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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

A grande empulhação dos colunistas econômicos

Grande parte dos colunistas de economia da imprensa comercial brasileira, autodenominada grande imprensa, comete uma fraude contra os cidadãos.

Marco Piva (*)

Grande parte dos colunistas de economia da imprensa comercial brasileira, autodenominada “grande imprensa”, comete uma fraude contra os cidadãos que acompanham as notícias no dia a dia. Eles têm uma verdadeira obsessão quando tratam de assuntos da sua área: a obsessão de acreditar que falam ou escrevem sem ideologia nenhuma, que seus comentários são isentos, práticos e objetivos, e que só mesmo a cegueira política não é capaz de enxergá-los como grandes pensadores críticos do país. Ora, ter uma visão ideológica e não assumi-la é a pior forma de cinismo e de empulhação. Essa gente não fez nem TCC no ensino médio para saber que qualquer coisa que se diga, se fala desde um lugar, desde uma teoria de interpretação sobre a realidade que se vê. E acreditar nos pilares do liberalismo sem freio, na aposta que a mão invisível do mercado pode tudo, forma um conceito tão atrasado quanto aquela regra do futebol que permitia ao goleiro segurar a bola com a mão por quanto tempo quisesse.

Pois bem. Um dos esportes prediletos desses colunistas de uma só forma de ver a economia é criticar os governos ditos bolivarianos como a Venezuela, o Equador, a Bolívia e a Argentina, não faltando tremendos esforços para incluir o Brasil na lista. A tese vale para todos: são governos gastões, populistas, anti-iniciativa privada, inimigos dos Estados Unidos e por aí vai. Dizem os guardiões do pensamento do mercado que a situação nesses países vai de mal a pior por obra e culpa dos governantes de plantão, casualmente todos eles de esquerda.

Não é que as previsões para os demais países latino-americanos também não são nada animadoras para 2015? Vamos pegar o exemplo de nações governadas pela direita para que a análise não seja entorpecida. O México terá um de seus piores anos. Indústrias norte-americanas instaladas em território mexicano estão demitindo e fechando suas portas. As chamadas “fábricas maquiladoras”, eixo central da integração do Nafta, estão indo se instalar em outras freguesias. O petróleo, principal receita do país, está com a produção em baixa e preços achatados no mercado internacional. Como entrou de sócio menor no acordo comercial com Estados Unidos e Canadá, os mexicanos correm o risco de voltar a níveis produtivos anteriores a 1980. O PIB deste ano está previsto para 1,0%. A pobreza e a violência só crescem.

A Colômbia, outra menina dos olhos dos colunistas econômicos brasileiros, teve forte queda de produção e mal ultrapassou o 1% do PIB em 2014. As previsões para esse ano são ainda mais sombrias. Aberto desde sempre ao capital estrangeiro especulativo, o país começa a assistir a saída desses capitais numa escala sem precedente. Pesa ainda a desvantagem de não ter muito para onde correr, já que a produção agrícola do país depende de commodities, cujos preços estão em baixa no mercado internacional, sem falar do problema da violência política, ainda sem solução definitiva.

O Peru, depois de três anos seguidos de crescimento, viu uma marcha à ré em 2014. Sua principal riqueza, as jazidas de minério, perdeu espaço para novos centros de produção na África e Ásia. Sem uma indústria forte, pouco terá a oferecer para garantir emprego e renda aos seus cidadãos.

Vamos colocar o Chile no rol dos países mais abertos economicamente, embora tenha um governo de inspiração esquerdista moderada. O cobre, de longe a grande cartada do país, está com preços em queda. Os investimentos externos estão caindo para os piores níveis da história e, o que é pior, iniciam um movimento de fuga, o que levou a presidente Michelle Bachelet a decretar apressadamente uma nova lei de “inversiones extranjeras”, mais liberal e sem grandes contrapartidas como a anterior.

Nesse cenário, o Banco Mundial destaca que a América Latina cresceu 1,0% em 2014, a média mais baixa dos últimos 12 anos. A projeção de crescimento do PIB é de 2,4% para este ano, um verdadeiro risco para a continuidade dos programas sociais que diminuíram em 24% a pobreza no continente. Nenhum país latino-americano ou caribenho crescerá vigorosamente, com a única exceção da Bolívia, que ainda colhe os frutos da nacionalização do setor de gás e energia. Então, onde está escrito que os únicos países que estão em difícil situação econômica são aqueles cujos governos tem ideias de esquerda? Em qual manual ficou provado que a melhor maneira de levar a economia de uma nação é abrindo todos os flancos para o investimento estrangeiro e para a total privatização dos setores estratégicos? Quem disse que desenvolvimento não combina com justiça social?

Sem dúvida, falta muito para que famosos colunistas econômicos tenham a humildade de reconhecer que, sim, falam em nome de uma ideologia a qual devotam crença inabalável e que prestam um desserviço aos consumidores de notícia quando emitem opiniões baseados em só um lado da moeda. A América Latina vive uma crise econômica que é resultado da queda brutal das commodities de matérias primas, do rearranjo do poder econômico mundial baseado na financeirização dos ativos, da precarização de seu parque industrial, da histórica falta de investimento em inovação e tecnologia e do profundo ódio que os donos locais do dinheiro nutrem contra qualquer coisa que sinalize uma pequena mudança em seu status quo.

Por isso, debater a regulação econômica da mídia é mais do que necessário; é urgente, é “pra ontem”. Somente assim poderemos almejar uma sociedade com mais pluralismo e mais democracia, com cidadãos que poderão olhar criticamente uma notícia sob variados pontos de vista e não apenas a partir da “verdade única” dos colunistas, desses endeusadores do oráculo do mercado.

(*) Marco Piva é jornalista.

domingo, 20 de julho de 2014

Manifestação de apoio à Palestina acaba em confronto em Paris

Apesar de proibida, milhares de pessoas ocuparam, sábado, as ruas do norte de Paris para bradar contra os ataques de Israel à Palestina.

Sarah Carneiro (*)

Paris - Embora a manifestação tenha sido proibida pela justiça – na França, a organização de mobilizações nas vias públicas só é possível mediante autorização da polícia –, milhares de pessoas ocuparam, sábado (19, as ruas do norte de Paris para bradar contra os ataques de Israel à Palestina. Houve muita tensão: um civil e um policial ficaram feridos e 38 pessoas foram presas.

O movimento teria início às 15h. Por volta das 10, quase 30 viaturas policiais já cercavam a região, enfileiradas nas ruas que circundam a estação de metrô Barbès. Agentes andavam de um lado para o outro, examinando o mapa da cidade e articulando estratégias para sufocar a manifestação, caso esta viesse a ser formada.

