Chagas não vinha da comissão do Nobel, mas de alguns de seus compatriotas do Instituto de Patologia Experimental de Manguinhos (hoje, Fundação Oswaldo Cruz) e da Academia Nacional de Medicina.

A oposição dos "colegas", que disputavam influência no Instituto, contra o herdeiro natural de Oswaldo Cruz, ia ao ponto de se negar a existência da doença e de se levantar dúvidas sobre a seriedade do trabalho de Chagas.

Essas desavenças chegaram aos ouvidos da comissão do Nobel, que, por via das dúvidas, deixou o ano de 1921 sem a premiação da área para a qual Chagas estava indicado.

Nicolelis, com Santos Dumont e Carlos Chagas, está em boa companhia.

Ao fim e ao cabo, não só os calunistas de Nicolelis, mas a própria Fifa, que desprezou o experimento e foi uma das principais críticas da Copa do Mundo no Brasil, receberam um chute no traseiro, para usar a expressão preferida do cartola Jérôme Valcke.

Foi um chute no traseiro com estilo, VIP, dado de dentro de um exoesqueleto por alguém que quer andar de novo.

(*) Antonio Lassance é cientista político. Texto publicado originalmente no Blog da Editora Boitempo

Texto original: CARTA MAIOR

domingo, 22 de junho de 2014

O STF e a constituição !

O Brasil vive um momento em que a população cobra punição a tudo que é denuncia de corrupção. Toda a população se orienta nos fatos divulgados plea chamada grande imprensa. Não analisam se as denuncias são realmente falsa ou verdadeira, se estão sendo passadas notícias faltados fatos, se as informações estão distorcidas ou mesmo se são falsas. Basta que a televisão denuncie e já se pede a cabeça do acusado. Em todas essas acusações e denuncias tem um fato interessante, só existem os corruptos e os corruptores nunca são informados ou se passa a ideia que não existem.

A situação fica mais grave ao notarmos que as denuncias são feitas sempre em relação ao partido do Governo Federal, como se não existissem os demais partidos, ou como se nas administrações estaduais (o PSDB governa nove estados) e municipais (o PMDB é o partido com maior número de prefeituras) não existissem corrupção (na realidade estão ocultando os fatos). A coisa se tornou tão grave que não se analisa as informações e se a lei está sendo ou não cumprida!!

O STF é o órgão responsável de se
garantir que se cumpra a constituição.

O Joaquim Barbosa (Presidente do
STR) rasgou a constituição que
deveria defender!!!!!
O fato, que mais me chama a atenção não, é o povão se guiar pelo imprensa , mas advogados, professores e médicos endossarem e em nome da justiça aceitar que se condene qualquer acusado do partido do governo com provas ou não! E nesta ordem a coisa fica mais escandalosa em se tratando de advogados (são os profissionais da Lei). O mais grave é quando olhamos a composição e as atitudes dos ministros (juízes) do Supremo Tribunal Federal (órgão responsável para fazer cumprir o que está escrito na nossa constituição). É só perguntar a qualquer advogado se pode condenar alguém sem provas que o mesmo em vez de dar as devidas explicações vem logo gritando: querem soltar os bandidos, o cara já foi julgado em trânsito, você quer me dizer que ali só tem inocentes? Mas não perguntei se eram inocentes ou culpados! Eu perguntei se é correto condenar uma pessoa sem mostrar as devidas provas? Infelizmente a grande maioria dos advogados saem bradando que sou defensor de bandidos e petista e nem notam que estão demonstrando lado político e sem nenhuma preocupação de serem profissionais da lei e demonstram que não estão nem um pouco preocupado com o cumprimento ou não da lei!

Os professores, embora não sejam profissionais da lei, são os formadores dos futuros cidadãos! E como formadores dos futuros cidadãos e ao não mostrarem os argumentos que justifiquem tal pergunta, já mostram os tipos de cidadãos que estão pretendendo formar, cidadãos que não questionam os fatos!!!. Estão formando cidadãos que se é contra o que eu considero um inimigo, que se condene, pouco importa a existência ou não da lei!!!

Joaquim Barbosa é condecorado com a
medalha da ordem de Tiradentes por
políticos que ele não condenou no
mensalão do PSDB!
É comum se verificar a defesa de Joaquim Barbosa, inclusive entre advogados e professores (já presenciei vários casos), como um herói nacional!!! Esse herói foi relator dos dois processos do mensalões (devido a interferência dos meios de comunicação a população pensa que foi somente um). Um ele fatiou o processo para que fossem mandado para a primeira instância (o mensalão do PSDB) e o outro ele pediu a condenação de todos os acusados e afirmando que não tinha provas, mas utilizando uma tal de “Teoria dos Fatos”, pediu a condenação de todos!!! Estranha contradição!!!!

O processo Mensalão do PSDB é mais antigo que o Mensalão do PT e estranhamente o mensalão do PT foi julgado primeiro e os acuados do mensalão do PSDB estão sendo inocentados porque as penas estão prescrevendo. Justiça com dois pesos e duas medidas!

Leia também:
MEGACIDADANIA - Confirmado, Barbosa forjou condenações
Diário do Centro do Mundo - Quem desmoralizou o STF foi o próprio STF
Blog da Cidadania - Visita de deputados a Dirceu desmoralizou Legislativo, Judiciário e imprensa

Antônio Carlos Vieira
Licenciatura Plena - Geografia
http://carlos-geografia.blogspot.com.br


Texto original neste endereço:

terça-feira, 17 de junho de 2014

A Agência Internacional de Energia disse que a festa acabou

Serão necessários cerca de 48 trilhões em investimentos até 2035 para cobrir as crescentes necessidades energéticas mundiais, segundo disse a AIE.

