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quinta-feira, 19 de março de 2020

Pepe Escobar — A China está em guerra híbrida com os EUA

O Presidente chinês Xi Jinping tornou a sua posição clara. Foto: AFP
17/3/2020, Pepe Escobar, Asia Times (ensaio)

Dentre os inumeráveis e efeitos geopolíticos tectônicos do coronavírus, que são impressionantes, um já é claramente evidente. A China reposicionou-se. Pela primeira vez desde o início das reformas de Deng Xiaoping em 1978, Pequim considera abertamente os EUA como ameaça, declarou há um mês o ministro de Relações Exteriores Wang Yi na Conferência de Segurança de Munique, no pico da luta contra o coronavírus.

segunda-feira, 4 de março de 2019

COMO EU DESCOBRI O PLANO DE DOMINAÇÃO EVANGÉLICO – E LARGUEI A IGREJA



EM MEADOS DE 2007, converti-me ao cristianismo, bastante influenciado por uma família de empresários, donos de alguns bazares no 3º Distrito de Duque de Caxias, no Rio, onde moro até hoje, para quem trabalhei no final da adolescência e início da vida adulta, e que depois viriam a se tornar bons amigos. Eu tinha 17 anos e muitas dúvidas existenciais. As clássicas perguntas “por que estamos aqui”?, “para onde vamos?” dominavam os meus pensamentos. Em termos práticos, também não sabia o que fazer profissionalmente.

Depois da entrada na igreja evangélica, a minha mudança de hábitos foi muito rápida. Fui movido por aquele fanatismo típico dos que encontram algo pelo qual são arrebatados. Até quis abandonar tudo para me tornar missionário. Mas minha mãe me dissuadiu da ideia – hoje, penso, ainda bem.

domingo, 22 de abril de 2018

Inteligência Artificial, novo pesadelo?


Por Antonio Martins, no site Outras Palavras:

Em “Vida de Galileu”, provavelmente sua peça mais notável, Bertolt Brecht imagina a fala final do grande cientista do Renascimento a seus pares. A obra foi escrita durante o tormento da II Guerra Mundial, em meio os exílios do autor – por isso, o Galileu de Brecht já não compartilha o entusiasmo automático pela Ciência presente em outras obras da tradição iluminista e mesmo marxista. Diz ele, em tom de advertência quase desesperada: “O precipício entre vocês e a humanidade pode crescer tanto que ao grito alegre de vocês, grito de quem descobriu alguma coisa nova, responda um grito universal de horror”. Há duas semanas, a revista britânica Economist publicou um longo estudo sobre os novos avanços a Inteligência Artificial – especialmente seu uso nos locais de trabalho. Diante da leitura, é impossível não sentir de novo o calafrio que assombrou o dramaturgo alemão.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

1964 e 2016: vislumbres de nossas elites

por Róber Iturriet Ávila e Pedro Vellinho Corso Duval — publicado 06/04/2018 14h00, última modificação 06/04/2018 11h47

Nos dois momentos, o retorno do capital foi ameaçado, provocando rápida articulação entre grupos empresariais, midiáticos e setores da classe média

O eterno medo do comunismo
As destituições presidenciais ocorridas em 1964 e em 2016 possuem distinções em termos de método, instrumento e velocidade. Um olhar mais cuidadoso, entretanto, é capaz de identificar nestes epifenômenos causalidades nos interesses políticos dos respectivos grupos sociais representados e contrários aos então presidentes.

Este breve texto, de forma simplificadora, busca quantificar e qualificar algumas dessas causas por meio da variação real do salário mínimo, da incidência tributária e das políticas sociais distributivistas interrompidas ou restringidas.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

O STF pode estar prestes a afastar garantias históricas de todos os servidores públicos

Terça-feira, 3 de Abril de 2018




O Supremo Tribunal Federal  ( STF) previu para o próximo dia 04.04.2018 o julgamento em que será decidido se é possível uma pessoa condenada em 2ª instância ser presa antes do trânsito em julgado da decisão penal.
A expressão trânsito em julgado significa que não há mais possibilidade de o cidadão apresentar qualquer recurso, e a Constituição prevê que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória (artigo 5o, LVII).

terça-feira, 13 de março de 2018

Os 42 ricaços do Brasil. Todos golpistas!



Por Altamiro Borges

A revista Forbes, dedicada à cloaca empresarial do planeta, divulgou na última terça-feira (6) a lista dos maiores bilionários do Brasil. O ranking é um autêntico escárnio. Enquanto milhões de brasileiros são lançados na miséria pelas políticas antipovo do vampirão Michel Temer – com sua terceirização selvagem, "deforma" trabalhista, congelamento por 20 anos dos investimentos na saúde e educação, entre outras maldades –, 42 bilionários ostentam fortunas inimagináveis. Não é para menos que a maioria deles, de forma direta ou indireta, esteve envolvida no golpe dos corruptos. São banqueiros, barões do agronegócios, industriais e donos da mídia. Os ricaços querem manter e ampliar suas riquezas. E danem-se os brasileiros. Confira a lista: 

segunda-feira, 5 de março de 2018

Multis querem comprar o Aquífero Guarani



Do blog Nocaute:

As negociações para privatizar o Aquífero Guarani avançam. A segunda maior reserva de água doce do mundo se estende pela Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. O governo Temer e transnacionais, como a Coca-Cola e a Nestlé, estariam discutindo uma forma que garanta aos conglomerados o direito exclusivo ao aquífero e à venda da água.

