quinta-feira, 31 de julho de 2014

Sanções expõem oportunismo ocidental na crise da Ucrânia

Como se não tivesse nenhuma responsabilidade na crise da Ucrânia, o bloco ocidental decidiu pela punição a Moscou mediante um triplo componente.

Eduardo Febbro

Paris - A famosa foto do aperto de mãos entre o então presidente da União Soviética, Mikhail Gorbachev, e o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, pertence daqui em diante ao album das boas lembranças de família. A imagem, registrada no dia 8 de dezembro de 1987, na Casa Branca, mostra ambos os líderes celebrando a assinatura de um tratado para eliminar os mísseis de médio alcance. O entendimento que perdurava desde então terminou. A guerra na Ucrânia voltou a reavivar o antagonismo entre os rivais da guerra fria. Estados Unidos e União Europeia adotaram uma nova onda de sanções contra Moscou para pressionar o presidente russo, Vladimir Putin, e obrigá-lo a interromper seu apoio aos separatistas pró-russos no leste da Ucrânia.

Como se não tivesse nenhuma responsabilidade direta nesta foco de tensão de consequências imprevisíveis, o bloco ocidental decidiu pela punição a Moscou mediante um triplo componente: a União Europeia adotou um pacote de sanções muito fortes que envolvem os setores financeiro, energético e militar. A Casa Branca, por suia vez, ampliou o leque de medidas punitivas e decidiu suspender os créditos para a exportação assim como todos os fundos ligados ao financiamento do desenvolvimento econômico.

Os europeus, cuja implicação e responsabilidade na crise da Ucrânia são imensas, saíram do plano das ameaças para concretizar a terceira fase do processo de "represálias" desde que estourou a crise. As sanções, vigentes durante um ano, não tem precedentes e se concentram essencialmente no sistema financeiro russo, no embargo de armas e alta tecnologia. Os europeus também pactuaram sanções contra outras oito pessoas que incluem quatro próximas a Vladimir Putin. A UE decidiu bloquear o acesso aos mercados europeus de empresas e bancos russos, e proibir qualquer nova venda de armas assim como a venda de tecnologias sensíveis no campo da energia.

A Europa omite-se quanto à sua atitude provocadora na Ucrânia que foi, em parte, o fator desencadeador desta crise que entra agora em um perigoso ciclo geopolítico. É de se lamentar que os euromoralistas não tenham agido com a mesma energia frente à espantosa repressão desencadeada pelo regime egípcio quando derrubou governantes eleitos depois da revolução da Praça Tahrir. "A decisão de hoje era inevitável", disse a chanceler alemã Angela Merkel, enquanto que o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, declarou que "se tratava de um forte sinal às autoridades" da Federação Russa.

As medidas mais fortes são as que afetam setores chave da economia russa. Neste caso, as empresas russas terão parcialmente bloqueado o acesso aos créditos dos bancos europeus e também não poderão cotizar suas ações nas bolsas do Velho Continente. Na semana passada, o Banco Europeiu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD) e o Banco Mundial anunciaram que não apoiariam mais os projetos de construção de insfraestruturas na Rússia. A Europa só tratou de preservar o setor do qual depende, ou seja, o gás russo. Tudo o que diz respeito ao abastecimento de gás russo ao Velho Continente foi excluído do plano de represálias.

Além disso, não há nenhuma sílaba a propósito dos contratos de venda de armas já firmados com Moscou. Isso quer dizer que tudo é para o futuro e que o mais rentável contrato firmado entre Rússia e França para a venda de dois navios porta-helicópteros franceses Mistral (um bilhão de euros) não entra no pacote de sanções. Não se conhece por ora qual será a resposta de Moscou. A Rússia também tem munição para responder a seus ex-amigos e novos inimigos, sobretudo no que diz respeito ao fornecimento de gás. Vários países do leste europeu dependem 100% do gás russo. A Alemanha retira 30% do que consome das exportações russas. Várias empresas empresas ocidentais advertiram que sua atividade pode ser prejudicada por esse pacote de sanções. Entre elas, a empresa petrolífera British Petroleum, que detém 19,75% do grupo russo Rosneft. Os bancos estrangeiros também enfrentam um sério risco de "default".

A Europa operou um giro espetacular em sua política de pressão suave. Até a chanceler Angela Merkel, que era contra a subida de tom, se converteu em uma das principais promotoras das sanções. A derrubada do voo MH17 da Malasia Airlines foi determinantes nesta mudança. O Ocidente acusa Moscou de ter fornecido os mísseis que derrubaram o avião, o que foi rechaçado pela Rússia. É inegável que o golpe será duro para uma economia russa já fragilizada pela crise e a fuga de capitais (75 bilhões de euros durante o primeiro semestre de 2014). Um terço dos intercâmbios comerciais da Rússia é feito com a União Europeia. Por enquanto, o sancionado Putin está silencioso. É óbvio que essa etapa da crise está em sua fase nascente e que virão tempos ainda piores.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer


Texto original : CARTA MAIOR

domingo, 27 de julho de 2014

E SE FOSSE NO BRASIL?


Vendo os defensores de Israel fico pasmo de ver os argumentos. Entre tantos argumentos podemos citar: O exército só está matando crianças por que os palestinos estão defendendo o Hamas; O Hamas são assassinos por que usam a população como escudo humano; o Hamas é um grupo terroristas radical, etc.

Se o que está ocorrendo na Palestina estivesse ocorrendo no Brasil será que essas pessoas usariam esses mesmos argumentos e ficariam a favor dos Israelenses? Acredito que alguns sim e outros não!!! Se fizer uma pesquisa irá notar que no caso do uso da diplomacia, por parte do governo brasileiro, onde o Brasil foi chamado de anão diplomático, apareceram vários “brasileiros” que ficaram a favor do diplomata israelense!!!!

Estranhamente, um dos principais diplomatas responsáveis pela criação do Estado de Israel foi o brasileiro Osvaldo Aranha!!! Somos o quinto comprador de armas de Israel e seria de bom grado que o governo brasileiro passasse a comprar as armas que precisamos a outras nações, já que eles, certamente , não precisam do uma anão diplomático que foi um dos responsáveis pela criação desses estado !!

