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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

“Delação premiada” na Conjuração Baiana de 1798

27 OUTUBRO 2016



Por Emiliano José e Patrícia Valim

A Conjuração Baiana de 1798, um dos episódios mais importantes de nossa história, pode iluminar o presente, como sempre o passado faz. O setor dominante local, que participou da primeira fase do movimento, diante da descoberta da revolta, soube dar um duplo twist carpado nos setores médio e baixo daquela sociedade e, para não ser incriminado por crime de sedição, passou a colaborar com as investigações: formularam as principais denúncias, ajudaram a premiar os delatores e entregaram seus escravos à Justiça.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O servidor público, entre a vida e a greve

por Justificando — publicado 28/10/2016 09h40, última modificação 28/10/2016 09h41


Na prática, o Supremo cassou o direito de paralisação dos servidores, deixando o País mais longe do projeto erguido em 1988

Carmen Lúcia, a nova presidente do STF: Supremo decidiu contra os servidores

Por Eloísa Machado de Almeida 

O Supremo Tribunal Federal, por maioria, decidiu que servidor público deve escolher entre a vida e a greve. Isso mesmo. Apesar de ser um direito constitucional de primeira grandeza, daqueles que faziam a Constituição brasileira ser reconhecida e festejada mundo afora, a greve deixou de existir.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Massacre do Carandiru e a "legítima defesa"

Por Leonardo Sakamoto, em seublog:

O Massacre do Carandiru, quando 111 presos foram executados por forças policiais que invadiram o Pavilhão 9 da então Casa de Detenção de São Paulo, completa, no próximo dia 2 de outubro, 24 anos. Durante os julgamentos, eu havia escrito aqui que a Justiça estava sendo – mesmo que parcialmente e temporariamente – feita.Mas, nesta terça (27), a 4ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo anulou os julgamentos que condenaram 74 policiais militares pelo massacre.

Ou seja, voltamos à situação ''normal'' de impunidade policial. Ufa! Eu estava estranhando. Afinal de contas, estamos no Brasil.

sábado, 17 de setembro de 2016

O BRASIL E O PERIGOSO JOGO DA HISTÓRIA.


RBA - (Versão estendida, sem redução para versão impressa) - Embora muita gente não o veja assim, o afastamento definitivo de Dilma Roussef da Presidência da República, em votação do Senado, por 61 a 20 votos, no final de agosto, é apenas mais uma etapa de um processo e de um embate muito mais sofisticado e complexo, em que está em jogo o controle do país nos próximos anos. 

Desde que chegou ao poder, em 2003, o PT conseguiu a extraordinária proeza de fazer tudo errado, fazendo, ao mesmo tempo, paradoxalmente, quase tudo certo.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Os golpes de Estado de ontem e de hoje

Estabelecer sistemas fundados na economia de mercado, potencializar a doutrina neoliberal e não perder o trem da globalização passaram a ser o novo dogma.

Marcos Roitman Rosenmann - La Jornada, México

Podemos dizer, com certeza, que o ciclo de golpes de Estado na América Latina não foi encerrado. Com o fim da Guerra Fria, surgiu uma ilusão política que tentou impor a ideia de começo de uma nova etapa. No horizonte, se contemplava um futuro de paz, estabilidade política e crescimento econômico. O comunismo havia caído em desgraça e o dispositivo para combatê-lo, que eram os golpes de Estado, perdiam legitimidade.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Desemprego e crise social

A redução do desemprego depende da retomada da atividade mais geral da economia. E políticas públicas como o auxílio desemprego devem ser fortalecidos.

Paulo Kliass *

O IBGE acaba de divulgar as informações mais recentes a respeito do desemprego em nosso País. No dia 30 de agosto a fundação pública vinculada ao Ministério do Planejamento tornou público o resultado da Pesquisa PNAD Contínua com dados do último trimestre. 

A taxa oficial medida pelo IBGE para o período maio/junho/julho registra uma taxa de desocupação média nacional de 11,6%. Trata-se do mais elevado índice desde que uma nova metodologia foi incorporada no levantamento dos dados, em substituição à anterior Pesquisa Mensal do Emprego (PME). Esse número frio ganha mais significado quando se sabe que ele corresponde a um contingente de 11,8 milhões de pessoas que não estão com nenhuma fonte de remuneração associada a trabalho. Caso multipliquemos o número pelos dependentes familiares, teremos a noção mais aproximada do drama social em que o Brasil está mergulhando a cada dia que passa.

sábado, 6 de agosto de 2016

A LAVA-JATO E O VICE-ALMIRANTE.


Em uma sentença que chama a atenção pela severidade e a ausência de proporcionalidade, o ex-presidente da Eletronuclear, Othon Luiz Pinheiro da Silva, foi condenado, ontem, por um juiz do Rio de Janeiro - com uma decisão que atingiu também a sua filha - a 43 anos de prisão por crimes supostamente cometidos durante as obras da usina nuclear de Angra 3.

O vice-almirante Othon é um dos maiores cientistas brasileiros, um dos principais responsáveis pelo programa de enriquecimento de urânio da Marinha, que levou o Brasil, há 15 dias, a fazer a sua primeira venda desse elemento químico - usado como combustível para reatores nucleares - para o exterior, para uma empresa pertencente ao governo argentino.
Em qualquer nação do mundo, principalmente nos EUA - país que, justamente por ser brasileiro, e não norte-americano, o teria espionado,

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Os "coxinhas" e as demissões no Judiciário

Por Altamiro Borges


Segundo vários relatos da mídia, as marchas golpistas pelo "Fora Dilma" sempre tiveram a expressiva presença dos servidores do Poder Judiciário. Muitos trajavam camisetas e carregavam cartazes com mensagens de apoio ao "justiceiro" Sérgio Moro e à sua midiática Operação Lava-Jato. Eles também revelavam insatisfação com as medidas de ajuste fiscal do governo Dilma. Agora, porém, diante das notícias sobre os planos da equipe econômica do Judas Michel Temer, muitos já devem ter percebido que serviram de massa de manobra para o "golpe dos corruptos" que vai arrochar

quarta-feira, 27 de julho de 2016

A moderna economia brasileira!

Os economistas sonham, em seus cálculos, uma produção voltada para custo zero. Tentam a todo custo controlar o Estado e suas leis para conseguirem produtos e mão-de-obra com custos mais baixos. Claro que falam isso dizendo que se trata de modernizar a economia e para tanto tentam fazer com que a carga horária seja o maior possível, retirada de direitos trabalhistas e com o salário menor possível para produzir um lucro cada vez maior.

Atualmente, os economistas argumentam que para melhorar a economia é necessário aumentar a carga horária de trabalho (isso visando aumentar o lucro das empresas), retirar direitos trabalhistas alegando que irá criar condições para contratar mais pessoas. Segundo notícias na grande imprensa, aumentando o lucro e retirando custos trabalhistas a empresas irá ter mais lucro e poderá contratar mais.

As contradições começam logo com a história do aumento de carga horária de trabalho! Com o aumento da carga horária de trabalho irá precisar de menos mão de obra e isso deixa evidente que a preocupação é aumentar somente os lucros e retirar direito trabalhistas, alegando que irá facilitar contratar mais pessoas, é apenas mais uma maneira de aumentar os lucros baixando os custos de produção. Retirando direitos trabalhistas os trabalhadores terão menos dinheiro para consumo e o consumo caindo o comércio será obrigado a diminuir o número de empregados e isso provocará um efeito cascata que irá gerar maior desemprego.

Olhando para o passado, na época da colonização e do império, tivemos essa tal economia moderna atual em duas situações: no período da escravidão e logo depois sendo substituído pela mão de obra das imigrações italianas, alemãs e japonesas.