O verdadeiro inimigo da classe trabalhadora


Por Adilson Araújo, no site da CTB:


O editorial do Jornal Estado de São Paulo publicado nesta quarta-feira (28), com o título os "Sindicatos contra o trabalhador", é mais uma peça venenosa contra o livre direito à organização contido em nossa Constituição. O qual, pelo teor do editorial, deve ser desconhecido pelo autor do famigerado texto.

Ao afirmar que as “centrais sindicais estão aconselhando seus filiados a aprovarem, por votação em assembleia extraordinária, a manutenção da cobrança da contribuição sindical”, o Estadão esquece que tal orientação se baseia no ART. 8º da Constituição Federal, que orienta sobre a autonomia sindical, a livre organização e o direito da fixação da contribuição sindical:

É livre a associação profissional ou sindical, observado o seguinte:

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Dívida e juros: financismo no comando


Por Paulo Kliass, na revista Caros Amigos:

O Ministério da Fazenda acaba de divulgar o Relatório Mensal da Dívida Pública Federal, com informações atualizadas até o mês de setembro. O documento é importante para quem pretende acompanhar a evolução dos níveis e do padrão de endividamento do Estado brasileiro.

No entanto, a compreensão desse tipo de comportamento é ainda mais relevante por nos encontrarmos sob um estado de crise fiscal profunda e com uma orientação bastante ortodoxa do ponto de vista da gestão dos recursos públicos. A narrativa da exigência da austeridade na condução da política fiscal tem levado a administração pública a sucumbir perante um estado de semi destruição. O ímpeto com que os liberaloides levam a cabo sua operação desmonte é bem capaz de promover o desaparecimento do Estado. 

sábado, 25 de março de 2017

Previdência: uma reforma draconiana justificada por mitos e palpites catastrofistas sobre o futuro

Será preciso entrar no mercado de trabalho com 16 anos e permanecer no emprego formal por 49 anos ininterruptos.

Eduardo Fagnani

A Reforma da Previdência unifica as regras para todos os segmentos, acabando com diferenciações previstas pela Carta de 1988, dadas as assimetrias entre gêneros e entre campo e cidade. Homens e mulheres, rurais e urbanos, trabalhadores privados e servidores públicos terão de comprovar idade mínima de 65 anos e 49 anos de contribuição para terem acesso à aposentadoria com valor integral. Nesse caso, será preciso entrar no mercado de trabalho com 16 anos e permanecer no emprego formal por 49 anos ininterruptos. Se estudar e começar a trabalhar com 24 anos (média da OCDE), terá aposentadoria integral aos 73 anos.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Uma agenda para destruir um País

Mesmo com um movimento mundial que demonstra que o ajuste fiscal só aprofunda a crise econômica, Meirelles propõe tal ajuste para a retomada do crescimento

Esther Dweck

O governo Temer tem se aproveitado de diversas medidas dos governos Lula e Dilma. A transposição do Rio São Francisco é talvez o exemplo mais emblemático. Outro exemplo é o “Conselhão”, criado por Lula em 2003, para dialogar com a Sociedade Brasileira, com academia, trabalhadores e empresários, foi reconfigurado pelo governo Temer.

Ontem, houve uma apresentação do Ministro Meirelles para o “Conselhão”. A apresentação poderia se chamar como destruir um projeto de desenvolvimento inclusivo, mas segundo ele é a pauta para retomada do crescimento. Os pontos apresentados por ele deixariam os ideólogos do Consenso de Washington com inveja: como não pensaram em tanta maldade junta.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

TRUMP E A FARSA DA GLOBALIZAÇÃO



(RBA- Rede Brasil Atual) - O fato de o IED - Investimento Estrangeiro Direto - ter se mantido históricamente alto na era Lula-Dilma - (na faixa dos 60, 70 bilhões de dólares por ano) e estar conservando o mesmo patamar agora, no atual governo, mostra que o Brasil não precisa rastejar, como um verme, para conseguir capital externo.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

OS ATAQUES EM ESCALA INTERNACIONAL ÀS EMPRESAS LÍDERES DA ENGENHARIA BRASILEIRA


Por Bruno Lima Rocha

Existe uma diferença gritante entre “teoria da conspiração” e prática conspiratória. Entendo que bastam algumas observações pontuais para fazer a lógica da obviedade. O texto que segue tem as devidas ponderações legais, por isso a cautela necessária. Vale observar que ao reconhecer que houve participação do Império no golpe no Brasil, não me alinho ao lulismo, tampouco a condenáveis práticas empresariais, menos ainda ao ‘batismo nos contratos’ como prática regular brasileira e nem nego a condição de que agentes nacionais (domésticos) possam aplicar golpes e também contra golpes. A conspiração que vem de cima encontra eco ou não, é bem sucedida ou não, de acordo com cada sociedade e seus agentes coletivos nacionais. Infelizmente, no Brasil, o golpe aplicado pelo BraZil deu certo (para eles). Vamos aos pontos.

1) Existem pessoas com certo prestígio cibernético alegando que há uma teoria da conspiração na internet brasileira em relação a participação dos EUA no golpe parlamentar que derrubou o governo reeleito de Dilma Rousseff. Os Estados Unidos, embora correspondam a 12% de nossa balança comercial – perdendo em quase o dobro para os 21% de volume de trocas com a China, tem plenas condições de exercer hegemonia e projeção de poder em termos ideológico-culturais, institucionais, militares e financeiros sobre toda a América Latina, o Brasil incluído.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Enquanto o 1% de cima tem 51%, os 50% de baixo só têm 1%

Para deixar ainda mais escandaloso o quadro, se fazemos as contas com os 10% mais ricos, veremos que eles acumulam 89% de toda a riqueza do mundo!