Em meio aos preparativos dos policiais, uma senhora que passava pelo local demonstra o seu inconformismo. “É completamente lamentável a interdição dessa manifestação de solidariedade a um povo massacrado. A França é o país dos direitos humanos e da liberdade de expressão”, salientou.


Crescente

Era mais ou menos 14h, quando um grupo de umas 30 pessoas chegou à região, munido de bandeiras e alguns cartazes. Gritando frases, como: “Resistência de Paris à Gaza” e “Israel assassino; Hollande (presidente da França) cúmplice”, eles pediam liberdade. “Nós temos o direito de nos manifestar. Não podemos aceitar a proibição que nos foi dada. Crianças morrem. Israel coloniza Gaza e temos que reagir”, exigia Ichan, um dos militantes.

“O mundo inteiro apoia esta manifestação. Até os jornalistas americanos têm assumido uma posição contrária a Israel. Todas as pessoas estão percebendo que os israelenses são manipuladores, e que efetivamente os palestinos estão sendo massacrados. Não se trata de uma guerra; se trata de uma colonização e um povo inteiro corre o risco de morrer. Como cidadãos franceses, nós temos o direito de nos manifestar”, insistia Ichan.

Mais e mais manifestantes foram se aglomerando, e os policiais os cercaram para impedir que saíssem em marcha. A esta altura, 15h30, já se tinha uma multidão no local; homens e mulheres erguiam fotos do massacre, e duas bandeiras de Israel foram queimadas no alto de um prédio. Neste instante, Muay, que vestia uma camisa onde se lia “Boicote a Israel”, perguntado se entendia aquele encontro já como uma manifestação, respondeu: “se temos as passagens bloqueadas e não podemos caminhar, não temos uma verdadeira manifestação”.

Confronto

Transcorridos alguns minutos, uma das avenidas teve o acesso liberado e os manifestantes seguiram com palavras de ordem contra Israel, até esbarrarem num novo cordão policial. Foram arremessados fogos de artifício e pedras em direção à polícia, que reagiu com bombas de gás lacrimogêneo. A partir daí o que se viu foi um enfrentamento entre os dois lados.

Em ruas próximas, muitas pessoas observavam o que estava acontecendo e era comum o descontentamento com a proibição da manifestação, anunciada ontem. “Não entendo como o Partido Socialista pôde fazer isso. Desde 1968 eu não tenho notícias de que alguma passeata tenha sido impedida”, declarou Emmanuelle, habitante do bairro de Barbès.

O argumento usado pelo presidente François Hollande para a interdição foi que “não se pode importar para Paris o conflito que acontece em Gaza”. Além disso, também recordou que mobilizações ocorridas nos últimos dias acabaram em apedrejamentos a sinagogas da cidade econfronto contra a LDF (Ligue de défense juive – Liga de Defesa Judia).

(*) Sarah Carneiro é jornalista.

Créditos da foto: Luciano Fogaça

texto original: CARTA MAIOR

domingo, 13 de julho de 2014

Mídia e oposição na contra-mão das manifestações de junho

Com a força das manifestações de junho de 2013, o governo Dilma pode levar à frente projetos que sofriam forte resistência no Congresso e na imprensa.

José Augusto Valente

A partir da manifestação do Movimento Passe Livre (MPL), pela redução das tarifas de ônibus de São Paulo, outros movimentos e pessoas se articularam e foram às ruas e às redes sociais, colocando publicamente demandas relevantes para o país.

Na essência, essa movimentação pedia “mais estado” nos serviços públicos. 
Mais saúde, mais educação, mais transporte público e mais direitos de cidadania. Junto com isso, havia um forte questionamento ao Congresso Nacional, indicando que este não os representava. Daí a necessidade da “voz das ruas” ser ouvida.

A chamada grande imprensa e a oposição tentaram de todas as formas surfar esse momento insinuando que estava em cheque o governo Dilma, que precisava ser substituído. Faziam questão de esconder a informação básica de que saúde e educação básicas e transporte público são atribuições de prefeituras e governos de estado e, em muito menor grau, da União.

O governo Dilma, no entanto, já trabalhava essas questões há alguns anos e tinha enorme dificuldade de aprovar os respectivos projetos no Congresso Nacional.

Com a força das manifestações, o governo Dilma pode levar à frente esses projetos que sofriam forte resistência no Congresso e na imprensa, como: Mais Médicos; Plano Nacional de Educação; Royalties do pré-sal para educação e saúde; Política Nacional de Participação Social; e Reforma Política.

Dessas cinco ações, três continuam recebendo oposição incondicional da imprensa:

O Mais Médicos faz parte do programa Saúde da Família, que reforça a medicina preventiva, e é fundamental para reduzir demandas e custos nas unidades de maior complexidade, permitindo maior qualidade de atendimento nessas. A oposição se atém ao fato de haver uma quantidade razoável de médicos cubanos, para fazer seu proselitismo contra o programa. 

O que está por trás desse proselitismo, entretanto, não é a ideologia, e sim porque um programa da saúde da família bem feito, com apoio nas UPAs, permite o combate a dois aspectos que mantêm a saúde pública no século XIX. 

O primeiro é que o fisiologismo de muitos partidos opera na carência de serviços públicos. Onde falta estado entram os Centros Sociais de vereadores e deputados, que, com suas ambulâncias e seu trabalho de despachante de luxo, abarrotam os hospitais públicos. 

O segundo é que uma excelente saúde pública básica reduz em muito as demandas nas unidades de maior complexidade como hospitais. Essa redução gera menos gastos em remédios, equipamentos e outros insumos. Essa é uma importante fonte de abastecimento de caixas dois de campanha eleitoral.
Em síntese, o programa Mais Médicos, junto com as UPAs, é muito ruim para os projetos eleitorais da oposição e, sejamos justos, também para alguns partidos da base do governo.

A Reforma Política, como proposta pelo governo federal, visa à redução do peso do poder econômico no processo eleitoral e, por consequência, nas decisões do Congresso Nacional e demais casas legislativas.

Como a oposição e a imprensa representam, quase que exclusivamente, os interesses do poder econômico, não é difícil entender porque a guerra contra a reforma política, especialmente, contra a convocação de Constituinte exclusiva para isso, sem os congressistas atuais.

O Decreto que regulamentou a Política Nacional de Participação Social apenas definiu de forma mais clara algo que já existe na nossa legislação. 

A Constituição, em seu Artigo 1º, parágrafo único, diz que “todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente”. O Art. 14 prevê a utilização de plebiscitos e referendos, bem como a iniciativa popular no processo legislativo. Além disso, a Carta Magna define a participação social como diretriz do Sistema Único de Saúde (Art 198, III), da Assistência Social (Art. 204, II), da Seguridade Social (Art. 194, parágrafo único, VII) e, mais recentemente, do Sistema Nacional de Cultura (Art 216, § 1º, X). 