Mas ao ver o mapa abaixo percebi que esses defensores mudaram muito de opinião (me orientei nele para montar o mesmo efeito no Mapa do Brasil).


Mas não é de estranhar que nós brasileiros, Estados Unidos da América e muitos países ocidentais de certa forma aceitem o comportamento do Estado de Israel. Se substituirmos a palavra Israel nos mapas do Brasil (poderia ser no Mapa dos Estados Unidos) , colocados no início do texto, por colonizadores iremos ter o mesmo efeito em relação aos nativos. Isso vem ocorrendo desde o chamado descobrimento da américa! Os nativos foram e continuam sendo dizimados sem direito a terra e cidadania. Basta vermos a grita por parte de alguns grupos da nossa sociedade em relação a quantidade de terras que foram garantidas na nossa constituição. Só que constituição nunca garantiu e nem está garantindo que o restante de nativos que sobraram irão ficar vivos e se vivos, pelo histórico dos fatos, se irão ficar com algum pedaço de terra!

Abaixo temos um mapa que mostra a ocupação e expulsão dos palestinos desde a implantação do acordo da ONU em 1947;


Endereço com texto sobre o comércio de armas entre Brasil e Israel.
http://gilsonsampaio.blogspot.com.br/2014/07/israel-e-o-5-maior-exportador-de-armas.html

Textos relacionados:

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Pouco a pouco, Israel está apagando a Palestina do mapa

Galeano: Pouca Palestina resta. Pouco a pouco, Israel está apagando-a do mapa

Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem sequer respirar sem autorização. Têm perdido a sua pátria e as suas terras


por Eduardo Galeano (*), em Esquerda.Net , Carta Maior

Para justificar-se, o terrorismo de Estado fabrica terroristas: semeia ódio e colhe álibis. Tudo indica que esta carnificina de Gaza, que segundo os seus autores quer acabar com os terroristas, conseguirá multiplicá-los.

Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem nem sequer respirar sem autorização. Têm perdido a sua pátria, as suas terras, a sua água, a sua liberdade, tudo. Nem sequer têm direito a eleger os seus governantes. Quando votam em quem não devem votar, são castigados. Gaza está sendo castigada. Converteu-se numa ratoeira sem saída, desde que o Hamas ganhou legitimamente as eleições em 2006. Algo parecido tinha ocorrido em 1932, quando o Partido Comunista triunfou nas eleições de El Salvador.

Banhados em sangue, os habitantes de El Salvador expiaram a sua má conduta e desde então viveram submetidos a ditaduras militares. A democracia é um luxo que nem todos merecem. São filhos da impotência os rockets caseiros que os militantes do Hamas, encurralados em Gaza, disparam com desleixada pontaria sobre as terras que tinham sido palestinas e que a ocupação israelense usurpou. E o desespero, à orla da loucura suicida, é a mãe das ameaças que negam o direito à existência de Israel, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto a muito eficaz guerra de extermínio está a negar, desde há muitos anos, o direito à existência da Palestina. Já pouca Palestina resta. Pouco a pouco, Israel está a apagá-la do mapa.

Os colonos invadem, e, depois deles, os soldados vão corrigindo a fronteira. As balas sacralizam o despojo, em legítima defesa. Não há guerra agressiva que não diga ser guerra defensiva. Hitler invadiu a Polônia para evitar que a Polônia invadisse a Alemanha. Bush invadiu o Iraque para evitar que o Iraque invadisse o mundo. Em cada uma das suas guerras defensivas, Israel engoliu outro pedaço da Palestina, e os almoços continuam. O repasto justifica-se pelos títulos de propriedade que a Bíblia outorgou, pelos dois mil anos de perseguição que o povo judeu sofreu, e pelo pânico que geram os palestinos à espreita. Israel é o país que jamais cumpre as recomendações nem as resoluções das Nações Unidas, o que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, o que escarnece das leis internacionais, e é também o único país que tem legalizado a tortura de prisioneiros.

Quem lhe presenteou o direito de negar todos os direitos? De onde vem a impunidade com que Israel está a executar a matança em Gaza? O governo espanhol não pôde bombardear impunemente o País Basco para acabar com a ETA, nem o governo britânico pôde arrasar Irlanda para liquidar a IRA. Talvez a tragédia do Holocausto implique uma apólice de eterna impunidade? Ou essa luz verde vem da potência ‘manda chuva’ que tem em Israel o mais incondicional dos seus vassalos? O exército israelense, o mais moderno e sofisticado do mundo, sabe quem mata. Não mata por erro. Mata por horror. As vítimas civis chamam-se danos colaterais, segundo o dicionário de outras guerras imperiais.

Em Gaza, de cada dez danos colaterais, três são meninos. E somam milhares os mutilados, vítimas da tecnologia do esquartejamento humano, que a indústria militar está a ensaiar com êxito nesta operação de limpeza étnica. E como sempre, sempre o mesmo: em Gaza, cem a um. Por cada cem palestinos mortos, um israelita. Gente perigosa, adverte o outro bombardeamento, a cargo dos meios massivos de manipulação, que nos convidam a achar que uma vida israelense vale tanto como cem vidas palestinianas. E esses meios também nos convidam a achar que são humanitárias as duzentas bombas atômicas de Israel, e que uma potência nuclear chamada Irã foi a que aniquilou Hiroshima e Nagasaki.

A chamada comunidade internacional, existe? É algo mais que um clube de mercadores, banqueiros e guerreiros? É algo mais que o nome artístico que os Estados Unidos assumem quando fazem teatro? Ante a tragédia de Gaza, a hipocrisia mundial destaca-se uma vez mais. Como sempre, a indiferença, os discursos vazios, as declarações ocas, as declamações altissonantes, as posturas ambíguas, rendem tributo à sagrada impunidade. Ante a tragédia de Gaza, os países árabes lavam as mãos. Como sempre. E como sempre, os países europeus esfregam as mãos.

A velha Europa, tão capaz de beleza e de perversidade, derrama uma ou outra lágrima enquanto secretamente celebra esta jogada de mestre. Porque a caça aos judeus foi sempre um costume europeu, mas desde há meio século essa dívida histórica está a ser cobrada dos palestinos, que também são semitas e que nunca foram, nem são, antissemitas. Eles estão a pagar, em sangue, na pele, uma conta alheia.