A mão de obra escrava

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Escravos americanos do sul
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Escravo africano
No período da escravidão, os trabalhadores (maioria esmagadora de escravos) não existiam a preocupação de salários com os índios e negros, já que eram considerados

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Escola sem partido é golpe na escola, é o fim da educação livre, plural e democrática!

Com argumentos extremamente desqualificados, mentirosos e perversos, este projeto é um dos maiores retrocessos que o país já vivenciou.

Paulo Pimenta*


Sem dúvida, uma escola sem pluralidade, sem liberdade, sem diversidade, sem inclusão, sem democracia é a escola do pensamento único, da segregação, da discriminação e da repressão. Esse modelo de escola é marca característica de regimes autoritários, de uma sociedade que se assenta sob um sistema de desigualdade e de exclusão e que não permite a educação como prática transformadora que consolide ideais democráticos de igualdade e valorização das diferenças.

Esse é o modelo educacional do qual temos nos distanciado desde o fim da ditadura militar no Brasil (1964-1985), por meio de um percurso que se efetiva com a

sábado, 9 de julho de 2016

O 'Deus Mercado' e a religião capitalista, segundo Jung Mo Sung

Segundo especialista, a narrativa religiosa do neoliberalismo coloca a fé no Mercado como única possibilidade de salvação e culpa os pobres por sua pobreza

Tatiana Carlotti


Os aspectos religiosos do neoliberalismo e o proselitismo na comunicação foram temas debatidos pelos professores da Universidade Metodista, Jung Mo Sung (Ciências da Religião) e Magali Cunha (Comunicação). Eles participaram do seminário “A Metafísica do Neoliberalismo e a Crise de Valores no Mundo”, promovido pelo Fórum 21, no último dia 2 de julho (sábado), no auditório da Fundação Escola de Sociologia e Política (FESP).

O evento é o primeiro de uma série de debates voltada à discussão do neoliberalismo hoje. A escolha do tema, explica Anivaldo Padilha, presidente do Fórum 21, deve-se ao caráter

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Em defesa da liberdade de expressão em sala de aula

A escola democrática encontra-se sob múltiplos ataques. Um dos mais graves é o Programa Escola Sem Partido.

Fernando de Araujo Penna

Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. (Constituição Federal de 1988)

A escola democrática encontra-se sob múltiplos ataques. Um dos mais graves é o Programa Escola Sem Partido, que o PL 867/2015 pretende incluir entre a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Este projeto sintetiza as propostas do movimento homônimo, que defende que professores não são educadores, mas apenas instrutores que devem limitar-se a transmitir a “matéria objeto da disciplina” sem discutir valores e a realidade do aluno. Ainda segundo eles, a escola

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Lei Rouanet e os segredos da Globo

Por Altamiro Borges

Em mais uma operação cinematográfica, batizada de “Boca Livre”, a Polícia Federal prendeu 14 pessoas na manhã desta terça-feira (28) acusadas de desvio de recursos públicos através das isenções fiscais previstas na Lei Rouanet. Segundo as investigações, o grupo mafioso atuou por quase 20 anos no Ministério da Cultura e conseguiu aprovar R$ 180 milhões em projetos “culturais”. O desvio ocorria por meio de diversas fraudes, como superfaturamento, apresentação de notas fiscais relativas a serviços e produtos fictícios, projetos duplicados e contrapartidas ilícitas feitas às incentivadoras. Entre os presos na Superintendência da PF em São Paulo, estão os donos da produtora Bellini Cultural e o agente cultural Fábio Ralston.

Segundo relato do portal G1, do suspeitíssimo Grupo Globo, “a Polícia Federal concluiu que diversos projetos de teatro itinerante voltados para crianças e adolescentes carentes deixaram de ser executados, assim como livros deixaram de ser doados a escolas e bibliotecas públicas. Os suspeitos usaram o dinheiro público para fazer shows com artistas famosos em festas privadas para grandes empresas, livros institucionais e até a festa de casamento de um dos investigados na Praia de Jurerê Internacional, em Florianópolis. Além das 14 prisões temporárias, 124 policiais

sábado, 12 de março de 2016

As veias abertas da América Latina continuam sangrando

Um pesquisador que indagasse a um brasileiro...

Um pesquisador que indagasse a um brasileiro sobre qual lugar jamais visitaria, ele certamente citaria um país do mundo árabe, aquela região conflituosa localizada entre o centro-oeste asiático e o centro-norte africano. Síria, Iraque, Afeganistão, Somália, Sudão, Nigéria? Jamais, por causa da violência.

De fato, esses países estão entre os mais violentos, em termos proporcionais. Em termos absolutos, o país mais violento do mundo é o Brasil, com 56 mil assassinatos por ano, 154 vítimas de crimes por dia. Mata-se mais por aqui do que nas maiores zonas de guerra do mundo.

E a violência endêmica no Brasil não está restrita às suas fronteiras. Muito pelo contrário. A América Latina é hoje o “continente” onde a vida vale menos e a taxa de homicídio per capita é a mais alta: com 9% da população, tem 30% dos homicídios do mundo.

Das 50 cidades mais violentas do planeta, 42 estão em países da América Latina e Caribe, incluindo as 21 cidades do Brasil que aparecem no levantamento do Conselho de Segurança Pública dos Cidadãos do México. E para reforçar a certeza de que o continente americano é o lugar do mundo mais perigoso para se viver, quatro estão nos Estados Unidos. As outras quatro cidades mais violentas fora da região são da África do Sul.

A decadente Venezuela possui oito cidades nesse macabro ranking, três entre as dez primeiras, sendo que a capital Caracas é hoje a cidade mais violenta do mundo, com inacreditáveis 120 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes. O conflituoso México tem cinco cidades na lista e a bela Acapulco é a mais violenta delas, aparecendo em quarto lugar no ranking, com 105 assassinatos.

Em momentos distintos, as cidades mais violentas do Brasil já foram Rio e Maceió. Agora são Fortaleza, Natal e Salvador, com quase 61 assassinatos/100 mil habitantes. Estão nas posições 12 a 14 do ranking, mesma lista onde Aracaju aparece em 38° lugar, com média de 38 assassinatos.

A Organização Mundial da Saúde informa que a violência na América Latina é uma epidemia e como tal precisa ser tratada. De acordo com a definição de epidemia que tem a OMS, uma taxa acima dos 10% no caso da violência, é epidêmica. E a maioria dos países na América Latina tem taxas muito superiores a isso. Então, sim, é uma epidemia — diz o médico epidemiologista colombiano Andrés Villaveces, consultor do Banco Mundial para área de desenvolvimento social na prevenção da violência e seguridade, em entrevista ao espanhol El País.

Não há um remédio capaz de curar o mal, mas ações, em nível individual, familiar, escolar, comunitário, em nível municipal, estadual e nacional, que podem ser implementados e que são complementares.

A lei que restringe o porte de armas ou o acesso às armas de fogo é um exemplo eficiente. O mesmo acontece com o álcool. “A restrição ao álcool é ainda mais eficiente na redução de homicídios: até 25% menos assassinatos com uma redução de algumas horas de acesso ao álcool em algumas cidades”, exemplifica o especialista.

Combater a violência doméstica e o abuso infantil, também são ações eficazes, assim como incentivar que as escolas sejam ambientes mais produtivos e criativos.

Quanto à repressão policial, Andrés Villaveces observa que as atividades de controle são necessárias e importantes, mas não são as únicas e nem as melhores. “A melhor estratégia realmente, do ponto de vista econômico e do benefício social, é a prevenção. Todos estes eventos violentos produzem uma série de sequelas, criando um efeito cascata que prejudica o indivíduo e suas famílias e terminam sendo afetadas do ponto de vista social e econômico”.