Além da oposição incondicional da imprensa a esses projetos, há a omissão sobre questões relevantes, apontadas pelas manifestações de junho de 2013.

O Plano Nacional de Educação, do governo federal, permitirá o salto quantitativo e qualitativo no ensino brasileiro. Define metas para os próximos dez anos, com respectivos mecanismos de monitoramento, avaliação e financiamento. É uma resposta categórica aos anseios da população pela melhoria da educação. Define maior responsabilidade da União no sistema de ensino. 

A Petrobras terá um papel estratégico no financiamento da educação pública de qualidade. Assim, os recordes seguidos na produção deveriam merecer destaque na imprensa. Mas não é o que ocorre. Para esta, o que interessa é Pasadena e supostos esquemas de corrupção. É mais importante tentar vincular a presidenta Dilma àquilo que eles consideram como erro grave na aquisição de Pasadena, do que, por exemplo, informar o atingimento da marca de 539 mil barris apenas no pré-sal.

Como se vê, as principais medidas propostas pelo governo federal são rechaçadas ou minimizadas pela oposição e por parte da imprensa que a apoia incondicionalmente. O que as colocam na contra-mão das manifestações de junho/2013.

Com a palavra o eleitor!

Texto original em: CARTA MAIOR

terça-feira, 1 de julho de 2014

Quem são os bandidos?

Seria o trabalhador que luta por melhores condições e salários ou um governo com integrantes acusados de receber propina?

Por: Vladimir Safatle, no CartaCapital

A história tem lá sua ironia. Pense em um governo acusado de, durante décadas, alimentar um dos piores casos de corrupção do Brasil por meio do desvio de dinheiro de obras do Metrô de sua capital caótica. Como ele controla a Assembleia Legislativa e tem influência sobre certos integrantes do Poder Judiciário, o caso parece nunca andar até que tribunais internacionais começam a julgar as multinacionais envolvidas em esquemas milionários de propina.

Então, aos poucos, cada um dos integrantes da alta cúpula do dito governo começa a aparecer nas páginas policiais. Mesmo assim, nenhuma CPI, nenhuma sanha investigativa a alimentar o ímpeto denunciador de amplos setores da mídia. Ao contrário, tudo indica que o referido governo ganhará mais uma eleição em uma terra na qual ele governa há praticamente 30 anos. Ou seja, estamos aí diante do crime perfeito praticado por profissionais.

Imbuído da fé em sua resiliência, o governo resolve enfrentar uma greve, veja só, exatamente no Metrô, a empresa, tudo indica, saqueada por propinas, com uma gestão tão eficiente que construções desabam e matam periodicamente operários. Do outro lado, estão metroviários em luta por algo inaceitável, absurdo, impensável, a saber, melhores salários. Como assim, funcionários em greve por melhores salários e condições de trabalho? Por meio da força de pressão para poder negociar uma qualidade de vida melhor?

Impossível. Na verdade, eles estão, como se diz, a tornar a “população” refém de seus “interesses políticos”, a querer desestabilizar o governo ordeiro em ano eleitoral. Não, uma greve não pode atrapalhar a população trabalhadora, da mesma forma como, em 2013, uma manifestação não podia impedir a “população” de praticar seu legítimo direito de ir e vir.

Claro que há direito de greve, mas greve legal e somente aquela que ninguém sente e que, por isso, pode ficar durante meses sem conseguir algo. Greve boa é greve morta.

Os metroviários não entenderam assim, por isso o governo precisou agir com firmeza. Funcionários presos, demitidos e ameaçados de demissão. Qual o crime? Ter feito greve. Ou, se quiser, se comportado como “bandidos” por pararem a circulação da cidade a fim de mostrar ao povo suas condições precárias de trabalho e salário.

Então, nessas ironias da história, um governo prenhe de integrantes a serem acusados de bandidos por práticas reiteradas de corrupção no Metrô mostra sua mão dura contra funcionários, desse mesmo Metrô, tratados como bandidos por fazerem uma greve por melhores salários e condições de trabalho. Difícil não se imaginar em uma peça de Alfred Jarry. O título da peça poderia ser, inclusive: “Quem São os Bandidos?”

Para terminar a descrição da peça, haveria ainda o coro. Ele seria composto de cidadãos chorando por não terem conseguido trabalhar, empregados ordeiros revoltados por não poderem realizar suas obrigações laborais de forma civilizada. Gente que, repetidamente, diz não aguentar mais a instabilidade provocada por esses grevistas que confrontam a polícia e que parecem ter alguma forma de prazer perverso em inalar gás lacrimogêneo. Algum dia você ainda verá artigos a provar que esquerdistas gostam de inalar gás lacrimogêneo, porque ele provoca alucinações.

Esse é um capítulo da estranha vida em São Paulo. Muitas vezes, ela parece ser a descrição de um mundo invertido onde o pior pecado é ser pobre, não aguentar ser espoliado em seu emprego, mas ser sindicalizado. Ainda mais se for funcionário do Metrô.

Pois como o Metrô conseguirá pagar melhores salários se ele precisa ainda, ao que indicam os processos abertos nas justiças suíça e francesa, financiar campanhas eleitorais para o grupo que tem o direito de governar São Paulo como uma capitania hereditária?

Isso é não entender nada de choque de gestão e responsabilidade orçamentária. Isso é ser completamente irresponsável com o dinheiro público. Tenha certeza disso, nossos governantes nunca aceitarão tamanha chantagem.

Texto replicado deste endereço: O CARCARÁ

sábado, 28 de junho de 2014

As 13 previsões mais catastróficas, e furadas, sobre a Copa no Brasil

É hora de relembrar, com algumas boas gargalhadas, as previsões mais pessimistas e catastróficas feitas por cartomantes de plantão que previram o caos.

Najla Passos

A Copa do Mundo não resolveu e não irá resolver todos os problemas do país. Aliás, nem é esta a função de um evento esportivo privado. Mas que o mundial atrai turismo e investimentos externos, não há mais dúvidas. Como também não há nenhuma de que ele mexe com autoestima de um país incentivado durante séculos a cultivar um inapropriado “complexo de vira-latas”! 

Por isso, agora que o sucesso do evento já é reconhecido em todo o mundo, que o país já provou que pode ser organizar uma bela copa e que os turistas e os investimentos estrangeiros continuam chegando, é hora de dar boas gargalhadas com previsões mais pessimistas feitas pelas cartomantes de plantão que tanto torceram contra a realização do mundial.