(*) Artigo publicado no Sin Permiso.

Tradução de Mariana Carneiro para o Esquerda.net.

Leia também:
Fisk: A verdadeira história de Gaza que os israelenses não contam

Texto replicado: VI O MUNDO

domingo, 20 de julho de 2014

Manifestação de apoio à Palestina acaba em confronto em Paris

Apesar de proibida, milhares de pessoas ocuparam, sábado, as ruas do norte de Paris para bradar contra os ataques de Israel à Palestina.

Sarah Carneiro (*)

Paris - Embora a manifestação tenha sido proibida pela justiça – na França, a organização de mobilizações nas vias públicas só é possível mediante autorização da polícia –, milhares de pessoas ocuparam, sábado (19, as ruas do norte de Paris para bradar contra os ataques de Israel à Palestina. Houve muita tensão: um civil e um policial ficaram feridos e 38 pessoas foram presas.

O movimento teria início às 15h. Por volta das 10, quase 30 viaturas policiais já cercavam a região, enfileiradas nas ruas que circundam a estação de metrô Barbès. Agentes andavam de um lado para o outro, examinando o mapa da cidade e articulando estratégias para sufocar a manifestação, caso esta viesse a ser formada.

Em meio aos preparativos dos policiais, uma senhora que passava pelo local demonstra o seu inconformismo. “É completamente lamentável a interdição dessa manifestação de solidariedade a um povo massacrado. A França é o país dos direitos humanos e da liberdade de expressão”, salientou.


Crescente

Era mais ou menos 14h, quando um grupo de umas 30 pessoas chegou à região, munido de bandeiras e alguns cartazes. Gritando frases, como: “Resistência de Paris à Gaza” e “Israel assassino; Hollande (presidente da França) cúmplice”, eles pediam liberdade. “Nós temos o direito de nos manifestar. Não podemos aceitar a proibição que nos foi dada. Crianças morrem. Israel coloniza Gaza e temos que reagir”, exigia Ichan, um dos militantes.

“O mundo inteiro apoia esta manifestação. Até os jornalistas americanos têm assumido uma posição contrária a Israel. Todas as pessoas estão percebendo que os israelenses são manipuladores, e que efetivamente os palestinos estão sendo massacrados. Não se trata de uma guerra; se trata de uma colonização e um povo inteiro corre o risco de morrer. Como cidadãos franceses, nós temos o direito de nos manifestar”, insistia Ichan.

Mais e mais manifestantes foram se aglomerando, e os policiais os cercaram para impedir que saíssem em marcha. A esta altura, 15h30, já se tinha uma multidão no local; homens e mulheres erguiam fotos do massacre, e duas bandeiras de Israel foram queimadas no alto de um prédio. Neste instante, Muay, que vestia uma camisa onde se lia “Boicote a Israel”, perguntado se entendia aquele encontro já como uma manifestação, respondeu: “se temos as passagens bloqueadas e não podemos caminhar, não temos uma verdadeira manifestação”.

Confronto

Transcorridos alguns minutos, uma das avenidas teve o acesso liberado e os manifestantes seguiram com palavras de ordem contra Israel, até esbarrarem num novo cordão policial. Foram arremessados fogos de artifício e pedras em direção à polícia, que reagiu com bombas de gás lacrimogêneo. A partir daí o que se viu foi um enfrentamento entre os dois lados.

Em ruas próximas, muitas pessoas observavam o que estava acontecendo e era comum o descontentamento com a proibição da manifestação, anunciada ontem. “Não entendo como o Partido Socialista pôde fazer isso. Desde 1968 eu não tenho notícias de que alguma passeata tenha sido impedida”, declarou Emmanuelle, habitante do bairro de Barbès.

O argumento usado pelo presidente François Hollande para a interdição foi que “não se pode importar para Paris o conflito que acontece em Gaza”. Além disso, também recordou que mobilizações ocorridas nos últimos dias acabaram em apedrejamentos a sinagogas da cidade econfronto contra a LDF (Ligue de défense juive – Liga de Defesa Judia).

(*) Sarah Carneiro é jornalista.

Créditos da foto: Luciano Fogaça

texto original: CARTA MAIOR

quinta-feira, 17 de julho de 2014

OS EUA E HITLER


(Hoje em Dia) - Um dos aspectos mais fascinantes da história, é que, por mais que se tente escondê-la, matá-la, enterrá-la, ela acaba, como um cadáver recém exumado que reabrisse as pálpebras para olhar quem o contempla, revelando, implacável e profundamente, seus segredos.

Um dos capítulos menos conhecidos, ao menos para o grande público, da história da primeira metade do Século XX, é o envolvimento de importantes nomes da elite e de grandes empresas norte-americanas com o hitlerismo, e com os crimes nazistas, incluindo a destruição e o genocídio de milhões de homens, mulheres e crianças, classificados pelos alemães como “sub-humanos” e “não-arianos”.

Segundo documentos descobertos em 2004, o avô do Presidente Geoge W. Bush, o senador - e banqueiro - Prescott Bush (1895-1972), não apenas colaborou com colaboradores do regime nazista, antes e depois da chegada de Hitler ao poder - até o ano de 1942, quando os ativos da companhia que dirigia foram tomados pelo governo norte-americano, com base em lei que proibia negociar com o inimigo - mas também que suas ligações com o magnata alemão Franz Thyssen, a quem representava nos EUA, foram fundamentais para a ascensão política e a consolidação da fortuna de sua família.

As ligações de Prescott Bush com Thyssen, e, por extensão, com o regime nazista, teriam, possivelmente, permanecido ocultas, se os Bush não tivessem sido processados em milhões de dólares, mais tarde, por danos morais e físicos, por dois ex-trabalhadores escravos do campo de extermínio de Auchwitz, que em seu cativeiro trabalharam para empresas alemãs, de alguma forma ligadas ao avô do ex-presidente dos EUA.