Michael Roberts *

Equivale a 1% da população mundial. São os adultos que pertencem ao grupo dos mais ricos do mundo, e que reúnem 51% da riqueza global. Do outro lado da pirâmide, os adultos que compõem a metade inferior do espectro social, possuem juntos apenas 1% dessa riqueza.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

DA IMBECILIDADE DO ANTITERRORISMO


Na abertura de um recente – e bizarro - "Seminário Internacional de Enfrentamento ao Terrorismo no Brasil", o Ministro da Secretaria de Governo, Ricardo Berzoini, afirmou que "não existem limites para a preocupação com o terrorismo nas Olimpíadas" e defendeu que o país "aceite a cooperação de órgãos de inteligência internacionais" para diminuir o risco nesse sentido.

No momento em que a Câmara recebe, de volta do Senado, uma "lei antiterrorista", cabe discutir com cautela essa questão, sob a ótica da política exterior brasileira e da nossa relação com outras culturas e países no atual contexto geopolítico mundial.

Tem o Brasil, alguma razão para "combater" o terrorismo, para além da condenação moral - não apenas nas ruas de Paris, mas também de Bagdá, Damasco, Trípoli - de ataques contra a vida e da prestação de homenagem e solidariedade às suas vítimas?

A Rússia, nosso sócio no BRICS, foi levada a atacar o Estado Islâmico por questões geopolíticas, e agora transformou-se em vítima, com a explosão, no ar, de um avião carregado de seus cidadãos, no Egito. A Síria é um país onde ela possui portos e bases militares, e notáveis ligações históricas, no qual tenta manter seu aliado, Bashar Al Assad no poder, defendendo-o dos terroristas do Estado Islâmico, que foram armados pelos próprios EUA e o "ocidente" para derrubar o regime sírio, e que, como um Frankenstein louco e sangrento, fugiu ao controle de seus criadores.

Os EUA e a França estão pagando pelo erro de tentar agir como potências coloniais no Oriente Médio e no Norte da África, derrubando governos estáveis, como o de Saddam Hussein e o de Muammar Khadaffi, e de se meter em assuntos alheios.

Tem o Brasil interesses geopolíticos no Oriente Médio, região onde atua no Comando das Forças Navais da ONU no Líbano?

Não, a não ser - assim como faz no Haiti - como cumpridor de um mandato das Nações Unidas.

O Brasil já se meteu, alguma vez, em assuntos alheios, invadindo ou bombardeando países no Oriente Médio ou no Norte da África?

Não, porque, pelo menos até agora, protegidos pela sábia doutrina de não intervenção consubstanciada no texto da Constituição Federal, como macacos velhos que somos - ou éramos, ao que está parecendo - não metemos a mão em cumbuca, a não ser que sejamos atacados primeiro, como o fomos na Segunda Guerra Mundial. 

Quanto à segurança interna, a diferença entre terrorismo, assassinato ou tentativa de homicídio é puramente semântica.

Para quem morre, não tem a menor diferença a motivação de quem o está atingindo.

Já existe legislação penal, no Brasil, de proteção à vida.

O resto é “lero-lero”, para emular potências estrangeiras e se submeter aos gringos.

Um perigosíssimo “lero-lero”, do qual toma parte a realização, em território brasileiro, de "seminários" como esse, que nos obrigam a situarmo-nos de um determinado lado da linha. E, também, naturalmente, a crescente "cooperação" com forças policiais estrangeiras, que pode ser feita, normalmente, para segurança de eventos internacionais desse tipo, sem a conotação política, "antiterrorista", que estão tentando impingir-nos. 

Uma coisa é dizer que vamos reforçar a segurança nas Olimpíadas.

Nada mais natural, considerando-se que teremos multidões reunidas em estádios - coisa que acontece rotineiramente em grandes jogos de futebol, por exemplo - e que estaremos recebendo visitantes estrangeiros.

Outra, muito diferente, é afirmar que estaremos tomando "medidas antiterroristas" e adotar um discurso, e uma atitude, que nunca adotamos antes, nesse contexto.

Mudando uma postura tradicional - compartilhada por governos de diferentes matizes ideológicos - que não nos trouxe - muito pelo contrário - nenhuma conseqüência negativa, até agora.

Quem fala muito acaba dando bom dia a cavalo.

De tanto se referir ao "antiterrorismo", e ficar cutucando com essa bobagem quem está quieto, algum grupo de terroristas, pode, sim - mesmo sem ter visto o Brasil como inimigo até este momento - vir a se sentir tentado a testar a eficácia das medidas de "segurança" às quais estamos nos referindo a todo instante, com relação às Olimpíadas.

E isso, principalmente, se nessas "medidas" dermos muito espaço para equipes de segurança estrangeiras - de países considerados alvos - para agirem em nosso território como se estivessem no deles.

Ou se adotarmos - cão que muito ladra não morde - uma atitude "antiterrorista" que seja arrogante e ostensiva contra cidadãos de alguns países, árabes, por exemplo, na chegada aos nossos aeroportos, ou em nossas ruas, como já o estamos fazendo.

No mundo, há poucos países tão subservientes em sua vontade de copiar os estrangeiros.

No Rio de Janeiro, o site da Sociedade Beneficente Muçulmana tem sido atacado por fascistas - alimentados pelo mesmo discurso "antiterrorista" do governo - que acusam "esquerdopatas" de estarem "trazendo o EI" para o Brasil, ao abrir as portas para os refugiados árabes. 

E, no sul do Brasil, refugiadas sírias declararam ter sido discriminadas e agredidas, após os atentados de Paris - como se a população síria não sofresse todos os dias dezenas de atentados semelhantes por parte de terroristas que, como mostra o caso do Estado Islâmico, foram originalmente armados pelos EUA e por países europeus, para tentar derrubar o governo de Damasco - dando início à guerra civil naquele país, e à onda de refugiados que atingiu a Europa como um tsunami humano.