Das adivinhações às avessas do mago Paulo Coelho à mudança de planos da cineasta que fez sucesso afirmando que não viria ao Brasil, dos prejuízos contabilizados pelo tucanato ao delírio do protesto do chuveiro no “modo quentão”, do mau-humor da imprensa estrangeira à campanha permanente da Veja, confira as 13 previsões mais catastróficas – e furadas – sobre a Copa do Mundo no Brasil!

1 – O mago Paulo Coelho: “A barra vai pesar na Copa do Mundo”

Em entrevista à revista Época, publicada em 5/4/2014, o mago, guru e escritor Paulo Coelho, que mora na Suíça, disse que não viria ao Brasil assistir aos jogos da Copa do Mundo nos estádios, apesar de ter sido presenteado com os ingressos pela FIFA. “A barra vai pesar na Copa. A Copa será um foco de manifestações justas por um Brasil melhor. Os protestos vão explodir durante os jogos porque vai haver mais gente fora do que dentro dos estádios”, afirmou.

O Mago, que “previra” que o Brasil ia ganhar a Copa das Confederações, evita arriscar o resultado para o mundial. E apresenta certezas já desconstruídas pela realidade, como a de que o Brasil deveria disputar a final com a Espanha, eliminada na 1ª fase: “Agora não sei. Certamente o Brasil irá à final com a Alemanha ou a Espanha, duas seleções fortíssimas nesta Copa. A Argentina não. A Suíça vai surpreender. Eu ousaria dizer que a Suíça vai para as quartas. No futebol, você tem que ser otimista, não tem outra escolha. O Brasil tem chances de não ganhar”.

2 – Arnaldo Jabor: “A Copa vai revelar ao mundo a nossa incompetência” 

No dia 6/6/2014, às vésperas da abertura da Copa, o cineasta Arnaldo Jabour, emcomentário para a Rádio CBN, ainda insistia no pessimismo em relação à Copa, com o objetivo claro de influir no processo eleitoral de outubro. “Nós estamos jogando fora a imensa sorte que temos, por causa de dogmas vergonhosos que não existem mais. Estamos antes do Muro de Berlim e a Copa do Mundo vai revelar ao mundo a nossa incompetência”, afirmou.

3 – Veja: “Por critérios matemáticos, os estádios da Copa não ficarão prontos a tempo”

Em 25/5/2011, a Veja previu o fracasso da Copa do Mundo no Brasil. E com a ajuda da matemática, uma ciência que se diz exata desde tempos imemoriais. Na capa, a data da logo do mundial era substituída por 2038. O intertítulo explicava: “Por critérios matemáticos, os estádios da Copa não ficarão prontos a tempo”.

De lá para cá, foram muitas outras matérias, reportagens e artigos anunciando o fracasso do mundial. E mesmo com o início dos jogos, com estádios prontos e infraestrutura à altura do desafio, a revista estampou, na edição desta semana, uma nova catástrofe iminente: “Só alegria até agora - Um festival de gols no gramado, menos pessimismo nas pesquisas, mais consumo, visitantes em festa e o melhor é aproveitar, pois legado duradouro, esqueça”.

Melhor mesmo é torcer para que, quem sabe até 2038, a Veja aprenda a fazer jornalismo!


4 – Cineasta brasileira radicada nos EUA: “Não, eu não vou para a Copa do Mundo”

Em junho de 2013, a cineasta brasileira Carla Dauden, radicada em Los Angeles, nos Estados Unidos, fez sucesso na internet com o vídeo “No, I’m Not Going to the World Cup” (“Não, eu não vou para a Copa do Mundo”), que alcançou quatro milhões de curtidas. Mas antes mesmo da bola começar a rolar nos gramados brasileiros, a ativista já era vista circulando pelo país.

No Twitter, ela justificou a abrupta mudança de planos: “Não vim para ver a Copa, vim para falar dela. A Copa nunca vai ser a mesma para os brasileiros. As pessoas não vão se esquecer do que acontecerá por aqui”, diagnosticou, antes da abertura. A frase, de fato, parece fazer sentido. Mas por motivos opostos do que aqueles que a ativista advoga!

5 - Protesto do chuveiro no “modo quentão” vai causar apagão!

Até bem pouco tempo antes do início da Copa, eram muitos os setores que insistiam no risco iminente de blackout no país, da oposição à imprensa monopolista. Um grupo de internautas, porém, levou as ameaças infundadas a sério e decidiu criar uma página no Facebook destinada a acelerar o caos: usar os jogos da Copa para provocar um apagão generalizado no Brasil e, assim, boicotar a realização do evento.

A estratégia definida foi a utilização sincronizada dos chuveiros no “modo quentão”. “Chuveiros devem ser ligados na hora dos hinos nos jogos. A carga elétrica anormal derrubará a energia em bairros, cidades, regiões, estados e o país inteiro, em efeito dominó. Acompanhem os hinos por rádio, para maior garantia de sincronização”, diz a descrição do evento que conquistou pouco mais de 4,5 mil curtidas.

Dado o fracasso do evento, a página agora é utilizada para a troca de memes contra o PT, a esquerda e as pautas sociais e progressistas!

6 – Marília Ruiz: “Vai ser um vexame. Um vexame!”

No dia 26/1/2014, a TerraTV publicou um comentário da jornalista esportiva Marília Ruiz em que ela previa que, se o Brasil conseguisse realizar a Copa, já seria uma grande vitória. A antenada comentarista até admitia que os estádios ficariam prontos. Mas sem qualidade: "Se eu sentaria o meu corpinho numa cadeira recém colocada, com um parafuso a menos? Eu não sei”.

Do alto de sua experiência em cobertura de outras copas e de um etnocentrismo latente, ela também alertava que, mesmo fazendo sua Copa após a da África, o país passaria vergonha. “Eu achei que a gente ia passar vergonha, que nós, brasileiros, que o país ia passar vergonha. Aí eu pensei, é até um alento porque a Copa do Brasil vai ser depois da Copa da África: ninguém vai lembrar muito como foi na Alemanha. Muito menos as pessoas vão lembrar como foi no Japão e na Coreia. E eu posso dizer porque estive lá. É uma vergonha ao cubo!”

Confira o comentário completo e saiba quem é que está passando vergonha!

7 - Álvaro Dias: “O país ficará com mais prejuízo do que lucro”

De todas as aves de mau agouro que bravatearam contra a realização da Copa no Brasil, o tucano Álvaro Dias, senador pelo PSDB, foi uma das mais barulhentas. Previu que o governo amargaria um prejuízo de mais de R$ 10 bilhões com a realização do evento, que os turistas não apareceriam, que os aeroportos não ficariam prontos e não dariam conta do fluxo de passageiros.