Richard Heinberg (*)

A Agência Internacional de Energia (AIE, ou IEA, em sua sigla em inglês) acaba de publicar um relatório especial intitulado “Perspectivas mundiais de investimento em energia”, que deveria fazer com que os políticos começassem a se desesperar correndo em busca da saída – se quiserem ler as entrelinhas e ver o informe no contexto das tendências financeiras e geopolíticas atuais.

Serão necessários 48 trilhões em investimentos até 2035 para cobrir as crescentes necessidades energéticas mundiais, segundo disse a AIE na última terça-feira em Paris. A diretora-executiva da AIE, Maria van der Hoeven, declarou que a confiabilidade e a sustentabilidade dos futuros abastecimentos de energia dependem de um alto nível de investimento. “Mas isso não se materializará, a menos que esteja em funcionamento um marco político crível, assim como um acesso estável a fontes financeiras a longo prazo”, disse. “Nenhuma dessas condições deveria ser dada por garantidas”.

E aqui segue um pouco do contexto que falta ao informe da AIE: a indústria do petróleo, na realidade, está reduzindo custos no investimento upstream (em busca de novas jazidas e perfuração). Por quê? Os preços mundiais do petróleo – que, com o preço atual por barril entre dos 90 a 110 dólares, estão em níveis historicamente altos – são, no entanto, muito baixos para justificar a afronta a uma geologia cada vez mais exigente. A indústria precisa de um preço do petróleo de pelo menos 120 dólares por barril para financiar a exploração no Ártico e em alguns campos ultraprofundos. E não nos esqueçamos: os tipos de juros atuais são ultrabaixos (graças ao quantitative easing da Reserva Federal), de modo que conseguir investimentos de capital deveria ser mais fácil agora do que nunca. Se acaba o QE e os tipos de juros sobem, a capacidade da indústria e dos governos de aumentar o investimento em capacidade de produção de energia diminuirá no futuro.

Outros pontos do informe deveriam provocar igualmente um ataque de nervos nos políticos.

A bolha da rocha está se destruindo. Em 2012, a AIE previa que as taxas de extração de petróleo das formações rochosas nos EUA (principalmente, em Bakken, na Dakota do Norte e Eagle ford, no Texas) continuarão crescendo durante muitos anos, superando os EUA e a Arábia Saudita na taxa de produção de petróleo para 2030 e se transformando em um exportador neto de petróleo para 2030. Em seu novo informe, a AIE disse que a produção de tight oil nos EUA começará a diminuir por volta de 2020. Alguém até poderia pensar que o pessoal da AIE andaram lendo as análises do Post Carbon Institute sobre as previsões de tight oil e gás de rocha! www.shalebubble.org. É uma bem-vinda dose de realismo, embora a AIE provavelmente siga pecando pelo otimismo: nossa própria leitura dos dados sugere que o declínio começará antes e será mais abrupto.

Ajude-nos, OPEP! Você é nossa única esperança!

Isto é o que Wall Street Journal coloca em seu artigo sobre o relatório: “Uma agência de controle de energia de máximo nível disse que o mundo precisará de mais petróleo do Oriente Médio na próxima década, à medida que o boom nos EUA diminua. Mas a Agência Internacional de Energia avisa que pode ser que os produtores do Golfo Pérsico não consigam cobrir a brecha arriscando preços do petróleo mais altos”.

Vejamos: Como está a OPEP nesses dias? Iraque, Síria e Líbia estão em um caos político. O Irã definha sob as sanções comerciais dos EUA. As reservas de petróleo da OPEP continuam ridiculamente sobre-estimadas. E ainda que os sauditas compensem o declínio dos velhos campos de petróleo, colocando em produção novos locais, estão ficando sem novos campos para desenvolver. Dessa forma, parece que o risco de preços de petróleo mais altos é bastante grande.

Uma previsão de preços: “O quê, isso me preocupa?” (Frase célebre pronunciada pelo menino mascote da revista de humor MAD). Apesar de todos esses desenvolvimentos funestos, a AIE não apresenta nenhuma mudança em relação a sua previsão de preços de petróleo de 2013 (isto é, um aumento gradual dos preços do petróleo mundial a 128 dólares por barril para 2035). O novo informe disse que a indústria do petróleo terá que aumentar seu investimento em upstream no período previsto em 2 bilhões de dólares sobre as previsões anteriores de investimento da AIE.

De onde se supõe que a indústria petroleira vai deduzir que esses 2 bilhões de dólares saiam senão de preços significativamente mais altos? (Mais altos a curso prazo, talvez, do que a previsão de preços em longo prazo da AIE de 129 dólares por barril e subindo). Essa previsão de preços é obviamente pouco confiável, mas isso não é nada novo. A AIE vem publicando previsões de preços absurdamente equivocadas durante toda a década passada. De fato, se o enorme aumento de investimento em energia recomendado pela AIE for feito, tanto a energia elétrica como o petróleo serão muito menos acessíveis. Para uma economia mundial estritamente atada à conduta dos consumidores e dos mercados, uma economia já em estancamento ou contração, as limitações energéticas significam uma coisa e apenas uma: tempos difíceis.

E o que acontece com as energias renováveis?

A AIE prevê que apenas 15% dos 48 bilhões necessários irão para energias renováveis. Todo o demais é necessário apenas para remendar nosso atual sistema energético de petróleo-carnobo-gás de forma que não acabe na sarjeta por falta de combustível. Mas, quanto investimento seria necessário se a mudança climática fosse levada a sério? A maior parte das estimativas se referem apenas à eletricidade (isto é, passam por cima do crucial e problemático setor do transporte) e ignoram a questão da taxa de retorno energético. Inclusive quando simplificamos artificialmente o problema dessa forma, 7,2 bilhões divididos ao longo de vinte anos simplesmente não são suficientes. Um pesquisador estima que os investimentos terão que subir entre 1,5 a 2,5 bilhões por ano. De fato, a AIE está nos dizendo que não temos o que nos falta para manter nosso atual regime energético e provavelmente não vamos investir o suficiente para mudar para outro.