Quanto aos jovens, especialmente os rapazes, que são os que mais cometem atos violentos e são as principais vítimas dos atos violentos, esses merecem mais atenção do Estado e da sociedade. Trabalhando com jovens são maiores as oportunidades de corrigir o problema e de preveni-lo a longo prazo do que quando se trabalha com pessoas em idade adulta que já aprenderam condutas violentas.

“Quanto mais cedo for a intervenção na população juvenil, melhores efeitos a longo prazo teremos. Podíamos somar a isso um terceiro elemento: é que os jovens são as pessoas que possuem melhor capacidade de produzir economicamente para suas famílias. Se são as pessoas mais afetadas pela violência, porque sofrem lesões para toda a vida ou porque falecem, para suas famílias isso vai representar um problema econômico muito severo que leva a uma espiral de pobreza. Por isso, nós queremos trabalhar para prevenir que isso ocorra”, diz o médico, acrescentando que isso, “naturalmente”, precisa ser complementado com maior acesso ao emprego e à educação.

Mas como aplicar esse coquetel de remédios num lugar como o Brasil, identificado pela Anistia Internacional como um país, além de extremamente violento, com “graves violações dos direitos humanos”?

A entidade destaca dez violações dos direitos humanos no país. São elas: número de mortes, repressão a protestos, violência policial, condições carcerárias, tortura e maus-tratos, impunidade dos crimes do governo militar, direitos dos povos indígenas, direitos LGBT, criminalização do aborto e comércio de armas.

Ressalta também que as polícias brasileiras ainda não estão preparadas para assegurar os direitos à liberdade de expressão e à manifestação pacífica, e que a sua lógica militarizada contribui para manter os altos índices de mortes violentas.

Além de jovens pobres do sexo masculino, as principais vítimas são os negros. É o retrato em preto, branco e vermelho do preconceito arraigado na nossa sociedade patriarcal, patrimonialista e elitista, que odeia programas governamentais que beneficiem os pobres, porque acha que para eles não há remédio, quando ela é que parece não ter cura.

A miséria da América Latina, se hoje é menos debitada aos países exploradores, agora está na conta do capital especulativo abutre, que faz um bilionário do dia para a noite à custa da desgraça de milhões de seres humanos, e da insensível elite local, que prefere apostar na demofobia e no preconceito a buscar investir na solução de um problema que acredita cegamente nunca a afetar.

Texto original : MARCOS CARDOSO 

sexta-feira, 4 de março de 2016

A micropolítica da Agricultura Urbana e as grandes transformações coletivas

A rápida urbanização pela qual passamos nos fez desaprender sobre os ciclos da natureza e enxergá-la como algo estranho ao nosso cotidiano.

Lya Porto, Gustavo Nagib, Giulia Giacchè - Membros do Grupo de Estudos em Agricultura Urbana (GEAU)


Vivemos uma era de transformação, onde podemos encontrar ações e visões completamente opostas em espaços comuns: competição e cooperação, criação de hortas comunitárias e demandas por mais concreto na cidade, meditações coletivas e aumento do consumo de antidepressivos, explosão da culinária natural e dos fast foods. Nosso velho sistema econômico está na UTI e levou junto com ele os recursos naturais de nosso planeta Terra. Mas, afinal, quais são as resistências para transformar os nossos modos de vida que não deram certo?

É interessante observar que as dinâmicas da micropolítica têm muito a nos dizer sobre as lógicas dos níveis meso e macro do nosso sistema econômico, político e social. Um exemplo são os conflitos que ocorreram no espaço É Hora da Horta, no bairro da Casa Verde (zona norte), na cidade de São Paulo – espaço de trabalho com o cultivo de alimentos orgânicos em um terreno da Eletropaulo desde agosto de 2014.

A horta é cuidada diariamente por três agricultores e há mais de 50 espécies comestíveis, entre frutas, legumes, verduras, ervas medicinais e Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC). Além do cuidado com o cultivo de alimentos, há uma fiscalização constante para que não haja água parada com o objetivo de evitar a proliferação do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, do zika e da chikungunya.

Frequentada por pessoas do bairro e de outras regiões de São Paulo, há sete casas ao redor da horta e as atividades de agricultura passaram a incomodar alguns vizinhos. No final do ano passado, alguns deles fizeram uma denúncia contra a horta alegando que há falta de limpeza e risco de proliferação do mosquito transmissor da dengue. A Subprefeitura da Casa Verde, por sua vez, traduziu essa denúncia em uma multa de R$ 15 mil e enviou um fiscal no local pedindo para que uma das agricultoras retirasse todas as PANC.

Tendo em vista o ocorrido, nos perguntamos: quais são os sentidos envolvidos na ideia de falta de limpeza e risco de contaminação de dengue para os vizinhos e para os fiscais e técnicos da subprefeitura? Espinafre silvestre, ora pro nobis, beldroega, batata doce, trapoeraba, rúcula silvestre, feijão orelha de frade, vinagreira, amaranthus, bertalha, salsinha silvestre. Todas essas espécies são plantas alimentícias que se desenvolvem espontaneamente e se estabelecem no imaginário de algumas pessoas como ideias relacionadas à sujeira e doença.

Curiosamente, o próprio município assegura (e deveria promover) a Agricultura Urbana e Periurbana Agroecológica, conforme estabelecido na Lei no 13.727/04, regulamentada por meio do Decreto 51.801/10. Com base nessas regulamentações é papel da prefeitura promover o cultivo da diversidade das espécies, considerando que os fundamentos das práticas agrícolas de base ecológica são, entre outras, a agrobiodiversidade.

Depois do ocorrido, ao acionar a Coordenadoria de Segurança Alimentar e Nutricional do município, a coordenação do programa entrou em contato com a subprefeitura para esclarecer que não havia irregularidade nas atividades da horta. Ainda assim, esse fato demonstra que há despreparo para lidar com o Programa de Agricultura Urbana e Periurbana (PROAURP) no nível local.

O que há de errado nisso?

Por que chegamos ao ponto de plantas alimentícias serem consideradas perigosas e daninhas? Qual seria o sentido envolvido entre os vizinhos que se satisfazem em fazer denúncias e buscar culpados? E fiscais do poder público que se sentem úteis em prescrever multas e punir cidadãos? Por que não conseguimos sedimentar transformações no nosso sistema político, social e econômico?

A rápida e excessiva urbanização pela qual passamos no Brasil, especialmente em São Paulo, nos fez desaprender sobre os ciclos da natureza e nos colocou em uma situação de estranhamento a ela, como se não fizéssemos mais parte de um sistema integrado. Passamos a ter certa aversão do contato direto com a terra e considerar este envolvimento sinônimo de sujeira e promotor de possíveis doenças. Além de ser uma visão equivocada, este comportamento pode impossibilitar o tratamento dos problemas urbanos com iniciativas mais criativas e menos dependentes de produtos industriais que comprometem em larga escala não só o meio ambiente, mas a saúde humana.

O desafio de controlar o mosquito Aedes aegypti está diretamente associado à nossa péssima relação com as águas urbanas. O aterramento de rios e córregos da cidade de São Paulo transformou-se em dutos subterrâneos coletores e transportadores de esgoto. Além da falta de saneamento básico, que tornou os principais rios metropolitanos absurdamente poluídos e contaminados – hoje, o Tietê, o Pinheiros e o Tamanduateí são rios “mortos” na cidade de São Paulo. Essas são as causas reais da insalubridade do meio urbano e da propagação de doenças em escala tão alarmante.