“O legado da copa do mundo me parece ser um grande fracasso. O país ficará com mais prejuízo do que lucro”, disse ele em entrevista à TV Senado, publicada no Youtube em 7/8/2013. Agora que os turistas chegaram, os investimentos estrangeiros entraram e o país tá fazendo bonito em mobilidade e infraestrutura, o senador desapareceu por completo do noticiário. Não se sabe se está esperando o evento acabar para profetizar outro apocalipse ou aproveitando as férias para curtir os jogos, como fez durante a Copa das Confederações!

8 - Ex-presidente FHC: “A Copa do Mundo como símbolo de desperdício”

Em artigo publicado no norte-americano The Wold Post, em 21/1/2014, o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso se referiu à Copa como símbolo do desperdício de dinheiro público. Tal como seu companheiro Álvaro Dias, perdeu a chance de ficar calado. Segundo a Fipe, só a Copa das Confederações rendeu R$ 9,7 bilhões ao PIB brasileiro. A projeção de retorno da Copa é de R$ 30 bilhões. A Apex-Brasil, aproveitando a Copa do Mundo, trouxe ao Braisil mais de 2,3 mil empresários estrangeiros, de 104 países. A agência estima trazer US$ 6 bilhões em negócios para o Brasil.

9 - Redação Sport TV: do fracasso ao espírito de porco!

No Programa Redação Sport TV de 22/1/2014, o apresentador deu sonoras gargalhadas ao exibir a foto de um estádio da copa ainda sem gramado e fazer previsões catastróficas sobre o evento. Na edição de 26/6/2014, o tom mudou completamente: um outro apresentador mostrou como a imprensa internacional elogiava o evento e ouviu do entrevistado Ruy Castro: “A nossa imprensa foi rigorosamente espírito de porco antes do evento começar”.


10 – Governo alemão: “O Brasil é um país de alto risco”

Há seis semanas do início da Copa, o Ministério de Assuntos Exteriores da Alemanha divulgou um relatório pintando uma imagem desoladora do Brasil, descrito como um país ode as leis não são respeitadas e o turista corre o risco de ser roubado, sequestrado e se envolver em conflitos entre policiais e criminosos. O documento listava uma série de cuidados que os gringos deveriam tomar, incluindo atenção redobrada com as prostitutas, apontadas como membros e organizações criminosas, e vigilância contínua com os copos, para não serem vítimas de um “Boa noite, Cinderela”.

Pelo documento, até mesmo a seleção alemã estaria em perigo em terras tupiniquins. E não apenas dentro de campo. “Arrastões e delitos violentos não estão descartados, lamentavelmente, em nenhuma parte do Brasil. Grandes cidades como Belém, Recife, Salvador, Fortaleza, Rio de Janeiro e São Paulo oferecem altas taxas de criminalidade”, ressaltava.

O Ministério ainda não divulgou relatórios sobre o número de alemães que vieram ao Brasil e o que estão achando da experiência. Mas quem circula pelas ruas brasileiras, repletas de gringos felizes e sorridentes, já sabe!

11 - Der Spiegel: “Justamente no país do futebol, a copa poderá ser um fracasso”

Um dos principais semanários da Europa, a revista alemã estampou, um mês antes do início da Copa, a manchete “Morte e Jogos”, destacando que, justamente no país do futebol, a Copa poderia ser um fiasco, por causa dos protestos, da violência nas ruas, dos problemas do transporte coletivo, dos aeroportos e dos estádios. Praticamente um alerta vermelho recomendando que os europeus não viessem ao Brasil.

Mas os turistas vieram e estão adorando. A imprensa estrangeira também: o jornal norte-americano The New York Times, fala em “imenso sucesso”. O francês Le Monde, em “milagre brasileiro”. O espanhol El País diz “não era pra tanto” para as previsões catastróficas. A revista inglesa The Economist, remenda que “as expectativas, que eram baixas, foram superadas”. A própria Der Espiegel, na edição desta semana, dá destaque para a animação da torcida e admite que os protestos em massa ainda não aconteceram. 


12 – Ronaldo, o fenômeno: “Da vergonha à constatação de que a Copa é um sonho”

Na véspera do início do mundial, o ex-atacante Ronaldo se disse envergonhado com os atrasos das obras da Copa. Mas, membro do Comitê Organizador Local da FIFA que é, defendeu a entidade e culpou o governo Dilma por todos os problemas. “É uma pena. Eu me sinto envergonhado porque é o meu país, o país que eu amo. A gente não podia estar passando essa imagem”, disse à Agência Reuters o cabo eleitoral e amigo do senador Aécio Neves, candidato do PSDB à presidência.

Agora, consolidado o sucesso do evento, tenta mudar o discurso. Em coletiva nesta quinta (26), procurou se justificar. "Não critiquei a organização da Copa, até porque eu faço parte dela. Disse que poderia ser muito melhor se todas as obras de mobilidade urbana tivessem sido entregues”, remendou. ”Vivíamos um clima muito tenso, com a população muito descontente. Começou a Copa, e agora estamos vivendo um sonho", concluiu.

13 – O vira vira lobisomem de Ney Matogrosso

De passagem por Lisboa, em 11/5, Ney Matogrosso resolveu usar a Copa para criticar duramente a política brasileira na TV ATP. Só esqueceu de estudar, primeiro, os argumentos. “Se existia tanto dinheiro disponível para gastar com a Copa, por que não resolver os problemas do nosso país?”, disse ele, desconhecendo que, desde 2010, quando começaram os preparativos para a Copa, o governo já investiu R$ 850 bilhões em saúde e educação, enquanto os investimentos totais no mundial – incluindo federais, locais e privados – atingem R$ 25,6 bilhões.

Foi ácido quanto à construção dos estádios que, segundo ele, irão virar “elefantes brancos” e não serão usados para mais nada. Embolou dados, números e fatos em vários argumentos. Acabou sustentando uma visão preconceituosa sobre as classes populares. Questionado se há uma maior consciência dos pobres em exigir seus direitos, concordou: “O escândalo é tamanho que até essas pessoas param para refletir”.

Texto original : CARTA MAIOR

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Legado da Copa: fatos e falácias (parte 1)

Em relação às arenas da Copa, até o momento, nenhuma obra foi definitivamente classificada como superfaturada, em relatório do TCU aprovado pelo Congresso.

José Augusto Valente (*)

Em relação ao chamado “Legado da Copa”, o que a grande imprensa tem veiculado sobre o assunto apresentam mais falácias do que fatos comprováveis. É o que tentaremos demonstrar em alguns artigos sobre o tema.