Se você olhar para as tendências citadas e ignoradas e para as enganosas previsões de preços explícitas, a mensagem da AIE é clara: a estabilidade continuada dos preços do petróleo parece problemática. E com os preços dos combustíveis fósseis altos e voláteis, os governos provavelmente terão mais dificuldade de dedicar o capital de investimento progressivamente escasso ao desenvolvimento de nova capacidade energética renovável.

Quando ler esse informe, imagine-se na pele de um político de alto nível. Você não vai querer começar a pensar em uma aposentadoria antecipada?

(*) Ecólogo e professor universitário norte-americano, especializado em temas relacionados aos aspectos ambientais e sociais do uso de energias e suas fontes e, em particular, os relacionados às consequências resultantes das teorias do esgotamento do petróleo.

TExto original: CARTA MAIOR

sábado, 14 de junho de 2014

Os heróis à brasileira!

Dizem que um os fatos nunca se repetem! Os fatos realmente não se repetem, mas os meios de manipulação, da Opinião Pública, sempre serão usados por quem os controla.


O Caçador de Marajás

Nas as eleições de 1999, durante a campanha para as eleições presidenciais, a mídia criou a figura do Herói Nacional Caçador de Marajás. O então governador do Estado de alagoas, Fernando Colo de Melo, foi escolhido o candidato dos grandes meios de comunicação e glorificado como herói nacional e batizado de O Caçador de Marajás. Matérias sensacionalistas, fotos estampadas nas capas da Revista Veja, aparições nos programas das TVs, principalmente nos programas jornalísticos da Rede Globo e foi vendido como a solução para os problemas da nação brasileira.

Depois se mostrou um desastre. O mais interessante é que os mesmos órgão de imprensa, que o glorificaram, foram os primeiros a colocarem como uma pessoa desonesta da pior espécie!!! Até mesmo o congresso caçou o mandato (o único deposto por um processo de impeachment no país) tentando mostrar uma seriedade que até hoje a população não viu. Claro que o Problema do Fernando Color foi bater de frente com o congresso e mandar cortar os contratos de publicidade com a Rede Globo. Deste momento em diante virou o inimigo número um da estranha “moralidade” da Rede Globo!


O Caçador de Corruptos

Estamos próximo a uma nova eleição para presidente do Brasil e a grande imprensa mais uma vez direciona seu ataque de manipulação mediática expondo o mensalão dos Petistas(chamado assim, mas tendo vários membros de outros partidos), só que são dois processo de mensalões, e tornando o juiz e relator do processo (na realidade ele foi relator dos dois processos) em uma espécie de Herói Justiceiro e Caçador de Corruptos e segundo a Revista Veja é o Menino pobre que mudou o Brasil! Estranhamente, a grande maioria das pessoas julgam e estão contentes achando que se caçou os corruptos do mensalão. Como a imprensa só expõe a público de maneira continua e constante somente o mensalão petista, as pessoas não se dão conta que foram dois processo com as mesmas acusações, muitos dos acusados aparecem nos dois processos e o mesmo relator (Ministro Joaquim Barbosa). O relator pediu e condenou todos do Mensalão Petista e o Mensalão Tucano, que a população não viu na mídia, acha que não existiu. O Mensalão Tucano (que a Globo insiste de chamar de Mensalão Mineiro), foi desmembrado ( fatiado) e mandado para primeira instância. Dois processo idênticos julgados de maneira diferentes!!!!

Joaquim Barbosa foi condecorado
com a  Ordem Tiradentes por um
dos acusados no Mensalão Tucano.
Como todo processo tem um prazo para ser julgado e passado esse prazo os acusados são inocentados pelo motivo do processo prescrever, o Herói Justiceiro e Caçador de Corruptos conseguiu com que os mensaleiros tucanos ( todos do PSDB) ficasse livres e inocentados da acusação!




A manipulação


Estranhamente o Justiceiro sempre
aparece de braços dados com Tucanos
O processo batizado de Mensalão Mineiro (o povo mineiro não merece) foi aberto primeiro, mas estranhamente foi julgado depois. O então Presidente do Supremo, Carlos Ayres Brito, mudou a ordem de julgamento sem nenhuma justificativa! Desde então (2005) só aparece nos meios de comunicação o Mensalão petistas e o Mensalão Tucano sumiu dos jornais da Rede Globo, Revista Veja e cia!

O poder de manipulação, de guiar o pensamento, da população, por intermédio da imprensa, é tão grande que as pessoas criticam e condenam como se fossem um único processo dos mensaleiros e nunca tivesse existido o mensalão Tucano! Muitos estão glorificando o Joaquim Barbosa como um homem honesto que faz justiça (justiceiro). Só que olhando bem, esse justiceiro é muito seletivo, condenou os envolvidos em um mensalão e os outros, do Mensalão Tucano,  ele criou meios para que ficassem sem serem julgados e condenados!!!!

O então presdiente (Joaquim Barbosa) do STF (Supremo Tribunal Federal),
órgão responsável de fazer que seja cumprido o que está escrito na nossa
Constituição Federal!!!

terça-feira, 10 de junho de 2014

Vergonha do Brasil e de ser brasileiro?



Marcelo Zero*

Ao contrário de alguns, não sinto nenhuma vergonha do meu país.

Não sinto vergonha dos 36 milhões de brasileiros que conseguiram sair daquilo que Gandhi chamava de a “pior forma de violência”, a miséria.