São conhecidas as ligações de Henry Ford, fundador da Ford Motor Company, com o antisemitismo, a ponto do inventor do Ford T ter sido condecorado por Hitler.

Mas talvez uma das histórias mais impressionantes do envolvimento de grandes ícones norte-americanos com o nazismo, seja a da IBM, a emblemática International Business Machines, que esteve ligada à Alemanha desde o início.

A IBM foi fundada por um filho de alemães, Hermann Holerith, que, trabalhando para o American Census Bureau, o escritório de estatisticas dos Estados Unidos, desenvolveu um sistema de cartões perfurados e de classificadoras mecânicas para o recenseamento populacional norte-americano, no final do século XIX.

Nascida com o nome de Tabulating Machine Company, a IBM foi fundamental para a contagem, identificação e classificação, com base em características familiares e “raciais” da população alemã e da Europa ocupada pelos nazistas.

Para isso, ela desenvolveu, sob medida, um sistema que permitiu separar e matar, rapidamente cerca de 9 milhões de vítimas, não apenas judias, mas ciganas, homossexuais, Testemunhas de Jeová, comunistas, socialistas, etc e etc. Todas identificadas, da prisão à morte, por um número tatuado no antebraço, e por um cartão perfurado com as informações relativas a cada prisioneiro.

A história, de Hermann Hollerith a Thomas J. Watson, o homem que levantou, de fato, a IBM, e a transformou em uma das mais poderosas empresas do século XX, pode ser lida, em português, no livro “A IBM e o Holocausto”, de Edwin Black, da Editora Campus. 

Texto original: Mauro Santayana

domingo, 13 de julho de 2014

Mídia e oposição na contra-mão das manifestações de junho

Com a força das manifestações de junho de 2013, o governo Dilma pode levar à frente projetos que sofriam forte resistência no Congresso e na imprensa.

José Augusto Valente

A partir da manifestação do Movimento Passe Livre (MPL), pela redução das tarifas de ônibus de São Paulo, outros movimentos e pessoas se articularam e foram às ruas e às redes sociais, colocando publicamente demandas relevantes para o país.

Na essência, essa movimentação pedia “mais estado” nos serviços públicos. 
Mais saúde, mais educação, mais transporte público e mais direitos de cidadania. Junto com isso, havia um forte questionamento ao Congresso Nacional, indicando que este não os representava. Daí a necessidade da “voz das ruas” ser ouvida.

A chamada grande imprensa e a oposição tentaram de todas as formas surfar esse momento insinuando que estava em cheque o governo Dilma, que precisava ser substituído. Faziam questão de esconder a informação básica de que saúde e educação básicas e transporte público são atribuições de prefeituras e governos de estado e, em muito menor grau, da União.

O governo Dilma, no entanto, já trabalhava essas questões há alguns anos e tinha enorme dificuldade de aprovar os respectivos projetos no Congresso Nacional.

Com a força das manifestações, o governo Dilma pode levar à frente esses projetos que sofriam forte resistência no Congresso e na imprensa, como: Mais Médicos; Plano Nacional de Educação; Royalties do pré-sal para educação e saúde; Política Nacional de Participação Social; e Reforma Política.

Dessas cinco ações, três continuam recebendo oposição incondicional da imprensa:

O Mais Médicos faz parte do programa Saúde da Família, que reforça a medicina preventiva, e é fundamental para reduzir demandas e custos nas unidades de maior complexidade, permitindo maior qualidade de atendimento nessas. A oposição se atém ao fato de haver uma quantidade razoável de médicos cubanos, para fazer seu proselitismo contra o programa. 

O que está por trás desse proselitismo, entretanto, não é a ideologia, e sim porque um programa da saúde da família bem feito, com apoio nas UPAs, permite o combate a dois aspectos que mantêm a saúde pública no século XIX. 

O primeiro é que o fisiologismo de muitos partidos opera na carência de serviços públicos. Onde falta estado entram os Centros Sociais de vereadores e deputados, que, com suas ambulâncias e seu trabalho de despachante de luxo, abarrotam os hospitais públicos. 

O segundo é que uma excelente saúde pública básica reduz em muito as demandas nas unidades de maior complexidade como hospitais. Essa redução gera menos gastos em remédios, equipamentos e outros insumos. Essa é uma importante fonte de abastecimento de caixas dois de campanha eleitoral.
Em síntese, o programa Mais Médicos, junto com as UPAs, é muito ruim para os projetos eleitorais da oposição e, sejamos justos, também para alguns partidos da base do governo.

A Reforma Política, como proposta pelo governo federal, visa à redução do peso do poder econômico no processo eleitoral e, por consequência, nas decisões do Congresso Nacional e demais casas legislativas.

Como a oposição e a imprensa representam, quase que exclusivamente, os interesses do poder econômico, não é difícil entender porque a guerra contra a reforma política, especialmente, contra a convocação de Constituinte exclusiva para isso, sem os congressistas atuais.

O Decreto que regulamentou a Política Nacional de Participação Social apenas definiu de forma mais clara algo que já existe na nossa legislação. 

A Constituição, em seu Artigo 1º, parágrafo único, diz que “todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente”. O Art. 14 prevê a utilização de plebiscitos e referendos, bem como a iniciativa popular no processo legislativo. Além disso, a Carta Magna define a participação social como diretriz do Sistema Único de Saúde (Art 198, III), da Assistência Social (Art. 204, II), da Seguridade Social (Art. 194, parágrafo único, VII) e, mais recentemente, do Sistema Nacional de Cultura (Art 216, § 1º, X). 

Além da oposição incondicional da imprensa a esses projetos, há a omissão sobre questões relevantes, apontadas pelas manifestações de junho de 2013.

O Plano Nacional de Educação, do governo federal, permitirá o salto quantitativo e qualitativo no ensino brasileiro. Define metas para os próximos dez anos, com respectivos mecanismos de monitoramento, avaliação e financiamento. É uma resposta categórica aos anseios da população pela melhoria da educação. Define maior responsabilidade da União no sistema de ensino. 