Falácia 1 – Obras dos estádios foram superfaturadas

Para início de conversa, não são estádios de futebol e sim arenas multiuso, e isso faz toda a diferença. Essas arenas foram projetadas para receber não apenas partidas de futebol, mas uma série de outros eventos, como shows, espetáculos, conferências e reuniões. Esse múltiplo uso tem um nível de exigência muito maior do que o de simples estádio. Essas arenas, por serem obras originais, com graus de dificuldade únicos, com rigorosos requisitos de segurança, conforto e sustentabilidade, quase sempre necessitam de ajustes e consequentes aditivos. 

Sem essa flexibilidade, dificilmente haveria empresas de construção de porte interessadas no contrato. Especialmente, nos casos das PPPs e concessões, que representam a modalidade de contratação de boa parte das arenas, no qual a TIR (taxa interna de retorno) é definida pelas condições de mercado e não por decreto. Além disso, pelo fato de todas as arenas serem originais - não existirem iguais no mundo – não há como estabelecer comparações de custo com outros empreendimentos similares.

Assim também, obras de urbanização no entorno das arenas, como os jardins de Burle Marx em Brasília, incluem um forte componente de custo, que impede a comparação com outros estádios no mundo.

Quanto ao termo “superfaturamento”, ele é utilizado, a todo momento, como se fosse óbvio o seu significado. Será que é mesmo?

O que o TCU considera “superfaturamento”? Buscando essa palavra, no site do órgão, não aparece qualquer resultado. Idem, no Regimento Interno. A única menção a esse termo foi encontrada em uma retenção cautelar, em um caso no qual o pagamento de valores de mão-de-obra foram inferiores àqueles declarados nos demonstrativos de formação de preços. O custo do contratado era, na prática, bem inferior ao custo mencionado na sua proposta.

Então, o que é necessário ocorrer para se afirmar que houve “superfaturamento de obra pública”? Na minha opinião, é necessária a ocorrência das seguintes três condições, isolada ou simultaneamente, sendo a primeira imprescindível, caso contrário não se aplica falar em “superfaturamento de obra pública”:

a) a obra é financiada total ou parcialmente com dinheiro público;
b) o valor pago pelo contratante está acima do valor proposto ou aditivado; e
c) os valores unitários dos itens da obra estão muito acima dos valores de mercado, em situações similares.

Como disse no início deste texto, o fato da arenas serem obras únicas impede a comparação com outras obras, já que não existem situações similares. O item (c) fica, portanto, eliminado, para fundamentar “superfaturamento”.

Quanto ao item (a), três arenas são totalmente privadas (São Paulo/Corinthians, Porto Alegre/Internacional e Curitiba/Atlético). Não cabe, portanto, falar em superfaturamento nestas obras. Cabe, no máximo, questionar a aprovação do financiamento pelo BNDES.

Quatro arenas foram construídas e serão gerenciadas, em regime de PPP, com os governos de estado, como as de Belo Horizonte, Salvador, Fortaleza e Recife e duas, em regime de concessão, como a de Natal e Rio de Janeiro. Nestes casos, o item (a) está contemplado, cabendo então analisar se os custos finais estimados, e considerados para o financiamento do BNDES, são adequados ou não.

A arena de Brasília terá gestão do Governo do Distrito Federal cabendo, portanto, análise de eventual superfaturamento. Duas outras arenas serão definidas após a Copa, como as de Manaus e Cuiabá, com possibilidade de concessão. Por envolver recurso público, cabe aqui também analisar a possibilidade de superfaturamento.

Os problemas identificados pelo TCU incluem sobrepreço, falhas na elaboração dos projetos, suspeita de irregularidades nos contratos e salto no custo das obras. Num primeiro momento, o TCU detecta eventuais indícios de irregularidades e solicita informações aos gestores públicos para esclarecimento. Normalmente, nesse momento, a imprensa já afirma que há superfaturamento e não simples “indícios a serem esclarecidos”. Na grande maioria dos casos, após os esclarecimentos, o TCU se considera satisfeito e a obra prossegue. Não conheço um caso em que a imprensa tenha noticiado a não procedência de suspeita de irregularidades, previamente anunciada com estardalhaço.

Em relação às arenas da Copa 2014, até o momento, nenhuma obra foi definitivamente classificada como superfaturada, em relatório do TCU aprovado pelo Congresso Nacional, o que torna falaciosa qualquer afirmação de que houve superfaturamento!

(*) José Augusto Valente – especialista em logística e infraestrutura

Texto original: CARTA MAIOR

terça-feira, 24 de junho de 2014

5 falácias e 5 verdades sobre a Copa no Brasil

Os arautos do caos e do desconcerto na velha mídia nacional e internacional perderam o pé e estão naufragando. Mas nem por isso vão perder a esperança.

Flávio Aguiar

Com base na cobertura da velha mídia nacional e internacional podemos afirmar sem medo de que eram e são falácias:

1. Acreditar que o Brasil não tem condição para organizar eventos deste porte, porque é um país onde grassam apenas a corrupção, a violência e a incompetência. Quem acreditou nisto perdeu a aposta. E tem mais: o Brasil já ganhou prêmio da ONU pelo combate à corrupção e lidera a comissão a respeito na OCDE.

2. O Brasil é e será um país de eternos pobretões, miseráveis e favelados para sempre. O Brasil está se superando e deixando outras nações a ver poeira em matéria de combate à pobreza. No recente Congresso da Confederação Sindical Internacional, que elegeu o brasileiro João Felício (ex-presidente da CUT e da Apeoesp) como seu presidente, o pronciamento da representante da ONU a respeito foi enfática: em matéria de dminuição da pobreza o Brasil é um exemplo a ser estudado e seguido. Mas não esqueçamos: isto não deve ser motivo de desprezo em relação a outros países. Ao contrário, deve ser motivo de maior solidariedade internacional.

3. A população brasileira tornou-se contrária à realização da Copa no país. Esta é a oração mais repetida da ladainha contra o nosso país. Não é verdade. Sucessivas reportagens de outros países atestam o entusiasmo de nossa população com a Copa, além de depoimentos oriundos do Brasil também. 80% da população é a favor, indicam as últimas pesquisas.

4. O Brasil não deveria aplicar em estádios o dinheiro que deveria aplicar em educação e saúde. Não só isto não é verdade (os investimentos motivados pela Copa, inclusive nos estádios, são pequenos em relação ao que o país investe em educação e saúde), como revela má fé ou ignorância por parte de quem os manipula ou repete. Quem faz isto ou oculta ou ignora a complexidade econômica, social e cultural de um país como o Brasil. Os investimentos em infra-estrutura de mobilidade urbana, viária, ou ainda aérea geraram mais de 700 mil empregos no país. Eles deveriam ter sido feito antes – isto sim pode ser uma crítica construtiva. Mas agora saíram do papel. Graças, em parte, à Copa.