Agora, eles podem sonhar mais e fazer mais. Tornaram-se cidadãos mais livres e críticos. Isso é muito bom para eles e muito melhor para o Brasil, que fica mais justo e fortalecido. E isso é também muito bom para mim, embora eu não me beneficie diretamente desses programas. Me agrada viver em um país que hoje é um pouco mais justo do que era no passado.

Também não sinto vergonha dos 42 milhões de brasileiros que, nos últimos 10 anos, ascenderam à classe média, ou à nova classe trabalhadora, como queiram.

Eles dinamizaram o mercado de consumo de massa brasileiro e fortaleceram bastante a nossa economia. Graças a eles, o Brasil enfrenta, em condições bem melhores que no passado, a pior crise mundial desde 1929. Graças a eles, o Brasil está mais próspero, mais sólido e menos desigual. Ao contrário de alguns, não me ressinto dessa extraordinária ascensão social. Sinto-me feliz em tê-los ao meu lado nos aeroportos e em outros lugares antes reservados a uma pequena minoria. Sei que, com eles, o Brasil pode voar mais alto.

Não tenho vergonha nenhuma das obras da Copa, mesmo que algumas tenham atrasado. Em sua maioria, são obras que apenas foram aceleradas pela Copa. São, na realidade, obras de mobilidade urbana e de aperfeiçoamento geral da infraestrutura que melhorarão a vida de milhões de brasileiros. Estive no aeroporto de Brasília e fiquei muito bem impressionado com os novos terminais e com a nova facilidade de acesso ao local. Mesmo os novos estádios, que não consumiram um centavo sequer do orçamento, impressionam. Lembro-me de velhos estádios imundos, inseguros, desconfortáveis e caindo aos pedaços. Me agrada saber que, agora, os torcedores vão ter a sua disposição estádios decentes. Acho que eles merecem. Me agrada ainda mais saber que tido isso vem sendo construído com um gasto efetivo que representa somente uma pequena fração do que é investido em Saúde e Educação. Gostaria, é claro, que todas as obras do Brasil fossem muito bem planejadas e executadas. Que não houvesse aditivos, atrasos, superfaturamentos e goteiras. Prefiro, no entanto, ver o Brasil em obras que voltar ao passado do país que não tinha obras estruturantes, e tampouco perspectivas de melhorar.

Tranquiliza-me saber que o Brasil tem um sistema de saúde público, ainda que falho e com grandes limitações. Já usei hospitais públicos e, mesmo com todas as deficiências do atendimento, sai de lá curado e sem ter gasto um centavo. Centenas de milhares de brasileiros fazem a mesma coisa todos os anos. Cerca de 50 milhões de norte-americanos, habitantes da maior economia do planeta e que não têm plano de saúde, não podem fazer a mesma coisa, pois lá não há saúde pública. Obama, a muito custo, está encontrando uma solução para essa vergonha. Gostaria, é óbvio, que o SUS fosse igual ao sistema de saúde pública da França ou de Cuba. Porém, sinto muito orgulho do Mais Médicos, um programa que vem levando atendimento básico à saúde a milhões de brasileiros que vivem em regiões pobres e muito isoladas. Sinto alívio em saber que, na hora da dor e da doença, agora eles vão ter a quem recorrer. Sinto orgulho, mas muito orgulho mesmo, desses médicos que colocam a solidariedade acima da mercantilização da medicina.

Estou também muito orgulhoso de programas como o Prouni, o Reuni, o Fies, o Enem e os das cotas, que estão abrindo as portas das universidades para os mais pobres, os afrodescendentes e os egressos da escola pública.

Tenho uma sobrinha extremamente talentosa que mora no EUA e que conseguiu a façanha de ser aceita, com facilidade, nas três melhores universidades daquele país. Mas ela vai ter de estudar numa universidade de segunda linha, pois a família, muito afetada pela recessão, não tem condição de pagar os custos escorchantes de uma universidade de ponta. Acho isso uma vergonha.

Não quero isso para o meu país. Alfabetizei-me e fiz minha graduação e meu mestrado em instituições públicas brasileiras. Quero que todos os brasileiros possam ter as oportunidades que eu tive. Por isso, aplaudo a duplicação das vagas nas universidades federais, a triplicação do número de institutos e escolas técnicas, o Pronatec, o maior programa de ensino profissionalizante do país, o programa de creches e pré-escolas e o Ciência Sem Fronteiras. Gostaria, é claro, que a nossa educação pública já fosse igual à da Finlândia, mas reconheço que esses programas estão, aos poucos, construindo um sistema de educação universal e de qualidade.

Tenho imenso orgulho da Petrobras, a maior e mais bem-sucedida empresa brasileira, que agora é vergonhosamente atacada por motivos eleitoreiros e pelos interesses daqueles que querem botar a mão no pré-sal. Nos últimos 10 anos, a Petrobras, que fora muito fragilizada e ameaçada de privatização, se fortaleceu bastante, passando de um valor de cerca de R$ 30 bilhões para R$ 184 bilhões. Não bastasse, descobriu o pré-sal, nosso passaporte para o futuro.

Isso seria motivo de orgulho para qualquer empresa e para qualquer país. Orgulha ainda mais, porém, o fato de que agora, ao contrário do que acontecia no passado, a Petrobras dinamiza a indústria naval e toda a cadeia de petróleo, demandando bens e serviços no Brasil e gerando emprego e renda aqui; não em Cingapura. Vergonha era a Petrobrax. Pasadena pode ter sido um erro de cálculo, mas a Petrobrax era um crime premeditado.