Guardadas as devidas proporções, o que o Ministro Ricardo Berzoini está cometendo, com as suas declarações, e o próprio governo - ao promover esse tipo de encontro - é um tiro no pé ideológico e um tremendo atentado ao bom-senso.

Se o país está preocupado com o "terrorismo", a melhor medida a tomar é não ficar anunciando isso para todo o mundo e a toda hora, e usar com inteligência estratégica a legislação vigente.

O primeiro passo para se transformar em alvo do "terrorismo" e ser vítima de um ataque terrorista é começar - sem nenhum inimigo aparente - a se declarar contra ele - a adotar uma doutrina "antiterrorista" e leis "antiterroristas", que, no final das contas, como demonstram os casos dos EUA e da França, por exemplo, não servem de absolutamente nada para evitar ataques rápidos, covardes e mortíferos, de uma meia dúzia de suicidas determinados, quando eles decidem fazê-los.

Texto original:
MAURO SANTAYANA

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Os portugueses e os preguiçosos

Antes dos invasores europeus chegarem as terras do chamado continente americano, os nativos aqui residentes viviam organizados em diversas tribos, organizados em nações, com níveis diferentes de tecnologia e organização social. Algumas nações tinham os níveis tecnológicos avançados com a produção de artefatos de metais, enquanto outras nações sequer sabiam da existência desses metais.

Em Pindorama (atual Brasil), os nativos ainda não produziam artefatos de metal, apesar de produzirem parte dos alimentos praticando a agricultura. Eles utilizavam artefatos feitos de pedras e grandes ossos de animais como ferramenta para trabalharem a chamada roça, na construção de embarcações (canoas) e construções das moradias (aldeias). Em decorrência da precariedade dessas ferramentas, o trabalho na agricultura era degradante e exigia muita resistência física.

Todo o trabalho de corte, transporte e carregamento dos navios,
com Pau-brasil, eram feito pelos nativos.
Com a chegada dos invasores europeus (os mais numerosos foram franceses, espanhóis e portugueses) passaram a ter acesso a diversos tipos de quinquilharias. Entre as peças de quinquilharias (segundos os invasores portugueses) a mais procuradas eram produtos de enfeites, mas eles levavam peças importantíssimas, para o trabalho agrícola, entre elas: as enxadas, facas, machados e foices. Essas ferramentas amainavam o pesado trabalho na roça e construções das aldeias. Para conseguirem estas ferramentas, faziam o trabalho de corte e carregamento da madeira do Pau-brasil (árvore que deu o atual nome a região) e que acomodavam devidamente nos navios.

Em decorrência do descobrimento da produção de tintas sintéticas o Pau-Brasil perdeu o grande valor comercial. Para substituir, o gigantesco lucro do comércio de madeiras, os portugueses resolveram produzir açúcar. A produção de açúcar em grande escala é necessário grandes extensões de terras ( para o plantio da cana-de-açúcar) e muita mão-de-obra para a produção.

Os nativos não estavam dispostos a abandonares as terras onde vivia, deixarem de produzirem para consumo próprio e terem de produzir para os portugueses. Para piorar a situação dos comerciantes portugueses, os nativos só apareciam quando necessitavam obter mais ferramentas e como o comércio do Pau-brasil era somente em períodos intercalados, raramente ocorria conflitos entre as partes.

Os nativos viviam sem a necessidade de se acumular produção (não tinha ganância financeira), tinham divisões de tarefas entre homens e mulheres (a coleta era um trabalho feminino) e portanto não tinham nenhum interesse em trabalharem de modo ostensivo como o exigido na produção do açúcar.
Um trabalhador português fiscalizando os nativos preguiçosos!
As terras adequadas para o plantio da cana-de-açúcar eram ocupadas por florestas e vivendo nessas florestas existiam diversas tribos. Era de onde os nativos tiravam os produtos para o sustento da comunidade nas diversas atividades: pesca, caça, coleta e agricultura. Os invasores portugueses tiveram que obrigar os nativos retirarem a floresta. Perante a resistência muitos foram mortos, outros fugiram e os capturados foram transformados em escravos. Mesmo os transformados em escravos a resistência foi grande. Grande parte dos serviços na atividade agrícola canavieira é a colheita e na cultura nativa a colheita era trabalho feminino. Foram agredidos fisicamente e moralmente muitos preferiam morrer a ter de trabalhar como escravos para os invasores portugueses.

Antônio Carlos Vieira
Licenciatura Plena - Geografia (UFS)


sábado, 18 de abril de 2015

Fim da OEA está cada vez mais perto

A OEA saiu ainda mais enfraquecida da Cúpula, diante da contraposição dos países do continente e a dos EUA. A OEA está mais perto do seu fim.

por Emir Sader em 14/04/2015 às 08:08

A OEA reinava, até há pouco tempo, como o fórum dos países da América, reunindo os países da América Latina e do Caribe, mais os EUA e o Canadá. Era uma sobrevivência não apenas da guerra fria, mas sobretudo da Doutrina Monroe, constituindo-se na instância através da qual os EUA impunham sua hegemonia sobre o continente.

A Cúpula das Américas, realizada no Panamá, ao invés de ser a abertura de uma nova fase para a OEA, representa mais um passo na direção da sua intranscendência. O mundo que ela expressava não existe mais. Os processos de integração latino-americana foram criando suas próprias instâncias, deixando a OEA como organismo superado pelas novas realidades do continente.