5. As vaias e os insultos do setor VIP no Itaquerão e as manifestações “Não vai ter Copa” são representativas do sentimento e mal estar geral da população. Não são. As vaias e xingamentos provocaram mais repúdio do que aplauso, inclusive por parte de gente do setor conservador e/ou que por qualquer razão não votou nem votaria na presidenta em outubro. As manifestações minguaram em frequência e em número de manifestantes e só ganham espaço na mídia devido à busca de sensacionalismo.

Vamos agora às verdades:

1. Esta pode não ser a Copa das Copas em matéria de futebol (confesso que para quem viu, a de 58 não sai das retinas), mas decididamente é a melhor Copa nestes termos nos últimos tempos. Hospedar futebol de tamanha qualidade, ofensivo, bonito e eletrizante por vezes, além de ser uma honra para um país, certamente será um incentivo para nossos jogadores – presentes e futuros – ostentarem algo parecido. Além disso é lindo ver times como os do Uruguai, da Costa Rica e de Gana fazerem das tripas coração e jogarem bonito contra equipes milionárias e tidas como imbatíveis.

2. Nosso povo está dando um show de bola em matéria de alegria, hospitalidade e esportividade. Incidentes isolados e menores não conseguem tapar esta realidade com as peneiras do descrédito e do desprezo, que insistem que as cidades brasileiros são verdadeiros faroestes de violência, desorganização, furtos, roubos e assassinatos. A Copa renderá dividendos no futuro: a grande maioria dos visitantes vai desejar voltar e conhecer o que ainda não teve oportunidade de conhecer, do Oiapoque ao Chuí e do Acre à Paraíba.

3. O nosso povo pensa com a cabeça e o coração e ama o nosso país. Estão correndo mundo cenas como a da camareira supreendida no quarto de hotel a cantar e a dançar o hino nacional que vioa e ouvia pela televisão. Também correm mundo as cenas dos estádios inteiros a cantar nosso hino com vontade e... afinação também! Nem por isto viramos nacionalistas xenófobos e que não vêem o próprio país com discernimento e também críticas. Atesta isto a rotação do nome “Não vai ter Copa”, uma ilusão deste sempre, para o de “Vai ter luta na Copa”, ou “Copa com luta”, que pode ser algo positivo e produtivo.

4. A realização da Copa está contribuindo para construir uma imagem muito positiva do Brasil e disseminando-a pelo mundo afora. Aos poucos populações de todo o mundo vão pulando por cima dos noticiários preconceituosos e exclusivamente negativos e percebendo por trás deles ou mesmo nas entrelinhas o entusiasmo com que o nosso povo recebe a Copa e seus benefícios. Comentários de leitores indignados com notícias ou artigos que torcem tudo para mostrar apenas o que é ruim – ou o que deveria ser ruim – se multiplicam.

5. Os arautos do caos e do desconcerto na velha mídia nacional e internacional perderam o pé e estão naufragando. Mas nem por isso vão perder a esperança, na expectativa de que ainda haja alguma catástrofe dentro dos campos (por exemplo, uma possível eliminação precoce do Brasil) ou fora dele: aqui serve qualquer coisa, de inundação a desastre. Afinal, velha mídia é velha mídia, e tem uma reputação a manter.

Texto original: CARTA MAIOR

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Exoesqueleto do Professor Nicolelis deu um chute no traseiro dos detratores do Brasil

De vez em quando, torcer contra o Brasil chega ao limite do ridículo e faz vítimas improváveis. O mais recente alvo dessa babaquice foi Miguel Nicolelis.

Antonio Lassance

Dizem os mais espirituosos que, no jogo de abertura da Copa, Brasil x Croácia, quando o lateral Marcelo (tricolor) viu a bola e o goleiro Júlio César (flamenguista) à sua frente, não resitiu e pensou: "quer saber, isso aqui é Fla-Flu" - e mandou a bola para dentro do gol brasileiro.

A piada é ótima porque explora o absurdo de uma situação improvável. Improvável?

Torcer contra o Brasil, por razões que vêm de outros carnavais, é algo mais comum do que se imagina.

Há, de tudo, um pouco. Comemorar o gol da Croácia é o de menos. Dizer que #NaoVaiTerCopa e queimar nossa bandeira em praça pública mostraram-se atos isolados, que acabaram surtindo efeito contrário.

Torcida do contra, para valer mesmo, foi aquela feita pelo representante oficial de um grande banco privado brasileiro, feita em Davos (Suíça) e alhures, que declarou enfaticamente torcer para que o país fosse rebaixado pelas agências de classificação de risco - aquelas mesmas que não viram o elefante na sala de estar do capitalismo na megacrise que explodiu em 2008.

De vez em quando, torcer contra o Brasil chega ao limite do ridículo e faz vítimas improváveis.

O mais recente alvo desse tipo de babaquice foi o respeitado neurocientista Miguel Nicolelis - respeitado principalmente lá fora, pois, aqui dentro, sobram detratores.

Nicolelis se apresenta nas redes sociais como cientista e "apaixonado pelo Brasil". Revela, porém, seu defeito de ser palmeirense - ainda assim, uma razão irrelevante para se torcer contra Nicolelis.

Este brasileiro de quem me ufano lidera pesquisas pioneiras que se dedicam a fazer com que pessoas que perderam seus movimentos voltem a andar, a correr, a jogar bola, a ter uma vida com menos limitações. Seu principal projeto tem um sugestivo e emocionante nome: "Andar de novo".

Sua mágica é juntar neurociência, computação e robótica. A combinação foi representada no exoesqueleto levado a campo, na abertura da Copa, para ajudar o paraplégico Juliano Pinto a dar um chute que, simbolicamente, foi o pontapé inicial de muitos avanços.

Mas nada disso mostrou-se suficiente para evitar que Nicolelis fosse alvo dos ataques dos calunistas de plantão, que o acusaram de midiático, perdulário com o dinheiro público, farsante e de criar algo que pode ter futuro uso militar - claro, como a pólvora, o avião, os alimentos enlatados, o satélite, o computador, o telefone celular.

Acredite, Nicolelis foi acusado de "nacionalista" e também de ser um novo Santos Dumont, pejorativamente, por se dizer inventor de algo já inventado - sim, há quem, por aqui, prefira acreditar na lenda de que quem inventou o avião foram os irmãos Wright, aqueles que fabricaram um planador que só decolava catapultado, que teve um voo documentado por uma foto desfocada e de escassas testemunhas. 