Vejo, com satisfação, que hoje a Polícia Federal, o Ministério Público, a CGU e outros órgãos de controle estão bastante fortalecidos e atuam com muita desenvoltura contra a corrupção e outros desmandos administrativos. Sei que hoje posso, com base na Lei da Transparência, demandar qualquer informação a todo órgão público. Isso me faz sentir mais cidadão. Estamos já muito longe da vergonha dos tempos do “engavetador-geral”. Um tempo constrangedor e opaco em que se engavetavam milhares processos e não se investigava nada de significativo.

Também já se foram os idos vergonhosos em que tínhamos que mendigar dinheiro ao FMI, o qual nos impunha um receituário indigesto que aumentava o desemprego e diminuía salários. Hoje, somos credores do FMI e um país muito respeitado e cortejado em nível mundial. E nenhum representante nosso se submete mais à humilhação de ficar tirando sapatos em aeroportos. Sinto orgulho desse país mais forte e soberano.

Um país que, mesmo em meio à pior recessão mundial desde 1929, consegue alcançar as suas menores taxas de desemprego, aumentar o salário mínimo em 72% e prosseguir firme na redução de suas desigualdades e na eliminação da pobreza extrema.

Sinto alegria com esse Brasil que não mais sacrifica seus trabalhadores para combater as crises econômicas.

Acho que não dá para deixar de se orgulhar desse novo país mais justo igualitário e forte que está surgindo. Não é ainda o país dos meus sonhos, nem o país dos sonhos de ninguém. Mas já é um país que já nos permite sonhar com dias bem melhores para todos os brasileiros. Um país que está no rumo correto do desenvolvimento com distribuição de renda e eliminação da pobreza. Um país que não quer mais a volta dos pesadelos do passado.

Esse novo país mal começou. Sei bem que ainda há muito porque se indignar no Brasil.

E é bom manter essa chama da indignação acessa. Foi ela que nos trouxe até aqui e é ela que nos vai levar a tempos bem melhores. Enquanto houver um só brasileiro injustiçado e tolhido em seus direitos, todos temos de nos indignar.

Mas sentir vergonha do próprio país, nunca. Isso é coisa de gente sem-vergonha.

(*) Marcelo Zero é formado em Ciências Sociais pela UnB

Texto original: PRAGMATISMO POLÍTICO

domingo, 8 de junho de 2014

Já vivemos em um mundo multipolar?

Os acordos entre a China e a Rússia, o fortalecimento dos Brics e os processos de integração na AL são elos do que pode chegar a ser um mundo multipolar.

por Emir Sader em 31/05/2014 às 17:08


A mais importante virada da história contemporânea foi propiciada pelo fim da guerra fria, momento em que um dos campos da era bipolar desapareceu, abrindo caminho para um mundo unipolar, sob a hegemonia imperial norte americana.

De imediato os EUA passaram a se valer de sua inquestionável superioridade, buscando transferir os conflitos para o enfrentamento miliar. O ápice dessa política de militarização dos conflitos se deu no Afeganistão, no Iraque e na Líbia. Ainda que sob formas relativamente distintas, o desenlace dos conflitos se deu pela via militar – invasão, ocupação, bombardeio, derrubada dos governos.

Mesmo com desgastes, essa via se impunha até recentemente sem que aparecessem obstáculos para que a dominação norteamericana se impusesse. Até que o conflito com a Síria, que se encaminhava para um bombardeio do território desse país, teve uma virada inesperada, com uma proposta de acordo formulada pelo Ministro de Relações dos EUA e aceita pelos EUA.

Acontece que os desgastes anteriores começavam a desgastar a capacidade hegemônica dos EUA. Foi muito significativo que a primeira rejeição a participar do bombardeio viesse do maior aliado estratégico dos EUA – da Grã Bretanha -, com a negativa do Parlamento britânico a acompanha os EUA em uma nova aventura, como consequência direta dos desgastes da invasão do Iraque, em que o ex-primeiro ministro Tony Blair saiu desgastado, por ter jogado seu prestígio numa versão que se revelou falsa.

Obama teve que aceitar a oferta russa porque, além de tudo, não conseguiu apoio da opinião pública dos EUA, sem vontade de que o país se metesse em uma nova guerra, com consequências imprevisíveis, como tampouco dos militares, a quem a ideia de um “bombardeio cirúrgico” não tinha convencido. E, como relatou o próprio Obama, nem de sua família ele conseguiu apoio.

A passagem a um clima de acordo sobre a Síria se estendeu ao Irã – inclusive pelos vínculos diretos que tem os dois conflitos -, valendo-se também da eleição de um novo presidente no Irã. Em ambos os casos, mesmo com dificuldades, há avanços, projetando paralelamente a Russia como novo grande protagonista da negociação dos conflitos contemporâneos. Pela primeira vez, desde o fim da guerra fria, os EUA tiveram que limitar sua ação baseada na força, para aceitar termos políticos de acordos negociados entre governos.

O caso da Ucrânia, mesmo com características distintas, confirma essa nova tendência. Com o final da guerra e a desaparição do campo socialista, as potências ocidentais avançaram com grande codícia sobre os países até ali participantes desse campo, incorporando-os à União Europeia e inclusive à Otan.

A Ucrânia é um caso especial, porque se localiza na fronteira da Rússia e porque a Crimeia tem um porto essencial para o país, em termos comerciais e militares. A forma violenta com que as forças pro-União Europeia atuaram – decretando inclusive a proibição do idioma russo – enfraqueceu mais ainda sua capacidade 

A realidade é que se desatou uma dinâmica centrifuga, em que as potências ocidentais denunciam a ação da Russia como força que estaria impulsionando o desmembramento da Ucrânia. Conforme aumenta a ira da imprensa ocidental, se veem confrontados com a impossibilidade de intervir, gerando-se uma situação a mais de limites da ação dos EUA.