A Petrobras terá um papel estratégico no financiamento da educação pública de qualidade. Assim, os recordes seguidos na produção deveriam merecer destaque na imprensa. Mas não é o que ocorre. Para esta, o que interessa é Pasadena e supostos esquemas de corrupção. É mais importante tentar vincular a presidenta Dilma àquilo que eles consideram como erro grave na aquisição de Pasadena, do que, por exemplo, informar o atingimento da marca de 539 mil barris apenas no pré-sal.

Como se vê, as principais medidas propostas pelo governo federal são rechaçadas ou minimizadas pela oposição e por parte da imprensa que a apoia incondicionalmente. O que as colocam na contra-mão das manifestações de junho/2013.

Com a palavra o eleitor!

Texto original em: CARTA MAIOR

quinta-feira, 10 de julho de 2014

A Globo e as raízes do subdesenvolvimento do futebol brasileiro

Luis Nassif


Os bravos jornalistas da CBN foram rápidos no gatilho: os 7 x 1 da Alemanha comprovam que a presidente Dilma Rousseff é “pé frio”.

Pé frio é bobagem. Não é o que dizem de Galvão Bueno?

Como são analistas sofisticados, da política e da economia, poderiam afirmar que Dilma talvez seja culpada - assim como Lula, Fernando Henrique Cardoso e outros presidentes - por não ter entrado na batalha pela modernização do futebol brasileiro.

Poderiam ter avançado mais no diagnóstico. Explicado que a maior derrota do futebol brasileiro – e latino-americano em geral – estava no fato de que a maioria absoluta dos seus jogadores serem de times europeus, da combalida Espanha, da Alemanha, Inglaterra e França.

Ali estaria a prova maior do subdesenvolvimento do futebol brasileiro, um mero exportador de mão-de-obra para o produto acabado europeu, campeonatos riquíssimos mesmo em períodos de crise.

Mas a questão principal é quem colocou na copa da árvore o jabuti do subdesenvolvimento futebolístico brasileiro.

Se quisessem aprofundar mais, poderiam mostrar conhecimento e erudição esportiva reportando-se a uma tarde de julho de 1921, em Jersey City, quando surgiu o primeiro Galvão Bueno da história, o locutor J. Andrew White, pugilista amador, preparando-se para narrar a luta história de Jack Dempsey vs George Carpentier para a Radio Corporation of America (RCA). 61 cidades tinham montado seus “salões de rádio” para um público estimado em centenas de milhares de ouvinte.

O que era apenas um hobby de radio amadores, tornou-se, a partir de então, o evento mais prestigiado nas radio transmissões.

Se não fosse cansar demais os ouvintes da CBN, os brilhantes analistas poderiam historiar, um pouco, a importância das transmissões esportivas para o que se tornaria o mais influente personagem do século no mercado de opinião: os grupos de mídia.

Mostrariam como foram criadas as redes, desenvolvidas as grades de programação, planejados os grandes eventos, como âncoras centrais da audiência.

Depois, avançariam nos demais aspectos dos grupos de mídia.

Num assomo de modéstia, reconheceriam que, em um grupo de mídia, a relevância do jornalismo é diretamente proporcional à audiência total; e a audiência depende fundamentalmente desses eventos âncora. Por isso mesmo, foi o futebol que garantiu o prestígio e a influência do jornalismo.

Não se vá exigir que descrevam a estratégia da Globo para tornar-se o maior grupo de mídia do Brasil e da América Latina. Mas se avançassem lembrariam que os eventos consolidadores foram o carnaval carioca e o futebol, pavimentando o caminho das novelas e do Jornal Nacional.

Algum entrevistado imprevisto, especialista em segurança, ou na sociologia do crime, poderia lembrar que, para conseguir o monopólio de ambos os eventos, a grande Globo precisou negociar, numa ponta, com os bicheiros que dominavam a Associação das Escolas de Samba do Rio; na outra, com os cartolas que desde sempre dominavam a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), desde os tempos em que era CDB (Confederação Brasileira dos Desportos).

Para não pegar mal para a Globo, diria que a grande emissora foi vítima do anacronismo da sociedade brasileira, que a obriga a entrar no pântano sem se sujar.

Aos ouvintes ficariam as conclusões mais pesadas.

Graças ao submundo dos bicheiros e cartolas, a Globo venceu a competição na radiodifusão. E graças à Globo, bicheiros e cartolas conquistaram um enorme poder junto à superestrutura do Estado brasileiro, um extraordinário jogo de ganha-ganha em que o sistema bicheiros-Globo e cartolas-Globo ganharam uma expressão política inédita e uma blindagem excepcional. Ainda mais se se considerar que o primeiro setor vive da contravenção e o segundo está mergulhado até a raiz do cabelo nos esquemas internacionais de lavagem de dinheiro, através do comércio de jogadores.

Aí a matriz de responsabilidades começa a ficar um pouco mais clara.

Um especialista em direito econômico poderia analisar o abuso de poder econômico na compra de campeonatos e os prejuízos ao consumidor, com a Globo adquirindo a totalidade dos campeonatos e transmitindo apenas parte dos jogos.

Para tornar mais ilustrativo o episódio, poderia se reconstituir a tentativa da Record de entrar no leilão e a maneira como a Globo cooptou diversos clubes, adiantando direitos de transmissão para impedir o avanço da concorrente. Ou, então, as tentativas de dirigentes mais modernos de se livrar do jugo da CBF. E como todos foram esmagados pelo poder financeiro da aliança CBF-Globo.

De degrau em degrau, de episódio em episódio, se chegaria ao busílis da questão, o bolor fétido que emana da CBF e que até hoje impediu que, no país do maior público consumidor, aquele em que o futebol é a maior paixão popular, o evento que mais vende produtos, mais galvaniza a atenção, não se consiga desenvolver uma economia esportiva moderna.

Completado o raciocínio, o distinto público da CBN entenderia os motivos do Brasil ser um mero exportador de jogadores, os clubes brasileiros serem arremedos de clube social, o fato de grandes investidores jamais terem ousado investir no evento esportivo de maior penetração no mundo, de jamais termos desenvolvidos técnicas em campo à altura do talento dos jogadores brasileiros.

A partir dai, ficaria claro as razões do subdesenvolvimento brasileiro e, forçando um pouco a barra, até a derrota de 7 x 1 para a Alemanha.