Até hoje, ninguém conseguiu fazer uma réplica do aeroplano dos irmãos Wright que conseguisse voar, ao contrário do voo perfeito da réplica do 14-Bis, em seu centenário (2006).

A maledicência contra Nicolelis lembra o destino de outro gigante da Ciência do Brasil, Carlos Chagas (1878-1934).

A tripanossomíase americana, popularmente conhecida como Doença de Chagas, em homenagem ao cientista, era um verdadeiro flagelo de várias regiões mais pobres de países de clima tropical.

Chagas descobriu o agente transmissor da doença, descreveu seu ambiente de propagação, seu ciclo evolutivo e, mais importante, salvou muitas vidas.

Como o professor Nicolelis, Chagas era um apaixonado pelo Brasil. Seu filho, Carlos Chagas Filho, também grande cientista, conta em seu livro de memórias que uma das mais marcantes recomendações que recebeu do pai foi a de que conhecesse o Brasil - que fosse para o interior do País, visitasse as localidades mais distantes e pobres. Isso era ciência para os Chagas.

Carlos Chagas, o pai, foi indicado ao Prêmio Nobel e sua descoberta tinha razões de sobra para que ele fosse laureado.

Curiosamente, a principal oposição à indicação de Chagas não vinha da comissão do Nobel, mas de alguns de seus compatriotas do Instituto de Patologia Experimental de Manguinhos (hoje, Fundação Oswaldo Cruz) e da Academia Nacional de Medicina.

A oposição dos "colegas", que disputavam influência no Instituto, contra o herdeiro natural de Oswaldo Cruz, ia ao ponto de se negar a existência da doença e de se levantar dúvidas sobre a seriedade do trabalho de Chagas.

Essas desavenças chegaram aos ouvidos da comissão do Nobel, que, por via das dúvidas, deixou o ano de 1921 sem a premiação da área para a qual Chagas estava indicado.

Nicolelis, com Santos Dumont e Carlos Chagas, está em boa companhia.

Ao fim e ao cabo, não só os calunistas de Nicolelis, mas a própria Fifa, que desprezou o experimento e foi uma das principais críticas da Copa do Mundo no Brasil, receberam um chute no traseiro, para usar a expressão preferida do cartola Jérôme Valcke.

Foi um chute no traseiro com estilo, VIP, dado de dentro de um exoesqueleto por alguém que quer andar de novo.

(*) Antonio Lassance é cientista político. Texto publicado originalmente no Blog da Editora Boitempo

Texto original: CARTA MAIOR

sábado, 14 de junho de 2014

Os heróis à brasileira!

Dizem que um os fatos nunca se repetem! Os fatos realmente não se repetem, mas os meios de manipulação, da Opinião Pública, sempre serão usados por quem os controla.


O Caçador de Marajás

Nas as eleições de 1999, durante a campanha para as eleições presidenciais, a mídia criou a figura do Herói Nacional Caçador de Marajás. O então governador do Estado de alagoas, Fernando Colo de Melo, foi escolhido o candidato dos grandes meios de comunicação e glorificado como herói nacional e batizado de O Caçador de Marajás. Matérias sensacionalistas, fotos estampadas nas capas da Revista Veja, aparições nos programas das TVs, principalmente nos programas jornalísticos da Rede Globo e foi vendido como a solução para os problemas da nação brasileira.

Depois se mostrou um desastre. O mais interessante é que os mesmos órgão de imprensa, que o glorificaram, foram os primeiros a colocarem como uma pessoa desonesta da pior espécie!!! Até mesmo o congresso caçou o mandato (o único deposto por um processo de impeachment no país) tentando mostrar uma seriedade que até hoje a população não viu. Claro que o Problema do Fernando Color foi bater de frente com o congresso e mandar cortar os contratos de publicidade com a Rede Globo. Deste momento em diante virou o inimigo número um da estranha “moralidade” da Rede Globo!


O Caçador de Corruptos

Estamos próximo a uma nova eleição para presidente do Brasil e a grande imprensa mais uma vez direciona seu ataque de manipulação mediática expondo o mensalão dos Petistas(chamado assim, mas tendo vários membros de outros partidos), só que são dois processo de mensalões, e tornando o juiz e relator do processo (na realidade ele foi relator dos dois processos) em uma espécie de Herói Justiceiro e Caçador de Corruptos e segundo a Revista Veja é o Menino pobre que mudou o Brasil! Estranhamente, a grande maioria das pessoas julgam e estão contentes achando que se caçou os corruptos do mensalão. Como a imprensa só expõe a público de maneira continua e constante somente o mensalão petista, as pessoas não se dão conta que foram dois processo com as mesmas acusações, muitos dos acusados aparecem nos dois processos e o mesmo relator (Ministro Joaquim Barbosa). O relator pediu e condenou todos do Mensalão Petista e o Mensalão Tucano, que a população não viu na mídia, acha que não existiu. O Mensalão Tucano (que a Globo insiste de chamar de Mensalão Mineiro), foi desmembrado ( fatiado) e mandado para primeira instância. Dois processo idênticos julgados de maneira diferentes!!!!

Joaquim Barbosa foi condecorado
com a  Ordem Tiradentes por um
dos acusados no Mensalão Tucano.
Como todo processo tem um prazo para ser julgado e passado esse prazo os acusados são inocentados pelo motivo do processo prescrever, o Herói Justiceiro e Caçador de Corruptos conseguiu com que os mensaleiros tucanos ( todos do PSDB) ficasse livres e inocentados da acusação!




A manipulação


Estranhamente o Justiceiro sempre
aparece de braços dados com Tucanos
O processo batizado de Mensalão Mineiro (o povo mineiro não merece) foi aberto primeiro, mas estranhamente foi julgado depois. O então Presidente do Supremo, Carlos Ayres Brito, mudou a ordem de julgamento sem nenhuma justificativa! Desde então (2005) só aparece nos meios de comunicação o Mensalão petistas e o Mensalão Tucano sumiu dos jornais da Rede Globo, Revista Veja e cia!

O poder de manipulação, de guiar o pensamento, da população, por intermédio da imprensa, é tão grande que as pessoas criticam e condenam como se fossem um único processo dos mensaleiros e nunca tivesse existido o mensalão Tucano! Muitos estão glorificando o Joaquim Barbosa como um homem honesto que faz justiça (justiceiro). Só que olhando bem, esse justiceiro é muito seletivo, condenou os envolvidos em um mensalão e os outros, do Mensalão Tucano,  ele criou meios para que ficassem sem serem julgados e condenados!!!!

O então presdiente (Joaquim Barbosa) do STF (Supremo Tribunal Federal),
órgão responsável de fazer que seja cumprido o que está escrito na nossa
Constituição Federal!!!