Conforme as potências ocidentais se viam limitadas a medidas inoquas de punição à Russia, Putin se reunia com Xi Jinping, para acertar um grande acordo energético, assim como uma estratégia de desdolarização do comércio entre os dois países. Em todos os seus aspectos os acordos contribuem a configurar campos próprios de ação, em oposição ao boco dirigido pelos EUA. No próprio conflito ucraniano, enquanto os EUA contam com seus tradicionais aliados europeus – com distintos graus de coincidência – a Russia conta com os países do Brics. 

Os acordos entre a China e a Rússia, o fortalecimento dos Brics e os processos de integração regional na América Latina são elos do que pode chegar a ser um mundo multipolar. Os próximos anos confirmarão ou não esta perspectiva.

Texto original: CARTA MAIOR

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Sobre a censura em Sergipe

Imprensa livre e democracia são ameaças às elites

Paulo Victor Melo
Quando o vice-presidente do Tribunal de Justiça de Sergipe, desembargador Edson Ulisses, processou cível e criminalmente o jornalista Cristian Góes – por este ter escrito um texto puramente ficcional, sem qualquer referência a nomes, tempo e espaço – muitos, inclusive o autor desta coluna, alertaram que se abria naquele momento um precedente para a instalação do cerceamento à liberdade de expressão e opinião de outros jornalistas dessas terras.

Fatos recentes mostram que, infelizmente, estávamos certos.

No final da semana passada, o jornalista Ivan Valença recebeu da Justiça Eleitoral uma condenação por publicar, em sua coluna semanal num jornal sergipano, uma pesquisa que trazia dados que não agradavam a alguns agrupamentos políticos do estado. A condenação de Ivan Valença foi fruto de uma ação do Partido Trabalhista Nacional (PTN), uma das dezenas de legendas de aluguel que, em Sergipe, estão sob a tutela da família Amorim e compõem o PDI – Partido Dois Irmãos, nome criado, inclusive, pelo próprio Ivan Valença.

O mesmo PTN – ressalto, comandado pela família Amorim –, no final do mês de maio, entrou com uma ação na Justiça Eleitoral proibindo que o Secretário Adjunto de Comunicação do Governo do Estado, Sales Neto, divulgasse a agenda de atividades do Governador Jackson Barreto. O argumento do PTN, acatado pela Justiça, é de que Sales Neto, ao informar onde e quando o Governador iria diariamente, fazia propaganda eleitoral antecipada.

Não me alongarei muito neste caso em específico, mas enquanto Sales Neto é proibido de falar sobre a agenda do Governador (agenda essa que, concordemos ou não com as ações do Executivo estadual, interessam ao conjunto da população e, portanto, devem ser publicizadas), um parlamentar da Assembleia Legislativa de Sergipe se utiliza de uma concessão pública de rádio para, em seu programa matinal, em pleno ano eleitoral, gritar aos quatros ventos que é “o resolvedor de problemas”. Para esse, o Judiciário simplesmente fecha os olhos.

Mas o cerceamento à liberdade de expressão e de exercício profissional de jornalistas em Sergipe não está apenas na esfera judicial. Também, infelizmente.

Esta semana, enquanto exerciam a sua profissão, membros da equipe do portal Infonet foram abordados de forma violenta e ameaçados de morte por um policial civil no interior do estado. Equipamentos de trabalho, como celulares e máquina fotográfica, foram tomados a força e quebrados pelo policial, que, ao que tudo indica, se sentiu incomodado com a cobertura séria e responsável que a Infonet tem feito sobre Ítalo Bruno Araújo (enteado do Secretário de Segurança Pública de Sergipe, João Eloy), preso em flagrante (e solto imediatamente) com armas de uso exclusivo da Polícia.

Ainda que tenham motivações e características diferentes, todos esses casos põem em risco não apenas o exercício profissional de jornalistas e demais trabalhadores da comunicação, mas colocam em xeque a própria democracia. E essa é a grande questão: setores das elites econômicas e políticas de Sergipe se sentem ameaçados com uma imprensa livre porque se sentem ameaçados pela própria democracia. Para esses, devem reinar o autoritarismo e a censura.

Paulo Victor Melo Jornalista, mestrando em Comunicação e Sociedade na Universidade Federal de Sergipe. Tem experiência com jornalismo sindical, mídias públicas e políticas públicas de comunicação. Coordenador do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.

Texto original : INFONET

segunda-feira, 2 de junho de 2014

O NOVO PAPEL DE JOAQUIM

Ao deixar STF, ministro ficará longe de cenas constrangedoras que aguardam futuro da AP 470
Paulo Moreira Leite

Diretor da Sucursal da ISTOÉ em Brasília, é autor de "A Outra História do Mensalão". Foi correspondente em Paris e Washington e ocupou postos de direção na VEJA e na Época. Também escreveu "A Mulher que Era o General da Casa".

A saída de Joaquim Barbosa do STF representa um alívio para a Justiça do país e é uma boa notícia para os fundamentos da democracia brasileira. Abre a oportunidade para a recuperação de noções básicas do sistema republicano, como a separação entre poderes, e o respeito pelos direitos humanos – arranhados de forma sistemática no tratamento dispensado aos réus da Ação Penal 470, inclusive quando eles cumpriam pena de prisão.

Ao aposentar-se, Joaquim Barbosa ficará longe dos grandes constrangimentos que aguardam “o maior julgamento do século,” o que pode ser util na preservaçãdo do próprio mito.