O OEA foi uma sobrevivência da guerra fria ou melhor, da própria Doutrina Monroe. Servia como espaço de imposição da hegemonia norteamericana, da “América para os (norte)americanos”. Era uma instância espúria que, embora fosse a que pretendia representar ao conjunto do continente era, na realidade, nas palavras de Fidel “O Ministério das Colônias dos EUA”.

Quando países da America do Sul começaram a organizar espaços de integração regional – Unasul, Conselho Sulamericano de Defesa, Banco do Sul -, a OEA foi perdendo espaço. E quando se constituiu a Celac, agrupando a todos os países da America Latina e do Caribe, a OEA foi perdendo sentido de existir.

Atualmente a estratégia dos países da América Latina é a de que a Celac nos represente a todos, deixando a OEA apenas para as relações entre todos os países do continente, agrupados na Celac, e os EUA e Canadá.

A Cúpula do Panamá representou o retorno oficial de Cuba a essa instância, embora não o retorno de Cuba à OEA, de que ela foi expulsa, por ordem dos EUA, em 1962. Recentemente, atendendo a reivindicações dos países do continente, a OEA chamou Cuba para que se reintegrasse à instituição, mas Cuba rejeitou essa possibilidade. O fim do bloqueio dos EUA atende ao lema cubano: “Con OEA o sin OEA, ya ganamos la pelea”.

A reunião, que deveria consagrar o restabelecimento de relações diplomáticas entre Cuba e os EUA, terminou completamente contaminado pela decisão dos EUA de considerar a Venezuela uma “ameaça à segurança nacional dos EUA.” O clima amistoso com que Obama esperava ser recebido, pelo reatamento com Cuba, foi substituído pela hostilidade pela posição em relação à Venezuela.

Obama tratou de se fazer de desentendido, chegando a declarar que nunca as relações entre os EUA e a América Latina estiveram tão boas. Desconhece a distância imensa que foi se abrindo, conforme o continente foi construindo seus próprios organismos de integração, excluindo os EUA e o Canadá. 

Apesar do clima de hostilidade à decisão norteamericana sobre a Venezuela, a falta de consenso levou à impossibilidade de um documento final da reunião. Mas Obama perdeu a parada, na sua tentativa de centrar a reunião na normalização das relações com Cuba. Apesar do importante encontro com Raul Castro, a sombra da prepotência nortemericana – amainada por declarações de desmentido do próprio Obama – seguiu pairando no Panamá.

A OEA saiu ainda mais enfraquecida da Cúpula, diante da contraposição entre as posições dos países do continente – agrupados na Celac – e as dos EUA. A OEA está mais perto do seu fim.

Texto original: CARTA MAIOR

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Nossa crise no contexto mundial da geoeconomia e da geopolítica

O jogo geoeconômico dos países centrais consiste em penetrar setores econômicos ainda estão sob controle estatal e nacional, como é o caso da Petrobras...

J. Carlos de Assis*

A crise econômica e política brasileira não pode ser entendida fora de uma avaliação mais ampla do seu contexto geoeconômico e geopolítico. Em termos geoeconômicos, a questão central no mundo atual é a estagnação da zona do euro e do Japão, e a pouca consistência da recuperação americana. Esta, no ano de 2014 em que cresceu 2,4%, teve dois trimestres iniciais de contração. Portanto, mesmo a economia norte-americana continua na balança, e ainda não deu sinal claro de que superou a crise iniciada em 2008 e agravada em 2010, a despeito de políticas monetária e fiscal extremamente expansivas.

A crise nos países capitalistas centrais, iniciada com a explosão financeira de 2008, revelou-se uma crise de baixa do ciclo econômico na qual a redução estrutural da demanda constitui um bloqueio à retomada do investimento e do emprego. Pode ser atenuada, como se vê nos EUA, mas não eliminada por políticas macroeconômicas de estilo keynesiano. Contudo, na Europa, nem políticas keynesianas tem sido aplicadas em razão da ditadura econômica alemã, o que torna a crise peculiarmente aguda. Veremos, a propósito, como vai evoluir a posição desafiadora da Grécia que já não suporta a política dos ajustes fiscais.

A falta de perspectivas de investimentos nos países centrais torna imperativo para suas classes dirigentes ampliar sua fronteira de penetração no mundo dos emergentes e dos países em desenvolvimento em espaços ainda dominados pelo capital estatal. É aí que entramos nós. Temos ainda um espaço relativamente virgem para a entrada de capitais estrangeiros em busca de valorização: o setor do petróleo, o setor da eletricidade, o setor das águas, o setor bancário estatal. Num certo sentido, também outros setores de serviços onde o Estado tem grande presença: educação e saúde.

Não se trata de permitir a entrada de capitais privados estrangeiros nesses setores. Em grande medida, eles já participam deles. O que se pretende é eliminar completamente a presença reguladora e operadora do Estado a fim de colocá-los inteiramente sob a lógica do mercado privado. Bem ou mal, conseguimos um certo estágio de afirmação de um Estado social-desenvolvimentista, com importantes braços operacionais como Petrobrás, Eletrobrás, BNDES, Caixa Econômica, Banco do Brasil. Todos estão na linha de tiro, já que todos ocupam espaços que podem ser dominados pelo capital privado estrangeiro.

O jogo geoeconômico dos países centrais consiste, portanto, em penetrar nessa zona que ainda está sob controle estatal e nacional. E não se trata de defender os interesses das empresas privadas em geral, mas, sim, das empresas privadas deles. Um dos riscos da Operação Lava Jato é justamente a liquidação de grandes empresas nacionais que tem contratos com a Petrobrás: destruí-las significa criar centenas de milhares de desempregados e queimar tecnologia nacional acumulada por décadas abrindo o mercado às construtoras estrangeiras, que há anos pressionam o Brasil nesse sentido nas negociações da Organização Mundial do Comércio, por enquanto sem resultado.