Há um distanciamento e rechaço das pessoas em relação à natureza e esse posicionamento é refletido e reforçado pelas ações públicas.

Sucessivas gestões governamentais de diversos níveis federativos continuam sendo permissivas para a não preservação de áreas verdes e de mananciais, como é o caso da liberação de construção no Parque dos Búfalos, localizado em área particular. Nesse caso, tanto o governo federal, quanto o estadual e o municipal flexibilizam essas construções através de ações conjuntas.

A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB), órgão estadual, concede licenciamento para construção nessa área de preservação e o município de São Paulo segue mantendo a lógica de leis antigas sob nova roupagem, restringindo construção em áreas de preservação apenas para propriedades públicas e não para propriedades particulares.

Assim, embora a atitude dos vizinhos denunciarem uma horta alegando que o plantio de alimentos significa falta de limpeza não pareça ter alguma relação com a diminuição dos espaços verdes da nossa cidade, há uma forte relação entre as mesmas. É o distanciamento cada vez maior das pessoas e da natureza que gera doença, depressão, falta de sentido na vida, competição e consumo como fuga de um grande vazio. O vazio do distanciamento da essência de cada um de nós que está assassinando os recursos naturais do nosso planeta.

Nesse contexto, as hortas comunitárias se apresentam como solução a nível micro para despertarem a consciência ambiental e resgatarem o contato das pessoas com a natureza, que pode ter efeitos progressivos. As hortas urbanas não apenas nos indicam outro caminho para melhor gerir e cuidar das nossas cidades de maneira mais participativa, democrática e ambientalmente sustentável, como nos ensinam a controlar doenças na vida cotidiana.

O cultivo consciente de PANC (verdadeiros “matos de comer”) e o manejo responsável da água, que vêm sendo realizado nas hortas comunitárias de São Paulo, são exemplos desta ampliação de consciência cidadã. Por meio de uma nova forma de se relacionar com as pessoas e com a natureza, podemos transformar nossos hábitos, nossas cidades e nosso planeta.

Texto original: CARTA MAIOR

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O jornalismo cínico e o ponto de não-retorno

O Jornalismo tentou se afirmar como espaço de informação e conhecimento, mas passou a ser um subproduto dentro dos conglomerados midiáticos.



Francisco José Castilhos Karam - Observatório da Imprensa

Em 1988, o psicanalista Jurandir Freire Costa alertava que a sociedade brasileira poderia estar chegando a um perigoso ponto de não-retorno. Ela estaria incorporando quatro valores: cinismo, narcisismo, violência e delinquência. À época, seus estudos tinham como referência, entre outros, as ideias de Peter Sloterdijk. O filósofo alemão havia escrito, desde a década de 1970, artigos sobre o cinismo. Suas ideias culminariam no clássico livro “Crítica da razão cínica”, publicado na Alemanha no início dos anos 80, com grande repercussão naquele País e Europa em geral. Mais tarde, além de outros idiomas, foi traduzido para o espanhol (1989) e para o português (2012). Nele, o autor aborda o crescimento do cinismo em escala institucional e pessoal na contemporaneidade. Para Sloterdijk, sob a capa das instituições e grupos, e em contrapartida com discursos de interesse público, crescem os componentes cínicos que se amparam em interesses privados.

Sloterdijk era cético com o destino das instituições. Em relação à mídia, considera viver num mundo aparentemente “superinformado” e, no entanto, de notícias “hipertrofiadas”. Estudioso do cinismo que se agigantava, o autor alemão era descrente em relação às potencialidades midiáticas tradicionais para a democracia. E, por extensão, do jornalismo com sua volumosa informação, que para ele era cada vez mais um espaço de mediação pública de interesses privados. E com a colaboração crescente de jornalistas que incorporam tal “valor”, de forma ingênua ou não, conscientemente ou não…

Já o ponto de não-retorno de Freire Costa atingiria diversas instituições e o comportamento individual. Segundo o psicanalista, a cultura do cinismo deriva da cultura narcísica e “se não há como recorrer a regras supraindividuais, historicamente estabelecidas pela negociação e pelo consenso, para dirimir direitos e deveres privados, tudo passa a ser uma questão de força, de deliberação ou de decisão, em função de interesses particulares. Donde o recurso sistemático à violência, à delinquência, à mentira, à escroqueria, ao banditismo ‘legalizado’ e à demissão de responsabilidade, que caracterizam a ‘cultura cíniconarcísica’ dos dias de hoje” (Costa: 1989, p. 30-31).

O que o Jornalismo tem a ver com isso?

O Jornalismo tentou se afirmar, nos últimos 300 anos, como espaço de informação, conhecimento e esclarecimento sociais, baseado na crença de que tem legitimidade social para isso e fundamentado na credibilidade das informações que por ele circulam. Desde a década de 1970 passou a ser quase um subproduto dentro dos conglomerados midiáticos, em que cada vez mais sócios de empresas de fora da mídia atuam dentro dele, a ponto de não se saber quem investe em quem: se acionistas investem na produção informativa e interferem na adequação a seus interesses; se empresários da mídia e do jornalismo investem em empresas de fora da área para fortalecer interesses particulares que não estão mais no próprio modelo de negócios; ou, afinal, se são um só faz muito tempo e hoje as coisas ficaram apenas mais claras, mais descaradas…

O que vem acontecendo, de forma reiterada, é de uma desfaçatez enorme diante da ideia de esclarecimento público e da defesa de que o jornalismo é o porta-voz da controvérsia e, portanto, a liberdade de expressão é sagrada, bandeira não só dos profissionais – a maioria honestos -, mas também de empresários – a maioria envolvida em sonegação de impostos, achaque dos cofres públicos e política de demissões e rotatividade sem qualquer piedade, embora sempre defendam o jornalismo, em quaisquer circunstâncias oficiais, como vinculado ao interesse público, à informação de qualidade, à fidelidade sobre a história do cotidiano.

Talvez por isso que Sloterdijk tenha escrito que “cinicamente dispostas estão estas épocas de gestos vazios e de fraseologia refinadamente tramada, em que sob cada palavra oficial se ocultam reservas privadas” (1989: v. II, p. 209);

O cinismo e o narcisismo tem se configurado em diversas coberturas, opiniões, comentários e tratamentos dos fatos, apesar de vários profissionais darem o melhor de si para a profissão e a sociedade em muitas matérias, em variadas notícias e reportagens. E sejam honestos em comentários. No entanto, isso parece ser cada vez mais exceção na grande empresa jornalística. O processo que engole e ameaça jornalistas é dilacerante para a profissão e presume que o jornalismo, para sobreviver com o melhor que conseguiu nos últimos séculos, estaria fora do modelo de negócios tradicional, este hoje e de forma inexorável muito mais pautado pelos critérios de audiência do que por relevância temática social. E acentua de forma descarada esta vertente a cada dia…