Para começar, prevê-se, para breve, a absolvição dos principais réus do mensalão PSDB-MG, que sequer foram julgados – em primeira instância – num tribunal de Minas Gerais. Um deles, que embolsou R$ 300 000 do esquema de Marcos Valério – soma jamais registrada na conta de um dirigente do PT -- pode até sair candidato ao governo de Estado.

Joaquim deixa o Supremo depois de uma decisão que se transformou em escândalo jurídico. Num gesto que teve como consequencia real manter um regime de perseguição permanente aos condenados da AP 470, revogou uma jurisprudência de quinze anos, que permitia a milhares de réus condenados ao regime semi-aberto a trabalhar fora da prisão -- situação que cedo ou tarde iria incluir José Dirceu, hoje um entre tantos outros condenados. Mesmo Carlos Ayres Britto, o principal aliado que Joaquim já fez no STF, fez questão de criticar a decisão. Levada para plenário, essa medida é vista como uma provável derrota de Joaquim para seus pares que, longe de expressar qualquer maquinação política de adversários, apenas reflete o desmonte de sua liderança no STF. 

Em outro movimento na mesma direção, o Supremo acaba de modificar as regras para os próximos julgamentos de políticos. Ao contrário do que se fez na AP 470 – e só ali -- eles não serão julgados pelo plenário, mas por turmas em separado do STF. Não haverá câmaras de TV. E, claro: sempre que não se tratar de um réu com direito a foro privilegiado, a lei será cumprida e a ninguém será negado o direito de um julgamento em primeira instância, seguido de pelo menos um novo recurso em caso de condenação. É o desmembramento, aquele recurso negado apenas aos réus da AP 470 e que teria impedido, por exemplo, malabarismos jurídicos como a Teoria do Domínio do Fato, com a qual o Procurador Geral da Republica tentou sustentar uma denúncia sem provas consistentes contra os principais réus. 

Hoje retratado como uma autoridade inflexível, incapaz de qualquer gesto inadequado para defender interesses próprios – imagino quantas vezes sua capa negra será exibida nos próximos dias, num previsível efeito dramático – Joaquim chegou ao STF pelo caminho comum da maioria dos mortais. Fez campanha.

Quando duas aguerridas parlamentares da esquerda do PT – Luciana Genro e Heloísa Helena – ameaçaram subir à tribuna do Congresso para denunciar um caso de agressão de Joaquim a sua ex-mulher, ocorrido muitos anos antes da indicação, quando o casal discutia a separação, o presidente do partido José Genoíno (condenado a seis anos na AP 470) correu em defesa do candidato ao Supremo. Argumentou que a indicação representava um avanço importante na vitória contra o preconceito racial e convenceu as duas parlamentares. (Dez anos depois desse gesto, favorável a um cidadão que sequer conhecia, Joaquim formou sucessivas juntas médicas para examinar o cardiopata Genoíno. Uma delas autorizou a suspensão da prisão domiciliar obtida na Justiça).

O diretor do Banco do Brasil Henrique Pizzolato (condenado a 12 anos na AP 470) foi procurado para dar apoio, pedindo a Gilberto Carvalho que falasse de seu nome junto a Lula. José Dirceu (condenado a 10 anos e dez meses, reduzidos para sete contra a vontade de Joaquim), também recebeu pedido de apoio. Dezenas – um deputado petista diz que eram centenas – de cartas de movimentos contra o racismo foram enviadas ao gabinete de Lula, em defesa de Joaquim. Assim seu nome atropelou outro juristas negros – inclusive um membro do Tribunal Superior do Trabalho, Carlos Alberto Reis de Paula – que tinha apoio de Nelson Jobim para ficar com a vaga.

Quando a nomeação enfim saiu, Lula resolveu convidar Joaquim para acompanha-lo numa viagem presidencial a África. O novo ministro recusou. Não queria ser uma peça de marketing, explicou, numa entrevista a Roberto dÁvila. Era uma referência desrespeitosa, já que a África foi, efetivamente, um elemento importante da diplomacia brasileira a partir do governo Lula, que ali abriu embaixadas e estabeleceu novas relações comerciais e diplomáticas.

De qualquer modo, se era marketing convidar um ministro negro para ir a África, por que não recusar a mesma assinatura da mesma autoridade que o indicou para o Supremo?

À frente da AP 470, Joaquim Barbosa jamais se colocou na posição equilibrada que se espera de um juiz. Não pesou os dois lados, não comparou argumentos.

Através do inquérito 2474, manteve em sigilo fatos novos que poderiam embaralhar o trabalho da acusação e que sequer chegaram ao conhecimento do plenário do STF – como se fosse correto selecionar elementos de realidade que interessam a denúncia, e desprezar aqueles que poderiam, legitimamente, beneficiar os réus. Assumiu o papel de inquisidor, capaz de tentar destruir, pela via do judiciário, aquilo que os adversários do governo se mostravam incapazes de obter pelas urnas.

Ao verificar que o ministro era capaz de se voltar em fúria absoluta contra as forças políticas que lhe deram sustentação para chegasse a mais alta corte do país, os adversários da véspera esqueceram por um minuto as desconfianças iniciais, as críticas ao sistema de cotas e todas políticas compensatórias baseadas em raça.

Passaram a dizer, como repete Eliane Cantanhede na Folha hoje, que Joaquim rebelou-se contra o papel de “negro dócil e agradecido.” Rebelião contra quem mesmo? Contra o que? A favor de quem?

Já vimos e logo veremos.

Basta prestar atenção nos sorrisos e fotografias da campanha presidencial. 

Texto original: ISTO É Independente

domingo, 1 de junho de 2014

Os órfãos de Joaquim Barbosa

Órfão da toga justiceira, Aécio Neves tenta vestir uma fantasia de justiceiro social, esgarçada pela estreiteza dos interesses que representa.

por: Saul Leblon

Joaquim Barbosa deixa a cena política como um farrapo do personagem desfrutável que se ofereceu um dia ao conservadorismo brasileiro.