Estamos extremamente vulneráveis a esses ataques externos, especialmente quando se levanta a bandeira da corrupção do Estado, e não no Estado. A rigor, perdemos grande parte de nossa soberania econômica. Tivemos, no ano passado, um déficit em conta corrente de 91 bilhões de dólares, ou 4% do PIB, crescente. É para fechar essa conta, e não para combater a inflação, que o Banco Central eleva às nuvens a taxa básica de juros. Caso queiramos baixar significativamente essas taxas corremos o risco de um ataque cambial, esgotando nossas reservas – altas, mas vulneráveis a ataques especulativos.

Num momento de recessão, como o que vivemos, seria importante ter uma política fiscal ativa, isto é, ampliar os gastos públicos para aumentar a demanda agregada, o investimento e o emprego. Não podemos fazer isso porque significaria fazer déficit fiscal, ou eliminar o superávit primário (como se fez em 2014), o que, de novo, nos exporia a ataques especulativos desencadeados por desclassificação das agências de risco e à propaganda histérica da mídia entreguista acusando o Governo de descontrole fiscal. Em uma palavra, não temos real autonomia na macroeconomia no curto prazo.

Ao lado dessas questões geoeconômicas, temos a geopolítica. Qualquer pessoa familiarizada com a estratégia americana de dominação no mundo sabe que sua prioridade é impedir a emergência de um novo rival em escala global como foi a União Soviética. A Rússia, mesmo na situação de potência nuclear de primeira linha, foi encarada durante algum tempo, depois do fim da União Soviética, como apenas uma potência regional. De qualquer modo, a fim de contê-la, foi submetida a um verdadeiro cerco da OTAN, porém longe de suas fronteiras, com a incorporação de nada menos que 12 países do Leste da Europa. Esse processo parou na Ucrânia e na Geórgia.

É que nenhuma dessas incorporações correspondeu a países fronteiriços da Rússia, exceto os pequenos países bálticos, sem maior importância estratégica. É justamente aí que se cruza a linha vermelha. Segundo a insuspeita revista norte-americana Foreign Affairs, a Rússia deu a entender à OTAN, várias vezes, que não toleraria uma força hostil nas suas costas, seja na Geórgia, seja na Ucrânia, países com que faz fronteira. A OTAN não apenas insistiu em avançar sobre a Ucrânia como, mediante articulações diretas do Departamento de Estado e da CIA, derrubou o legítimo governo ucraniano para permitir que um novo governo aderisse a ela e à União Europeia.

A Rússia respondeu com a habilidosa incorporação da Crimeia, um porto estratégico para ela, ancorada na vontade popular da península. Os EUA reagiram com sanções. Os russos tem o suporte dos descendentes russos e russófilos do Leste da Ucrania. O país está em guerra civil. Não se sabe exatamente que tipo de proposta Merckel e Hollande levaram a Putin, mas o fato óbvio é que aos EUA não interessa um acordo, já que seu objetivo estratégico é atrair a Rússia para uma guerra na Ucrânia de forma a esgotá-la economicamente e eliminá-la como um rival de escala global.

É nesse contexto geoeconômico que estamos nós. Talvez alguém se esqueça, mas somos BRICS. E BRICS significa uma aproximação brasileira com o inimigo estratégico central dos EUA, a Rússia. Nos mesmos BRICS está a China, que já se posicionou como aliado estratégico da Rússia. A Índia faz um jogo dúbio, enquanto a África do Sul não conta muito. Nós somos o risco mais imediato. Embora não tenhamos nenhum interesse direto na crise da Ucrânia, os americanos podem querer exigir lealdade de nós num eventual conflito com a Rússia. Infelizmente, muitos brasileiros já estão fazendo esse jogo.

O que fazer? Embora haja pessoas pouco patriotas, como os dirigentes da FIESP, que acham que nosso futuro se encontra em relações mais próximas com Estados Unidos e Europa Ocidental, através de tratados de livre comércio, não é difícil demonstrar que isso seria simplesmente suicídio do ponto de vista econômico. Nossa indústria não tem nenhum condição de competir com empresas europeias e americanas, as primeiras num ambiente de deflação. Já estamos com um cavalar déficit comercial com os EUA e Europa. EUA e Europa estão empenhados sobretudo em ampliar exportações, e não aumentar importações. Isso é essencial na sua estratégia de retomada. Abrir nosso mercado para eles num acordo de livre comércio seria condenar à morte nossa indústria, em especial a indústria de bens de capital.

Se as pessoas refletissem com mais objetividade econômica e menos ideologia veriam que não temos nenhuma alternativa real fora do aprofundamento de nossas relações econômicas dentro dos BRICS e da Unasul. É o que nos impõe a geoeconomia a despeito da geopolítica. Os BRICS, e principalmente a China, que puxa a Ásia como única região de alto crescimento do mundo, tem um tremendo potencial de financiamento, de integração produtiva e de mercado – tal como expus no artigo anterior anunciando o Projeto Transul. Já os demais países da UNASUL tem grande potencial de mercado de bens de capital (em parte já é), principalmente se o Projeto Transul estender-se a eles, como espero.