Rapidamente, três exemplos:
  1. Na semana de 25 a 29 de janeiro, o Jornal Nacional exibiu série de reportagens sobre os problemas da saúde no Brasil, focando, claro, no setor público, tratando do SUS, dos hospitais públicos… O JN esmerou-se em retratar as mazelas pelas quais passa o povo brasileiro em atendimento médico e em tratamento de doenças como câncer e várias outras: filas, espera, mau atendimento, falta de estrutura e tantos outros problemas foram apontados. Isso para o tratamento público e gratuito. Situações reais. Mas durante muito tempo, e hoje, todo o jornalismo da Rede Globo, e especialmente o JN, fez campanha aberta pela redução dos gastos públicos, pelo enxugamento da máquina pública. Depois de intensa e sistemática campanha ao longo de anos, mobilizando a sociedade para cortes em todas as áreas do Estado, há um claro cinismo – e responsabilidade – quando falta dinheiro para qualquer área social, incluindo a saúde. Além disso, o JN esquece de dizer que uma parte da estrutura e do dinheiro que falta é responsabilidade da própria emissora e do grupo que representa, sonegador de impostos e com dívidas que ultrapassam a casa do bilhão de reais com a União. Se a dívida fosse paga, certamente seria de muita valia para o uso na área da saúde, como de resto tem sido o atendimento feito, se não perfeito, em geral bem razoável, por exemplo, pelos postos de saúde, hospitais públicos e o setor em geral e que tem logrado salvar muita gente. E ainda mais quando o próprio grupo do qual faz parte o JN esperneia quando o governo ameaça cortar gastos de publicidade, bilionário ao longo dos anos. É o cinismo que beira à delinquência jornalística, à escroqueria: o grupo Globo recebeu do Estado brasileiro – ou seja, “saiu do meu bolso, do seu bolso, da saúde” – mais de seis bilhões de reais nos últimos 12 anos;
  2. Na edição de 30/01/2016, a Folha de S. Paulo traz matéria, quase humorística, assinada por Flávio Ferreira. Em editoria específica de “brasil em crise” (em minúsculo mesmo), o critério de noticiabilidade utilizado pela Folha colocou, no primeiro plano e em tom acusatório, a sensacional informação de que “Mulher de Lula adquiriu barco para sítio”. Um barco que não chega a cinco mil reais; uma propriedade que não se compara em valor às de Aécio Neves, Fernando Henrique Cardoso e a de tantos outros ex-presidentes, parlamentares, mulheres de parlamentares e de presidentes. E que jamais foi notícia. Trata-se de uma peça jornalística que beira à delinquência e ao cinismo, feita a mando talvez para tentar corrigir os continuados dados equivocados sobre o triplex de Lula, sobre os imóveis e negócios comprados sem prova alguma por filho de Lula (Havan, entre eles), pelos “ilícitos” nunca provados feitos pelo ex-presidente, que além de não serem ilegais, muitas vezes foram feitos à luz do dia e em função de parcerias de governo, seja com Estados Unidos ou Cuba, conforme deve ser em qualquer relação comercial entre dois países. Suspeitas, sempre suspeitas, e mais suspeitas… Se houvesse provas já haveria faz muito tempo. O mesmo ocorreu quando parte do jornalismo brasileiro insistia em atacar Leonel Brizola sem nunca provar nada;
  3. É quase autoexplicativa a seleção feita pelo site/blog Mídia Independente Coletiva, feita a partir do site do G1 (Rede Globo) e como este trata determinados assuntos. É exemplar e pedagógica. O cinismo bate à porta e ocupa o posto do jornalismo:
O crescente número de agressões e processos contra profissionais e empresas está num quadro de perda de legitimidade e de credibilidade, valores que precisam ser arduamente recuperados. No entanto, na lógica empresarial em que se move o jornalismo tradicional, e na submissão de grande parte de seus profissionais em questões-chave de economia e de política, está cada vez mais distante o reconhecimento público à atividade e o respeito a uma profissão que lutou muito, por suas entidades, para adquirir um estatuto profissional específico e uma moral ancorada no interesse público, coisa que ainda as escolas estão a propor e a realizar. Mas que encontra cada vez mais espaço fora do jornalismo de referência histórica e encontra mais possibilidades dentro de modelos alternativos que surgem, dentro ou fora das redes sociais. Parece ser um caminho para continuar chamando Jornalismo de Jornalismo, driblando os quatro vértices elencados por Freire Costa: cinismo, narcisismo, violência e delinquência. Quem sabe assim o jornalismo, sobretudo o tradicional, escape do que inevitavelmente tem sido a sua marca atual: o perigoso ponto de não-retorno. Ali onde o pêndulo da dialética que sempre marcou a sua história – entre o capital/interesse privado versus interesse público – tem pendido sempre para o lado do primeiro. Pelo menos corresponderia em parte ao que se propôs historicamente.

Referências

COSTA, Jurandir Freire. Psicanálise e Moral. São Paulo: Educ, 1989.

SLOTERDIJK, Peter. Crítica de la razón cínica. Madrid: Taurus, 1989, 2v.

Texto original: CARTA MAIOR

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Bem-vindos ao Antropoceno: É o capitalismo, estúpido!

The Economist

Em editorial publicado na sua última edição, a prestigiosa revista liberal britânica The Economist adverte sobre as profundas mudanças que o homem vem provocando no meio ambiente nas últimas décadas. A taxa de extinção hoje, adverte o texto, é bem mais rápida que durante períodos geológicos normais. Estamos vivendo uma era de maior instabilidade. O curioso no texto é que ele não menciona única vez o termo 'capitalismo' ao longo das 1.105 palavras do ensaio sobre a transformação do planeta sob a influência humana. 

No entanto, toca em vários pontos assustadores intrínsecos à dinâmica do dito sistema. De modo que, implicitamente, mesmo sem querer, comete uma estrondosa denúncia do modo de produção do qual é porta-voz. Um título alternativo para o referido editorial poderia ser: "É o capitalismo, estúpido!"

Publicamos a seguir a íntegra do editorial, publicado originalmente em português no Vi o Mundo:


Bem-vindos ao Antropoceno

A Terra é uma coisa grande: se fosse dividida de forma equânime por todos os 7 bilhões de habitantes, cada um ficaria com quase um trilhão de toneladas. Pensar que o funcionamento de um ente tão vasto poderia ser mudado de forma duradoura por uma espécie que tem corrido pela superfície dele por menos de 1% de 1% de sua história parece, considerando apenas isso, absurdo. Mas não é. Os humanos se tornaram uma força da natureza que muda o planeta em escala geológica — mas numa velocidade mais rápida que a geológica.

Só um projeto de engenharia, a mina de Syncrude nas areias betuminosas de Athabasca, envolve o movimento de 30 bilhões de toneladas de terra — duas vezes mais que a quantidade de sedimento que flui em todos os rios no mundo em um ano. Aquele fluxo de sedimento, enquanto isso, está encolhendo: quase 50 mil grandes represas no último meio século reduziram o fluxo [de sedimento nos rios] em quase um quinto. É uma das razões pelas quais os deltas da Terra, onde vivem centenas de milhões de pessoas, estão erodindo num ritmo que impede que sejam reabastecidos.

Os geólogos se importam com sedimentos, martelando neles para descobrir o que têm a dizer sobre o passado — especialmente sobre as grandes porções de tempo que a Terra atravessa de um período geológico a outro. Com o mesmo espírito os geólogos olham para a distribuição de fósseis, para traços das geleiras, para o nível dos oceanos. Agora, um número destes cientistas argumenta que futuros geólogos, observando este momento do progresso da Terra, vão concluir que algo muito estranho está acontecendo.

O ciclo do carbono (e o debate sobre o aquecimento global) é parte da mudança. Assim também é o ciclo do nitrogênio, que converte nitrogênio puro da atmosfera em químicos úteis, e que os humanos ajudaram a acelerar em mais de 150%. Eles e outros processos antes naturais foram interrompidos, remodelados e, principalmente, acelerados. Os cientistas estão crescentemente usando um novo nome para este período. Em vez de nos colocar ainda no Holoceno, uma era particularmente estável que começou há cerca de 10 mil anos, os geólogos dizem que já estamos vivendo no Antropoceno: a idade do homem.