Texto original em: LUIZ NASSIF ONLINE

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Legado da Copa: duradouro ou efêmero (Parte 3)

Além das falácias sobre os gastos com arenas da Copa, sobre o que já tratamos aqui, matéria de revistas e jornais dizem que não haverá legados duradouros.

José Augusto Valente (*)

O chamado “Legado da Copa 2014” é constituído por investimentos necessários ao desenvolvimento regional e urbano do país e que acabaram sendo antecipados e priorizados nas 12 sedes pela oportunidade de realizar uma Copa do Mundo no Brasil. Esses investimentos foram compartilhados pelo governo federal e pelos governos locais.

Principais legados da Copa 2014, cujos investimentos chegaram a um montante de R$ 28 bilhões:

a) Arenas multiuso em 12 cidades;
b) Aeroportos modernizados
c) Portos
d) Mobilidade urbana

Além desses, foram investidos R$ 1,9 bilhões em segurança, R$ 404 milhões em telecomunicações, R$ 180 milhões em ações de infraestrutura do turismo e R$ 208 milhões em instalações complementares. 

Neste artigo, tratarei dos itens (a), (b) e (c). O item (d) será tratado no próximo artigo da série Legado da Copa.

Falácia 3 – não haverá legados duradouros

Além das falácias sobre os gastos com as arenas da Copa, sobre o que já tratamos nas partes 2 e 3, matéria de revistas e jornais insistem em que não haverá legados duradouros (capa e matéria da Veja, em 25/6/2014). Será mesmo?

a) Arenas
Sobre as arenas multiuso, já escrevemos nos artigos anteriores que, além de jogos de futebol, serão utilizadas para megaeventos, como shows, espetáculos, conferências e reuniões, com conforto, segurança e qualidade. Exceto o de Brasília – que será gerido pelo governo – e Manaus e Cuiabá – que deverão ser concedidos –, os demais já estão nas mãos da iniciativa privada, diretamente, ou via PPP/concessão. Na verdade, não importa muito em quantos anos o investimento será amortizado pela iniciativa privada. Cultura, esporte e lazer são direitos de primeira ordem da cidadania de um país emergente que em breve estará no rol dos desenvolvidos. Assim, as arenas são um legado duradouro, não há dúvida quanto a isso.

b) Aeroportos
Negar que os aeroportos que foram modernizados “no embalo da Copa 2014”, mas também porque já havia demanda e projeto sobre isso, sejam um legado duradouro é uma insanidade sem fundamentação alguma.

Guarulhos, Brasília, Viracopos, Galeão e Confins estão ou ficarão no mesmo patamar que os melhores aeroportos do mundo, num futuro muito próximo. Os demais, sob gestão da Infraero, tiveram obras de ampliação e modernização, o que permitirá que o nosso sistema aeroportuário atenda adequadamente o crescimento da demanda de voos domésticos e internacionais nos próximos vinte anos.

Assim, é óbvio que os aeroportos que tiveram R$ 8,4 bilhões de investimentos serão um legado duradouro. Estão praticamente prontos e muito elogiados pelos turistas que vieram para a Copa.

c) Portos
Os R$ 587 milhões investidos em seis terminais portuários de passageiros (Fortaleza, Manaus, Natal, Recife, Salvador e São Paulo), juntamente com os que já existiam no roteiro turístico de grandes navios, na costa marítima e fluvial brasileira, terá uma importância crescente tanto para o turismo doméstico como para o internacional.

Baseado em que se constrói o juízo de que essa parte do legado não será duradoura?

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(*) José Augusto Valente – especialista em logística e infraestrutura

Texto original: CARTA MAIOR

domingo, 6 de julho de 2014

Legado da Copa: fatos e falácias (parte 2)

A realização da Copa neste momento em que todos desejam que o PIB cresça mais do que está permitindo a crise mundial, é fundamental para o país.

José Augusto Valente (*)

Em relação ao chamado “Legado da Copa”, o que a grande imprensa tem veiculado sobre o assunto tem mais falácias do que fatos comprováveis. É o que estou tentando demonstrar numa série de artigos. (Clique aqui e leia a parte 1)

Falácia 2 – Dinheiro utilizado na construção dos estádios poderia ser destinado para a saúde e educação

Eu acredito, assim como os críticos à realização da Copa no Brasil, que os governos federal, estadual e municipal têm que investir, com alta prioridade, em saúde e educação, entre outras políticas sociais. O Brasil precisa e merece isso.

Ao contrário deles, entretanto, defendo que o governo tem que investir, também, no desenvolvimento do país. Para isso há várias formas, entre elas o financiamento pelo BNDES, com seus juros subsidiados e eventuais parcerias, a empreendimentos com potencial de gerar desenvolvimento econômico e social.

A realização da Copa, no Brasil, neste momento em que todos desejam que o PIB precisa crescer mais do que está permitindo a crise mundial, é fundamental para a realização dos investimentos nas arenas, nos aeroportos e em obras de mobilidade urbana, como também pelos serviços daí decorrentes, pois estes gerarão receitas diretas e indiretas nos próximos anos.

Como afirmamos no artigo anterior, os locais onde acontecem as partidas da Copa não são simples estádios de futebol, mas arenas multiuso, e isso faz toda a diferença. 

Essas arenas foram projetadas para receber, além de partidas de futebol, grandes eventos, como shows, espetáculos, conferências e reuniões, com conforto, segurança e qualidade.

Do ponto de vista de legado da Copa, isso tem impacto na geração de possibilidades de ganhos dos cidadãos, uma vez que na maioria das capitais do país não existem espaços como esses para a realização de megaeventos. 

Várias arenas estão formatadas para PPP ou concessão (governos estaduais/empresas privadas), além de três que são exclusivamente privadas. Todas demandaram recursos do BNDES.

As equipes altamente qualificadas desse órgão analisaram os empreendimentos por essa ótica, não só para garantir o retorno financeiro do mesmo, mas também para alavancagem de novos projetos econômicos e sociais, na cidade e na região. 