É claro que os EUA não gostariam do Projeto Transul, como não gostam de nada que represente um embaraço à expansão de seus investimentos num momento de crise de oportunidades da economia real dos países centrais, e num momento em que preparam a guerra contra a Rússia. Paciência. Temos que buscar nosso destino, mesmo sabendo que, afirmando seus próprios interesses, os EUA concorrerão para nos desestabilizar dentro de nossa crise interna, usando o pretexto da corrupção – como fizeram com a Líbia, o Egito e o Yemen. Entendo que não devemos tê-los como rivais, mas como um vizinho perigoso. De qualquer modo, dadas nossas relações históricas, não precisamos de ser inimigos deles.

*Jornalista, economista, doutor pela Coppe/UFRJ, professor de Economia Internacional da UEPB.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Olhar a realidade de frente para mudá-la

Nada ganhamos ao culpar o império por nossas debilidades. É impossível mudar o inimigo. A bola está em nosso campo e nos resta olhar a realidade de frente.

Raúl Zibechi

Ainda é inquestionável que vivemos um período turbulento e, portanto, opaco e confuso. A diversificação dos pontos de vista e análises necessários para compreendê-lo não deveria deixar de lado princípios éticos sem os quais a atividade para mudar o mundo perde sentido. As modas intelectuais, assim como as ilusões na evolução gradual do sistema, pouco ajudam para nos guiar na turbulência.

Uma das modas é a geopolítica. Não são poucos os que buscam atalhos que evitariam as inevitáveis dores desta etapa. Os Brics fazem parte da nova realidade multipolar e caótica, chamados como estão para deslocar as potências do norte (Estados Unidos, União Europeia e Japão) como centros excludentes do sistema-mundo. No entanto, os países chamados de emergentes encarnam formas e modos de gestão do capitalismo diferentes das do modelo anglo-saxão, mas tão capitalistas quanto.

Se nos congratulamos pela transição em curso em direção a um mundo multipolar, é na convicção de que o caos sistêmico e a multiplicidade de poderes são um adubo para a luta antissistêmica. Nem mais nem menos.

As análises gradualistas não levam a sério o fato de vivermos sob várias guerras. Os 70 anos decorridos desde o fim da Segunda Guerra Mundial parecem ter convencido muitos analistas de que as guerras se extinguiram, quando na verdade elas são o modelo habitual do capitalismo em sua fase extrativista e de acumulação por despojo/roubo.

A análise zapatista sobre a quarta guerra mundial do capital contra os povos ajuda a compreender as agressões que os de baixo sofrem em todo o mundo – desde as guerras abertas de aniquilação, como no Oriente Médio, até as guerras silenciosas, que o modelo extrativista descarrega sobre os povos para instalar minas a céu aberto, monoculturas e represas hidrelétricas, só para mencionar os casos mais frequentes.

Existem guerras econômicas, monetárias, pelo controle das fontes de água; guerra contra as mulheres e as crianças; enfim, o mais diverso tipo de agressões sistemáticas e sistêmicas contra os mais diversos povos e setores sociais.

José Luis Fiori, professor de política econômica da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenador do grupo de pesquisa Poder Global e Geopolítica do Capitalismo, esboça uma análise distinta sobre a economia atual. Devemos começar pela análise e compreensão de como funcionam os mercados internacionais, que se parecem mais com uma guera de movimentos entre forças desiguais do que um intercâmbio entre unidades iguais e bem informadas (página13.org.br, 30/1/15).

Inspirado no historiador Fernand Braudel, Fiori considera que estados e capitais atuam nessa guerra assimétrica como grandes predadores na luta pelo controle monopolístico de posições de mercado, inovações tecnológicas e lucros extraordinários.

As considerações anteriores (mercados como guerras de posições, estados/capitais como predadores) são mais consistentes do que considerá-los ferramentas quase neutras que podem ser utilizadas por classes, raças, gêneros e etnias em seu benefício. Posições desse tipo tendem a desarmar os de baixo num período no qual não eles podem nem devem confiar em outra coisa que não suas próprias forças e capacidades.

Gostaria de agregar três ideias que Fiori tem esboçado em seus artigos jornalísticos e que trabalha em seu último livro História, estratégias e desenvolvimento: para uma geopolítica do capitalismo (Boitempo, São Paulo, 2014).

A primeira tem relação com a China, mas pode se aplicar a todos os Brics. “O poder é sempre expansivo (…) Foi assim em qualquer tempo e lugar, durante toda a história da humanidade, independente da existência de economias de mercado, e muito antes da existência do capitalismo” (Outras Palavras, 25/4/13). Alerta-nos sobre a crença de que a Rússia, ou a China, possam ser e fazer coisas muito diferentes do que já conhecemos. Não são forças anticapitalistas.

A segunda tem a ver com a economia. Diz que esta se subordina aos objetivos de longa duração dos estados. “As políticas econômicas dos países variam no espaço e no tempo, e seu êxito ou fracasso depende de fatores externos à própria política econômica, e não à verdade ou à falsidade de suas premissas teóricas” (Carta Maior, 27/11/14).

Afirma que é inútil buscar políticas econômicas de esquerda. Trata-se de levar em conta os objetivos em função dos quais os estados adotam diversas diretrizes econômicas. Tem a virtude que nos torna alheios ao economicismo dominante nas esquerdas, nos progressismos e em muitos movimentos sociais. Em todo caso, essa premissa não deveria ser adotada ao pé da letra pelos movimentos antissistêmicos, pois é a ética que preside sua ação.

Por último, tem uma visão muito clara da política dos Estados Unidos. Lembra que foi Nicholas Spykman o teórico geopolítico que teve maior influência na política exterior norte-americana no século XX. Dividia o subcontinente latino-americano em duas partes. A parte norte inclui até a América Central, o Caribe, a Venezuela e a Colômbia, que devem permanecer em “absoluta dependência” dos Estados Unidos.