The new geology leaves all in doubt
O que os geólogos escolhem chamar de um período histórico normalmente importa pouco para o resto da humanidade; disputas na Comissão Internacional de Estratigrafia sobre os limites do Período Ordoviciano normalmente não capturam as manchetes. O Antropoceno é diferente. É um daqueles momentos em que cai a ficha científica, como quando Copérnico entendeu que a Terra girava em torno do sol, momentos que podem mudar fundamentalmente a visão das pessoas sobre coisas muito além da ciência. Significa muito mais que reescrever alguns livros didáticos. Significa repensar a relação entre as pessoas e seu mundo — e agir de acordo com o resultado.

A parte de “repensar” é a mais fácil. Muitos cientistas naturais abraçam a confortável crença de que a natureza pode ser pensada, na verdade deveria ser pensada, separadamente do mundo humano, com as pessoas como meras observadoras. Muitos ambientalistas — especialmente aqueles da tradição norte-americana inspirada em Henry David Thoreau — acreditam que “o mundo selvagem é a preservação do mundo”. Mas as regiões isoladas, para o bem e para o mal, estão se tornando crescentemente irrelevantes.

Quase 90% da atividade vegetal do mundo, por algumas estimativas, é encontrada em ecossistemas onde o homem tem um papel significativo. Embora a agricultura tenha mudado o mundo por milênios, o evento Antropoceno dos combustíveis fósseis, da engenharia agrícola e, principalmente, dos fertilizantes artificiais à base de nitrogênio, incrementaram vastamente o poder da agricultura. A relevância das regiões preservadas para nosso mundo encolheu em face deste avanço. A quantidade de biomassa que agora anda sobre o planeta em forma de humanos ou animais de criação pesa muito mais que todos os outros grandes animais juntos.

Os ecossistemas do mundo são crescentemente dominados por um grupo limitado e homogêneo de culturas, animais de criação e criaturas cosmopolitas que se dão bem em ambientes dominados por humanos. Criaturas menos úteis ou adaptáveis se dão mal: a taxa de extinção hoje é bem mais rápida que durante períodos geológicos normais.

Recycling the planet
O quanto as pessoas deveriam se amedrontar com isso? Seria estranho se não se preocupassem. A história do planeta contém muitas eras menos estáveis e clementes que o Holoceno. Quem pode garantir que a ação humana não pode empurrar o planeta para nova instabilidade?

Alguns vão querer simplesmente voltar o relógio. Mas retornar às coisas como eram não é realista, nem moralmente alcançável. Um planeta que em breve pode sustentar 10 bilhões de seres humanos precisa trabalhar de forma diferente de que quando sustentava 1 bilhão de pessoas, a maioria camponeses, 200 anos atrás. O desafio do Antropoceno é usar a engenhosidade humana para ajeitar as coisas para que o planeta possa cumprir sua tarefa do século 21.

Aumentar a resiliência do planeta vai provavelmente envolver algumas mudanças dramáticas e muitos pequenos ajustes. Um exemplo do primeiro pode vir da geoengenharia. Hoje o abundante dióxido de carbono emitido na atmosfera fica para a natureza recolher, o que ela não pode fazer suficientemente rápido. Embora as tecnologias ainda sejam nascentes, a ideia de que os humanos possam remover o carbono dos céus da mesma forma que ele é colocado lá é uma razoável expectativa do Antropoceno; não evitaria o aquecimento global a curto prazo, mas poderia reduzir seu impacto, com isso reduzindo as mudanças na química dos oceanos causadas pelo excesso de carbono.

Mais frequentemente a resposta estará nos pequenos ajustes — em encontrar formas de aplicar o músculo humano em favor da natureza, em vez de contra ela, ajudando assim a tendência natural de reciclar as coisas. A interferência humana no ciclo do nitrogênio tornou o nitrogênio muito mais disponível para plantas e animais; fez muito menos para ajudar o planeta a lidar com todo aquele nitrogênio quando as plantas e animais se satisfazem. Assim, sofremos cada vez mais com as “zonas mortas” costeiras, invadidas pelo brotar de algas alimentadas por nitrogênio. Pequenas coisas, como uma agricultura mais inteligente e melhor tratamento de esgoto, poderiam ajudar muito.

Para os homens, ter um envolvimento íntimo com vários processos interconectados numa escala planetária envolve muitos riscos. Mas é possível acrescentar à resiliência do planeta, em geral com medidas simples e graduais, se elas forem bem pensadas. E uma das mensagens do Antropoceno é que as ações graduais que nos trouxeram até aqui podem rapidamente se somar para provocar mudanças globais.

TraduçãoVi o Mundo

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Porto Alegre: No rastro do antropoceno

As marcas da espécie humana na superfície e na atmosfera do planeta, foram visíveis no temporal de Porto Alegre que deixou grande parte da cidade sem luz.

Najar Tubino


Porto Alegre Domingo, dia 31 de janeiro, quase dois dias depois de uma tempestade com ventos de 120 km e com impacto de um furacão categoria 1, conforme definição do Metroclima, serviço meteorológico da cidade, metade da população está sem água e 140 mil residências sem luz. Moro no alto da Avenida Oscar Pereira, zona periférica, onde no início da manhã os moradores fizeram um bloqueio com paus e árvores queimando, mas em casa temos luz, desde a madrugada. Sem água. O calor que chegou a 39,3 graus na sexta-feira, dia do temporal ontem passava dos 30. Sem luz, três das seis estações de abastecimento de água da capital gaúcha, continuam sem funcionar. O Presídio Central, onde estão mais de quatro mil detentos continua sendo abastecido com carro pipa. Os bairros Menino Deus, Cidade Baixa e Bom Fim foram os mais atingidos – trata-se do coração cultural e boêmio da cidade.

Sábado, dia 30, 9 horas. Como de costume cheguei à feira ecológica para as compras da semana. Pelo caminho, sinaleiras sem funcionar, muitas árvores caídas – mais de 300 no total -, vidros quebrados, telhados que despencaram – incluindo o do Shopping Praia de Belas, empresa que a RBS participa. Cenário de destruição. Na rua do Brique, como chamamos a José Bonifácio, as velhas tipuanas, a espécie que predomina, estavam detonadas, muitas no chão e galhos espalhados pela via. Ao lado, onde já é o Parque da Redenção, o cenário era pior. Muitas árvores estraçalhadas. Muitas pessoas estavam no local fotografando, todos chocados, incluindo eu, que tive vontade de chorar.


Raios que caíram durante 60 minutos


O rastro do Antropoceno, a marca da espécie humana na superfície e na atmosfera do planeta, era visível. Uma energia muito grande e concentrada tinha se dissipado sobre Porto Alegre, na forma de chuva, raios e muito vento. Na sexta-feira, observava a concentração do calor da janela de casa, em frente ao Morro da Embratel, assim chamado porque concentra a maioria das antelas da cidade. Embaixo o vale, onde fica o bairro 1º de Maio. Desde que comecei a identificar os ventos do ciclo extratropical que chegam à costa do Rio Grande do Sul, associei o barulho que fazem as árvores no topo do morro com a velocidade dos ventos. Se o barulho é ensurdecedor os ventos estão acima de 100 km. Foi o que ocorreu na sexta-feira, às 22 horas. Marquei no relógio e fiquei acompanhando. Logo em seguida, as nuvens avançaram por dentro do vale e no topo do morro. E os primeiros estrondos iniciaram. Uma sequência que durou exatamente 60 minutos. Um atrás do outro, com relâmpagos que clareavam a noite.