Na verdade, não era mais funcional ter a legenda política associada a ele.

Sua permanência à frente do STF tornara-se insustentável.

Vinte e quatro horas antes de comunicar a aposentadoria, já era identificado pelo Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, como um fator de insegurança jurídica para o país.

A OAB o rechaçava.

O mundo jurídico manifestava constrangimento diante da incontinência autoritária.

A colérica desenvoltura com que transgredia a fronteira que separa o sentimento de vingança e ódio da ideia de justiça, inquietava os grandes nomes do Direito.

Havia um déspota sob a toga que presidia a Suprema Corte do país.

E ele não hesitava em implodir o alicerce da equidistância republicana que confere à Justiça o consentimento legal, a distingui-la dos linchamentos falangistas.

O obscurantismo vira ali, originalmente, o cavalo receptivo a um enxerto capaz de atalhar o acesso a um poder que sistematicamente lhe fora negado pelas urnas. 
Barbosa retribuía a ração de holofotes e bajulações mercadejando ações cuidadosamente dirigidas ao desfrute da propaganda conservadora.

Na indisfarçada perseguição a José Dirceu, atropelou decisão de seus pares pondo em risco um sistema prisional em que 77 mil sentenciados desfrutam o mesmo semiaberto subtraído ao ex-ministro.

Desde o início do julgamento da AP 470 deixaria nítido o propósito de atropelar o rito, as provas e os autos, em sintonia escabrosa com a sofreguidão midiática.

Seu desabusado comportamento exalava o enfado de quem já havia sentenciado os réus à revelia dos autos, como se viu depois, sendo-lhe maçante e ostensivamente desagradável submeter-se aos procedimentos do Estado de Direito.

O artificioso recurso do domínio do fato, evocado como uma autorização para condenar sem provas, sintetizou a marca nodosa de sua relatoria.

A expedição de mandados de prisão no dia da República, e no afogadilho de servir à grade da TV Globo, atestaria a natureza viciosa de todo o enredo.

A exceção inscrita no julgamento reafirmava-se na execução despótica de sentenças sob o comando atrabiliário de quem não hesitaria em colocar vidas em risco.

O que contava era servir-se da lei. E não servir à lei.

A mídia isenta esponjava-se entre o incentivo e a cumplicidade.

Em nome de um igualitarismo descendente que, finalmente, nivelaria pobres e ricos no sistema prisional, inoculava na opinião pública o vírus da renúncia à civilização em nome da convergência pela barbárie.

A aposentadoria de Barbosa não apaga essa nódoa.

Ela continuará a manchar o Estado de Direito enquanto não for reparado o arbítrio a que tem sido submetidas lideranças da esquerda brasileira, punidas não pelo endosso, admitido, e reprovável, à prática do caixa 2 eleitoral.

Igual e precedente infração cometida pelo PSDB, e relegada pela toga biliosa, escancara o prioritário sentido da AP 470: gerar troféus de caça a serem execrados em trunfo no palanque conservador.

A liquefação jurídica e moral de Joaquim Barbosa nos últimos meses tornou essa estratégia anacrônica e perigosa.

A toga biliosa assumiu, crescentemente, contornos de um coronel Kurtz, o personagem de Marlon Brando, em Apocalypse Now, que se desgarrou do exército americano no Vietnã para criar a sua própria guerra dentro da guerra.

Na guerra pelo poder, Barbosa lutava a batalha do dia anterior.

Cada vez mais, a disputa eleitoral em curso no país é ditada pelas escolhas que a transição do desenvolvimento impõe à economia, à sociedade e à democracia.

A luta se dá em campo aberto.

Arrocho ou democracia social desenham uma encruzilhada de nitidez crescente aos olhos da população.

A demonização do ‘petismo’ não é mais suficiente para sustentar os interesses conservadores na travessia de ciclo que se anuncia.

Aécio Neves corre contra o tempo para recadastrar seu apelo no vazio deixado pela esgotamento da judicialização da política.

Enfrenta dificuldades.

Não faz um mês, os centuriões do arrocho fiscal que o assessoram –e a mídia que os repercute-- saíram de faca na boca após o discurso da Presidenta Dilma, na véspera do 1º de Maio.

Criticavam acidamente o reajuste de 10% aplicado ao benefício do Bolsa Família.

No dia seguinte, numa feira de gado em Uberaba, MG, o tucano ‘não quis assumir o compromisso de aumentar os repasses, caso seja eleito’, noticiou a Folha de SP (02-05). 

‘De mim, você jamais ouvirá uma irresponsabilidade de eu assumir qualquer compromisso antes de conhecer os números, antes de reconhecer a realidade do caixa do governo federal", afirmou Aécio à Folha, na tarde daquela sexta-feira.

Vinte e seis dias depois, o mesmo personagem, algo maleável, digamos assim, fez aprovar, nesta 3ª feira, na Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado, uma medida que exclui limites de renda e tempo para a permanência de famílias pobres no programa (leia a reportagem de Najla Passos; nesta pág)

A proposta implica dispêndio adicional que o presidenciável recusava assumir há três semanas.

Que lógica, afinal, move as relações do candidato com o Bolsa Família?

A mesma de seu partido, cuja trajetória naufragou na dificuldade histórica do conservadorismo em lidar com a questão social no país.

Órfão da toga justiceira, Aécio Neves tenta vestir uma inverossímil fantasia de justiceiro social, desde logo esgarçada pela estreiteza dos interesses que representa.

A farsa corre o risco de evidenciar seus limites tão rapidamente quanto a anterior.

A ver. 


Texto original: CARTA MAIOR