O resto da América do Sul conta com três estados, como Brasil, Argentina e Chile, que podem ameaçar a hegemonia imperial se atuarem em conjunto – ameaça que deve ser “respondida por meio da guerra”. Fiori considera que o problema não é o império, mas neste caso, na região e, muito concretamente, seu próprio país: Brasil. “Estes são os termos da equação e a posição norte-americana sempre foi muito clara. O mesmo pode ser dito da política externa brasileira” (Sin Permiso, 30/03/14).

Nada ganhamos ao culpar o império pelas nossas debilidades. É impossível mudar o inimigo. A bola está em nosso campo e só nos resta olhar a realidade de frente.

Créditos da foto: The U.S Army / Flickr
Texto original:
CARTA MAIOR

quarta-feira, 17 de abril de 2013

O silêncio sobre U$ 675 bilhões extraídos dos brasileiros

Escola Margareth Thatcher

Veiculado pelo Correio da Cidadania a partir de 12/04/13

por Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia, por e-mail

Determinado bem pertencente ao povo brasileiro, que vale no mercado em torno de US$ 1,5 trilhão, vai ser repassado, no próximo mês de maio, a empresas estrangeiras pelo pagamento de US$ 225 bilhões de royalties durante um período de 30 anos.

Pode ser suposto que, para colocar o bem no mercado, as empresas precisam recuperar investimentos e custos realizados, além de ter um bom lucro, ou seja, elas precisam retirar US$ 600 bilhões do negócio.

Em outras palavras, nosso povo deveria receber pelo bem em torno de US$ 900 bilhões (= US$ 1,5 trilhão – US$ 600 bilhões). Como recebe só US$ 225 bilhões, ele vai ter seu patrimônio subtraído exatamente em US$ 675 bilhões, parcela esta que irá para os caixas das empresas como superlucro.

O PIB do Brasil em 2012 foi de US$ 2,3 trilhões. Assim, esta subtração do patrimônio do nosso povo é igual a cerca de 30% do PIB brasileiro.

No entanto, nenhum meio de comunicação tradicional, quer sejam os jornalões ou as revistas semanais ou as TV abertas ou por assinatura, falou sobre este fato.

A população brasileira nada sabe sobre uma ação que representará uma gigantesca subtração de patrimônio público.

Este silêncio é a comprovação da parcialidade da grande mídia, que oculta as verdadeiras questões de interesse da sociedade.

Por outro lado, fica patente também a falta de compreensão da classe política, com raras exceções, com relação às prioridades da nossa sociedade.

Se não for falta de compreensão, pode ser algo bem pior.

É preciso deixar claro que tudo será feito e o patrimônio será entregue estritamente dentro da lei. Uma lei extremamente injusta para com a sociedade e muito benéfica para as empresas, principalmente as estrangeiras. Mas é a lei vigente para blocos fora da área do Pré-sal, de número 9.478 de 1997.

A referida subtração é aprovada a partir da entrega de áreas do território nacional como concessões para empresas explorarem e produzirem petróleo e gás, que ocorrerá na 11ª Rodada de leilões de blocos, promovida pelo governo brasileiro nos dias 14 e 15 de maio.

A estimativa de petróleo a ser descoberto nestes blocos foi fornecida pela própria diretora-geral da ANP em seminário de promoção da Rodada.

Vou repetir argumentações de outros artigos meus sobre este assunto, para explicar sumariamente como esta Rodada é pouco atraente.

As empresas estrangeiras arrematarão grande número de blocos e irão exportar todo petróleo descoberto nestes blocos in natura. Na fase de investimentos, quase não irão comprar no país, não irão contratar desenvolvimento tecnológico nem engenharia no Brasil, quase não irão empregar mão de obra local e deixarão no Brasil o royalty, que é, em comparação com o lucro, uma parcela bem menor.

Também, o Brasil perde a possibilidade de uso do fornecimento garantido de petróleo de médio prazo a outros países como instrumento de ação geopolítica. A lei 9.478 permite todas estas injustiças e usurpação da nossa riqueza.

À primeira vista, a alegria devido à morte de um ser humano pode ser considerada uma desumanidade. No entanto, pode também significar uma explosão de alívio, pois a fonte de opressão e insensibilidade, representada pelo morto, foi extinta. Foi o que aconteceu com a morte de Margareth Thatcher.

Ou seja, o povo comemorou a execução pela Justiça divina, ou pelo acaso, daquilo que a Justiça terrestre foi incapaz de corrigir.

Injustiças causadas pelo preposto do capital, com ajuda da mídia subalterna, tristemente suportadas pelo povo, oprimem tanto que a morte do algoz pode ser comemorada.

Apesar da inegável realização social dos governos Lula e Dilma, fica uma pergunta na nossa mente: qual o legado a presidente Dilma quer deixar neste setor? Ser lembrada como membro da Escola da privatista Margareth Thatcher?

Se você estiver convencido sobre o que foi explicado e quiser fazer valer seu desejo, mesmo porque a Constituição afirma que todo poder emana do povo, remeta um recado para a presidente Dilma através do endereço: https://sistema.planalto.gov.br/falepr2/index.php.

Com relação aos deputados e senadores, mandar mensagens é mais complicado, porque teria que ser através de e-mails individuais.

Um e-mail para cada um dos 513 deputados e cada um dos 81 senadores. No entanto, não deixe de mandar para aqueles nos quais você acredita. Sugiro, também, que você se defenda, pois estará sendo lesado. Lute como puder para esta usurpação ser barrada.


Tedxto replicado deste blog: VI O MUNDO (Luiz Carlos azenha)