O fato de morar perto das antenas aumenta o pavor, quando a sequência de raios é alucinante. Nunca tinha visto isso. Clarões durante uma hora e estrondos em série. Em julho de 2014 outra tempestade desse tipo varreu o estado. Caíram raios a cada três segundos. Nesta, do dia 29 de janeiro, não dava para contar até três. No Brasil caem 50 milhões de raios todos os anos. Entretanto, a questão maior é que o aquecimento global tem aumentado o número de eventos climáticos extremos e acelerando a intensidade e, em consequência, seus estragos. Em duas décadas foram mais de 600 mil mortos. A Organização Meteorológica Mundial, da ONU, divulgou no final de 2015, que o El Niño em vigor é o mais forte desde 1950. O El Niño já é um fenômeno climático extremo envolvendo o aquecimento das águas do Pacífico – ficaram mais de dois graus acima da média.


Não vemos o CO2, mas ele é uma ameaça real


O Secretário executivo da OMM, Michel Jarraud disse no início de 2016 que as temperaturas no ano passado estiveram um grau acima da média, desde a era pré-industrial, como resultado de uma mistura de um El Niño excepcionalmente forte e as mudanças climáticas:

“- A temperatura média da superfície em 2015 quebrou todos os recordes anteriores por uma grande margem. Além disso, 15 dos 16 anos desse século foram os mais quentes, sendo que 2015 superou os anos anteriores no aumento da temperatura. O El Niño e a mudança climática devem interagir e um modificar o outro de forma nunca vista antes. Em breve iremos viver em uma atmosfera em que o teor médio de CO2 irá exceder 400ppm – partes por milhão. Não vemos o CO2, que é uma ameaça invisível, mas ele é uma ameaça real”, disse Michel Jarraud, ao anunciar o relatório completo da OMM para março próximo.

O Metroclima da Prefeitura de Porto Alegre classificou a tempestade como “macroburst”, um fenômeno meteorológico incomum, onde uma forte corrente descendente de vento se espalha de modo radial, a partir de um ponto cultural, sendo capaz de gerar rajadas tão fortes e destruidoras quanto as de um tornado intenso. Os caminhões do departamento de limpeza pública já recolheram mais de 360 toneladas de restos de árvores. Não há previsão de quando a água voltará. O governador não está na cidade, nem o prefeito, os respectivos vices comandam os trabalhos. 

Texto original:
CARTA MAIOR

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Antropoceno: a era da manipulação da informação

85,5% das importações audiovisuais da América Latina são originárias dos EUA, e elas estão tentando construir a ideia de que não existe aquecimento global.

Najar Tubino

Enojar é o verbo inspirador deste texto. Depois de muito pesquisar sobre a concentração de poder no mundo hoje, onde 147 transnacionais controlam outras 43 mil, o que corresponde a 40% do mercado mundial, onde os três principais veículos de economia do mundo ocidental fazem parte da carteira de clãs conhecidos há séculos, como os Rothschild, Agnelli, ou já na era moderna, os Murdoch, donos do The Wall Street Journal, do Dow Jones e da Fox News, que divulga diariamente as mentiras sobre as mudanças climáticas e o aquecimento global. The Economist, a revista inglesa de 1873 é a outra fonte, muito celebrada pelos neoliberais e conservadores por sua respeitabilidade, transparência e ética.

Ao iniciar 2016, a revista publicou uma capa sobre o Brasil quebrado e desorganizado, com uma foto da presidenta Dilma Rousseff cabisbaixa. Em agosto de 2015 a Pearson, dona da revista vendeu 50% das ações – 27,3% foram compradas pela família Agnelli, os outros 23,7% pelo próprio Grupo Economist. Ocorre o seguinte: os outros 50% pertencem aos Rothscild, aos agentes financeiros Schroder, aos Agnelli e a Cadbury, maior fabricante de doces do Reino Unidos, que foi engolido pela Kraft Foods, dos Estados Unidos. O detalhe: estas famílias detêm a maioria das ações classe A, que dão direito a indicar a maioria dos 13 membros da diretoria. Ou seja: eles mandam e estabelecem as diretrizes editoriais.


Negócio perfeito no capitalismo


Pior: o grande negócio da The Economist é o Economist Intelligence Unit, que em 2014 faturou US$93 milhões, mais do que os US$37 milhões do Financial Time Group, que publica o jornal FT, que também era da Pearson e foi vendido no ano passado para o grupo japonês Nikkei por US$1,3bi. Este é o funcionamento perfeito do capitalismo: os cães farejadores levantam a situação das empresas, dos setores econômicos em todo o mundo – inclusive faturando com a publicidade- depois entregam para os seus patrões, que no mesmo momento, sairão pelo mundo comprando ações, empresas, terras, de barbada. Um golpe que o clã dos Rothschild britânico instituiu no então poderoso império por Nathan, que se instalou na City londrina em 1809.
A estratégia límpida e transparente, naquela época não tinha o sustentável, conhecida historicamente como o Golpe na Bolsa de Londres consistiu no seguinte: seus informantes presentes na Batalha de Waterloo forneceram o resultado final da carnificina ao patrão, logo em seguida começou a vender os papéis na Bolsa espalhando o boato que Napoleão vencera. Ao mesmo tempo, seus agentes passaram a comprar os papéis por ninharia. Logo depois, o poderoso império ficou sabendo da vitória do seu exército e os papéis explodiram. Então caía o Império Napoleônico e nascia oficialmente o império especulativo dos Rothschild.


No Planeta Mentira não há mudanças climáticas


Mas vamos voltar ao Antropoceno, o novo período geológico que será definido este ano, com as mudanças da espécie humana. Na realidade os mais de sete bilhões de habitantes do mundo não sabem exatamente em que planeta vivem. O controle exercido pelos 30 maiores conglomerados de mídia expõe apenas a sua visão da Terra. Nela, as mudanças climáticas, a destruição de florestas, a extinção de espécies, da miséria da própria espécie são apenas ingredientes do mercado, do sistema econômico que necessita crescer infinitamente, porque sem crescimento não haveria planeta. E afinal, como os 85 bilionários – com mais de 20 bilhões de dólares - poderiam viver e usufruir das maravilhas da natureza, com seus iates, seus clubes de golfe, seus carros esportivos, suas ilhas exclusivas?

Sem contar os outros 300, que estão na lista da Bloomberg, que possuem juntos US$3,7 trilhões e que ao longo de 2014 ganharam mais US$524 bilhões, segundo a pesquisa do professor Luiz Marques, no livro “Capitalismo e Colapso Ambiental”. Para reforçar um pouco mais o poder: as sete principais holdings financeiras dos Estados Unidos – JP Morgan Chase, Bank of America, Citigroup, Wells Fargo, Goldman Sachs, Metlife e Morgan Stanley detêm mais de US$10 trilhões em ativos consolidados, o que corresponde a 70,1% de todos os ativos dos Estados Unidos. São eles que controlam a riqueza mundial, dos 147 grupos que controlam os 43 mil – uma pesquisa do ETH Instituto Federal Suíço de Pesquisas Tecnológicas, de Zurique, selecionaram as 43 mil corporações entre 30 milhões.


Ricos não podem pagar impostos


Eles constataram que os banqueiros são os intermediários que possibilitam a articulação da rede. É claro que as famílias bilionárias do mundo participam de tudo isso. Sem esquecer, que parte desta fortuna, segundo a Tax Justice Network, pelo menos US$21 trilhões estão em paraísos fiscais. Porque o Planeta ficcional criado pelos conglomerados da mídia instituiu que os ricos não podem pagar impostos. Prejudica os negócios, o crescimento. Uma citação do final do livro de Thomas Piketty – O Capital no século XXI – que definiu 300 anos de dados sobre a desigualdade econômica em 669 páginas:

“- A desigualdade entre a taxa de crescimento do capital e da renda e da produção faz com que os patrimônios originados no passado se recapitalizem mais rápido do que a progressão da produção e dos salários. Essa desigualdade exprime uma contradição lógica fundamental. O empresário tende a se transformar, inevitavelmente, em rentista e a dominar cada vez mais aqueles que só possuem sua força do trabalho. Uma vez constituído o capital se reproduz sozinho, mais rápido do que cresce a produção. O passado devora o futuro”.