Para se ter idéia, a arena de Brasília, que é totalmente pública, em seis meses, recebeu 27 eventos, entre jogos de futebol e shows , como da Beyoncé e das bandas Aerosmith e Metallica. Nesse período, a nova arena atraiu 640 mil pessoas. Para se ter um comparativo, o antigo Mané Garrinha teve público de 340 mil torcedores em 36 anos.

Mas o BNDES não poderia financiar saúde e educação? 

É importante frisar que o BNDES financia basicamente empresas e não governos (há alguns poucos casos de financiamento a governos). Os juros subsidiados tem a ver com a expectativa de desenvolvimento econômico e social de cada empreendimento. Há um montante de recursos disponíveis para empréstimos, há critérios para aprovação dos projetos, são exigidas garantias e o BNDES é muito rigoroso no caso de inadimplência. 

Mas, arguem os críticos à Copa no Brasil, os recursos do BNDES não têm origem no orçamento da União, o que permite deslocar parte deles para saúde e educação?

Basicamente, a origem dos recursos do BNDES é não orçamentária, como segue: os de capital; as receitas operacionais e patrimoniais; os oriundos de operações de crédito; a remuneração que lhe for devida pela aplicação de recursos originários de fundos especiais instituídos pelo Poder Público e destinados a financiar programas e projetos de desenvolvimento econômico e social; os resultantes de prestação de serviços e, quando for necessário, as dotações que lhe forem consignadas no orçamento da União.

Saúde e educação públicas são despesas de investimento e de custeio que precisam ser realizadas, de forma permanente, por prefeituras, estados e governo federal, através de recursos orçamentários definidos via PPA, LDO e LO ou pela iniciativa privada, com seus próprios recursos. 

Entretanto, saúde e educação, com recursos do BNDES, de forma contínua, não há como! 

Assim, no máximo, o que se poderia dizer é “em vez de financiar arenas, o BNDES deveria direcionar esses recursos para portos privados, concessões rodoviárias/ferroviárias e coisas do gênero”. Mas não foi essa a escolha do governo federal, na ocasião, com o apoio da maioria da população.

O custo total da Copa, com recursos federais, estaduais e da iniciativa privada, entre empréstimos e recursos a fundo perdido, foram estimados em R$ 28 bilhões, dos quais: R$ 8 bilhões com as arenas; R$ 8,4 bilhões com obras de mobilidade urbana; R$ 8,4 bilhões em aeroportos e R$ 1,9 bilhões em segurança. 

Todos esses investimentos geraram produtos que serão um legado da Copa, pois continuarão atendendo às necessidades do país, pelos próximos cinquenta anos.

Cabe finalizar com a informação da Secretaria Geral da Presidência, de que, desde 2010, o governo federal investiu em educação e saúde R$ 825,3 bilhões. 

O mais interessante é que, no rol de pessoas com quem me relaciono, as que apregoam a tese de não investir na Copa são as mesmas que foram favoráveis a retirar R$ 40 bilhões/ano da saúde, através de campanhas nas redes sociais, e conseguiram que o Congresso Nacional extinguisse a CPMF, importante fonte de recursos para esse fim, além de mecanismo efetivo para reduzir a sonegação fiscal, que impede, todo ano, que mais alguns bilhões possam ser direcionados para saúde e educação.

Nos próximos artigos, tratarei de discutir as obras de mobilidade urbana constantes do “Legado da Copa 2014”, onde também há mais falácias do que fatos.

(*) José Augusto Valente – especialista em logística e infraestrutura.

Texto original : CARTA CAPITAL

Texto relacionado: O Legado da Copa: fatos e falácias (parte 1)

quinta-feira, 3 de julho de 2014

BELO MONTE E A SÍNDROME DO ATRASO

(Jornal do Brasil) - A ANEEL - Agência Nacional de Energia Elétrica, está analisando pedido do Consórcio Norte Energia, responsável pela construção da Usina de Belo Monte, para adiar a entrada, por mais um ano, em operação da usina, que fica no Rio Xingu, no Pará.

Belo Monte não é uma obra qualquer. Em potência instalada, será a terceira usina hidroelétrica do mundo, depois da chinesa Três Gargantas, e da binacional, brasileiro e paraguaia, Itaipu.

A polêmica em torno de sua construção, é emblemática do ponto de vista do processo de ocupação e aproveitamento da Amazônia, como patrimônio de todos os brasileiros, e com relação à falta de convergência que existe em nossa sociedade em torno dos objetivos nacionais.

A Amazônia precisa ser protegida, mas, ao mesmo tempo que deve ser preservada, ela necessita de um projeto integrado e sinérgico de desenvolvimento que abarque toda a região.

É hipocrisia tentar impedir a construção, depois, sabotar o aproveitamento hídrico, e finalmente, paralisar por dezenas de vezes uma obra, da qual depende um país que tem uma das mais altas tarifas de energia elétrica do mundo, e que concorre nesse quesito com outros países no mesmo estágio de desenvolvimento, como se a região à qual pertence, não sofresse há décadas, dos mesmos problemas que afetam a Amazônia como um todo. Questões que derivam da ausência - e não da presença - da mão organizadora e mobilizadora do Estado.

É preciso preservar a cultura indígena no Brasil? Sem dúvida alguma. Mas é preciso também reconhecer, que aqui somos 200 milhões de pessoas, e que, para as populações indígenas já foram reservados, e entregues, mais de 100 milhões de hectares, ou 12,5% do território brasileiro, o que torna o Brasil o país que mais terras dedica para esse fim, entre todas as nações do mundo.

Da mesma forma, é preciso reconhecer que o índio, infelizmente, depois de sua aculturação, passa a ser, muitas vezes, mais um elemento da degradação da região, na extração ilegal de madeira, no assoreamento e contaminação de rios para a exploração de garimpos clandestinos - como está ocorrendo na Terra Indígena Roosevelt - na exploração e contrabando, em conluio com estrangeiros, da nossa biodiversidade.

Com planejamento, organização, e sobretudo, pleno exercício da soberania do Brasil na região, é possível concililiar a proteção da natureza e das populações indígenas, com a exploração sustentável do patrimônio hídrico, das florestas, da mineração, do turismo, da navegação. Para isso, basta que se associem a União, os Estados da Região, a iniciativa privada nacional, e, minoritariamente, capital estrangeiro, em uma grande empresa, com dinheiro e estrutura suficiente para fazê-lo.