A desigualdade será a norma no século XXI


E pode investir em educação, conhecimento e tecnologias não poluentes, nada disso elevará as taxas a 4 ou 5% ao ano, como rende o capital. A experiência histórica indica que apenas países em recuperação econômica, como a Europa nos 30 anos gloriosos pós- segunda guerra, ou a China e os emergentes podem crescer neste ritmo por um tempo.

“- Para os que se situam na fronteira tecnológica mundial e em última instância para o planeta como um todo, tudo leva a crer que a taxa de crescimento não pode ultrapassar 1 a 1,5% ao ano, no longo prazo, quaisquer que sejam as políticas a serem seguidas. Com o retorno médio do capital na ordem de 4 a 5% é provável que a desigualdade das taxas de crescimento já citadas voltem a ser a norma no século XXI, como sempre foi na história.”


O divertimento ao invés da realidade


Conclusão: o Planeta criado pelos conglomerados continua executando a mesma plataforma, desde o século XIX, sendo que somente nos períodos posteriores às guerras mundiais que as fortunas foram taxadas. E o que faremos nós no século XXI? Já sabemos que o aquecimento aumenta, os eventos climáticos se aceleram e o agronegócio continua dominando mais áreas de floresta do planeta. Neste momento, entra a outra parte dos conglomerados de mídia – o entretenimento. A força da Disney Company – faturou US$45 bi em 201- e pagou US$21bilhões pela franquia da séria Star Wars e ainda produzirão outros cinco filmes.

E pretendem vender US$5 bilhões em produtos licenciados – videogames, publicações, música, brinquedos. O mercado é grande: parques temáticos em Paris, Hong Kong, Tóquio, agora em 2016, Shangai, na China. Compraram todos os talentos, a Pixar, de Steve Jobs- era o maior acionista individual da Disney -, os heróis em quadrinhos da Marvel, na figura canhestra do Homem de Ferro, rico, cibernético e arrogante. Depois ainda compraram os estúdios de George Lucas. Total: mais de US$15 bilhões. Ou seja, não acreditem em caos climático, divirtam-se.


No Planeta de mentira informação é entretenimento


A revista das famílias poderosas, a The Economist – fez uma daquelas matérias pegajosas sobre “a força” da Disney, em dezembro de 2015. Um trecho:

“- A estratégia deles é a seguinte: os filmes aparecem no centro, a sua volta estão os parques temáticos, os licenciamentos, a música, as publicações e a televisão, Cada unidade da companhia produz conteúdo e impulsiona as vendas das demais”.

É perfeito, se aliar isso a canais de esportes – ESPN – que fatura a metade da grana na Disney, que é uma das quatro líderes mundiais. As outras são: Google, que mais fatura em publicidade, depois a Comcast, que tem a maior rede de televisão a cabo do mundo, e é proprietária da rede NBC e da Universal. Depois vêm a 21st Century Fox, da News Corporation, de Rupert Murdoch; Viacom, dona da MTV e da Paramount, mas dividiu a corporação, criando a CBS Corporation, outra rede dos Estados Unidos. Na lista agora constam Facebook e Baidu, o Google chinês, em faturamento de publicidade.


85,5% das importações audiovisuais dos Estados Unidos


Mas eles não têm o poder dos conglomerados tradicionais. Faltou a Time Warner Company, dona da CNN, que é outra das bases de informação no mundo, além do Carlos Slim, dono da telefonia na América Latina, que agora tem 16,8% das ações do The New York Times, maior acionista individual. Último dado enjoativo desta que é a praga maior desta era geológica: 85,5% das importações audiovisuais da América Latina – 150 mil horas de filmes, seriados e programas jornalísticos- são originários dos Estados Unidos. E em todos estes conglomerados tem a participação acionária dos maiores fundos de investimento ou de pensões do mundo, como é o caso da Vanguard Group – 160 fundos nos Estados Unidos e 120 fora deles -, que estão processando a Petrobras nos Estados Unidos, e que os Rothschild são acionistas.

A família Rothschild – significa a casa do escudo vermelho, baseado no escudo da cidade de Frankfurt, onde Mayer Amschel Bauer, considerado o primeiro banqueiro internacional começou o império. Segundo a versão popular, com uma fortuna do nobre alemão Guilherme IX, que fugia de Napoleão, e deixou três milhões de libras esterlinas em dinheiro e obras de arte, para ele administrar.


Outros negócios dos Rothschild


Ele investiu bem, conta a lenda, que não dividiu um centavo dos lucros. Também diz a lenda que não são judeus étnicos, mas se converteram ao judaísmo no século oito da era cristã. Os Rothschild, em seus vários ramos, são detentores de tudo o que é importante no mundo. A De Beeres, maior empresa de exploração, lapidação e comércio de diamantes, os extratores de minérios Rio Tinto e Anglo American, como acionistas. O Barão francês Edouard, já falecido, em 2005 comprou 37% do jornal Liberation, considerado um veículo que defende ideias de esquerda.

Recentemente se associaram com os Rockfellers na Rússia unindo ativos de US$40 bilhões. Até hoje, as cotações do ouro são definidas no prédio da N M Rothschild & Co, que no Brasil se chama Rothschild, e trabalha no ramo de assessoria financeira, focada em fusões e aquisições, reorganizações societárias. Conta com 50 escritórios espalhados pelo mundo. No Brasil já prestaram serviços para o Itaú Unibanco, no fechamento de capital da Redecard, fizeram o laudo de avaliação do Santander Brasil, que vendeu parte do controle, além da BM&F, Camargo Corrêa, OI e Ambev.

No Laudo de avaliação do Santander, a Rothschild Brasil esclarece: que não possui informações comerciais e creditícias de qualquer natureza que possam impactar o laudo; não possui conflito de interesse, que lhe diminua a independência necessária ao desempenho da função. E que receberia US$800 mil pelo laudo. Algumas linhas adiante: e mais US$4,5 milhões pelo trabalho de assessoria do Santander S.A., que não é o Santander Brasil. Entenderam: tudo ético, transparente e sustentável. E nós estamos ferrados com este planeta mentiroso, que os conglomerados inventaram. 

Texto original: CARTA MAIOR

domingo, 31 de janeiro de 2016

O livre direito à manifestação está em risco

Artistas, professores universitários, ativistas e militantes sociais alertam: 'o livre direito à manifestação está em grande risco hoje no Brasil'.

Tatiana Carlotti

Artistas, professores universitários, ativistas e militantes sociais alertam: “o livre direito à manifestação está em grande risco hoje no Brasil”.

Em repúdio aos sucessivos e truculentos episódios de repressão policial contra manifestantes nas ruas, eles lançam o Mani-f-esta livre!, denunciando ameaças em curso e propondo uma série garantias ao livre exercício da manifestação popular.

“O manifesto pretende expressar a voz da esquerda das ruas”, afirma o sociólogo Jean Tible, um dos signatários do documento. “Partindo da perspectiva de que o cidadão faz política no seu cotidiano, e não apenas no momento das eleições, nós colocamos em debate essa situação absurda, na qual as pessoas que reivindicam determinadas pautas acabam sendo reprimidas de uma forma totalmente violenta e antidemocrática”, explica.