O atraso de Belo Monte, no entanto, não é exceção no Brasil de hoje. O país está coalhado de obras que tem sido sucessivamente, repetidamente, paralisadas pela sabotagem ou impedidas pela justiça.

Muitas vezes, uma mesma empreiteira brasileira trabalha, simultâneamente, com uma grande obra no Brasil e outra no exterior. Enquanto, lá fora, a obra sai dentro do cronograma, e com o preço inicialmente previsto, aqui o atraso pode passar de um terço do prazo e o orçamento se multiplicar por três ou cinco.

Por que isso ocorre? Porque nos outros países, é impossível paralisar por dezenas de vezes obras gigantescas, de bilhões e bilhões de dólares de orçamento, que são essenciais para o progresso de um país, impunemente. Fazendo isso a cada vez que pequenos grupos - manipulados ou não - se manifestam, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Lá fora, existe um mínimo de alinhamento estratégico entre os diferentes setores da sociedade e do Estado, e os poderes constituídos, para a execução, de forma permanente, perene, das obras necessárias ao desenvolvimento nacional.

Acontece um terremoto no Japão, e, em dias, as rodovias que foram avariadas ficam prontas. Na China, prédios são construídos em 72 horas, e cidades inteiras são erguidas - com ruas, sistemas de saneamento, eletricidade, prédios públicos e residenciais - em menos tempo do que é necessário para se construir um viaduto no Brasil.

Essa situação, em que vem um e faz, e vem o outro e desfaz, repetidamente, tem que acabar.

O que prejudica um determinado governo também pode paralisar outros, independente de orientação política, e enquanto nações emergentes avançam, o Brasil, paralisado pela “síndrome do atraso”, continuará dando um passo à frente e três para trás, indefinidamente.

Texto original: MAURO SANTAYANA

terça-feira, 1 de julho de 2014

Quem são os bandidos?

Seria o trabalhador que luta por melhores condições e salários ou um governo com integrantes acusados de receber propina?

Por: Vladimir Safatle, no CartaCapital

A história tem lá sua ironia. Pense em um governo acusado de, durante décadas, alimentar um dos piores casos de corrupção do Brasil por meio do desvio de dinheiro de obras do Metrô de sua capital caótica. Como ele controla a Assembleia Legislativa e tem influência sobre certos integrantes do Poder Judiciário, o caso parece nunca andar até que tribunais internacionais começam a julgar as multinacionais envolvidas em esquemas milionários de propina.

Então, aos poucos, cada um dos integrantes da alta cúpula do dito governo começa a aparecer nas páginas policiais. Mesmo assim, nenhuma CPI, nenhuma sanha investigativa a alimentar o ímpeto denunciador de amplos setores da mídia. Ao contrário, tudo indica que o referido governo ganhará mais uma eleição em uma terra na qual ele governa há praticamente 30 anos. Ou seja, estamos aí diante do crime perfeito praticado por profissionais.

Imbuído da fé em sua resiliência, o governo resolve enfrentar uma greve, veja só, exatamente no Metrô, a empresa, tudo indica, saqueada por propinas, com uma gestão tão eficiente que construções desabam e matam periodicamente operários. Do outro lado, estão metroviários em luta por algo inaceitável, absurdo, impensável, a saber, melhores salários. Como assim, funcionários em greve por melhores salários e condições de trabalho? Por meio da força de pressão para poder negociar uma qualidade de vida melhor?

Impossível. Na verdade, eles estão, como se diz, a tornar a “população” refém de seus “interesses políticos”, a querer desestabilizar o governo ordeiro em ano eleitoral. Não, uma greve não pode atrapalhar a população trabalhadora, da mesma forma como, em 2013, uma manifestação não podia impedir a “população” de praticar seu legítimo direito de ir e vir.

Claro que há direito de greve, mas greve legal e somente aquela que ninguém sente e que, por isso, pode ficar durante meses sem conseguir algo. Greve boa é greve morta.

Os metroviários não entenderam assim, por isso o governo precisou agir com firmeza. Funcionários presos, demitidos e ameaçados de demissão. Qual o crime? Ter feito greve. Ou, se quiser, se comportado como “bandidos” por pararem a circulação da cidade a fim de mostrar ao povo suas condições precárias de trabalho e salário.

Então, nessas ironias da história, um governo prenhe de integrantes a serem acusados de bandidos por práticas reiteradas de corrupção no Metrô mostra sua mão dura contra funcionários, desse mesmo Metrô, tratados como bandidos por fazerem uma greve por melhores salários e condições de trabalho. Difícil não se imaginar em uma peça de Alfred Jarry. O título da peça poderia ser, inclusive: “Quem São os Bandidos?”

Para terminar a descrição da peça, haveria ainda o coro. Ele seria composto de cidadãos chorando por não terem conseguido trabalhar, empregados ordeiros revoltados por não poderem realizar suas obrigações laborais de forma civilizada. Gente que, repetidamente, diz não aguentar mais a instabilidade provocada por esses grevistas que confrontam a polícia e que parecem ter alguma forma de prazer perverso em inalar gás lacrimogêneo. Algum dia você ainda verá artigos a provar que esquerdistas gostam de inalar gás lacrimogêneo, porque ele provoca alucinações.

Esse é um capítulo da estranha vida em São Paulo. Muitas vezes, ela parece ser a descrição de um mundo invertido onde o pior pecado é ser pobre, não aguentar ser espoliado em seu emprego, mas ser sindicalizado. Ainda mais se for funcionário do Metrô.

Pois como o Metrô conseguirá pagar melhores salários se ele precisa ainda, ao que indicam os processos abertos nas justiças suíça e francesa, financiar campanhas eleitorais para o grupo que tem o direito de governar São Paulo como uma capitania hereditária?

Isso é não entender nada de choque de gestão e responsabilidade orçamentária. Isso é ser completamente irresponsável com o dinheiro público. Tenha certeza disso, nossos governantes nunca aceitarão tamanha chantagem.

Texto replicado deste endereço: O CARCARÁ