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quinta-feira, 10 de julho de 2014

A Globo e as raízes do subdesenvolvimento do futebol brasileiro

Luis Nassif


Os bravos jornalistas da CBN foram rápidos no gatilho: os 7 x 1 da Alemanha comprovam que a presidente Dilma Rousseff é “pé frio”.

Pé frio é bobagem. Não é o que dizem de Galvão Bueno?

Como são analistas sofisticados, da política e da economia, poderiam afirmar que Dilma talvez seja culpada - assim como Lula, Fernando Henrique Cardoso e outros presidentes - por não ter entrado na batalha pela modernização do futebol brasileiro.

Poderiam ter avançado mais no diagnóstico. Explicado que a maior derrota do futebol brasileiro – e latino-americano em geral – estava no fato de que a maioria absoluta dos seus jogadores serem de times europeus, da combalida Espanha, da Alemanha, Inglaterra e França.

Ali estaria a prova maior do subdesenvolvimento do futebol brasileiro, um mero exportador de mão-de-obra para o produto acabado europeu, campeonatos riquíssimos mesmo em períodos de crise.

Mas a questão principal é quem colocou na copa da árvore o jabuti do subdesenvolvimento futebolístico brasileiro.

Se quisessem aprofundar mais, poderiam mostrar conhecimento e erudição esportiva reportando-se a uma tarde de julho de 1921, em Jersey City, quando surgiu o primeiro Galvão Bueno da história, o locutor J. Andrew White, pugilista amador, preparando-se para narrar a luta história de Jack Dempsey vs George Carpentier para a Radio Corporation of America (RCA). 61 cidades tinham montado seus “salões de rádio” para um público estimado em centenas de milhares de ouvinte.

O que era apenas um hobby de radio amadores, tornou-se, a partir de então, o evento mais prestigiado nas radio transmissões.

Se não fosse cansar demais os ouvintes da CBN, os brilhantes analistas poderiam historiar, um pouco, a importância das transmissões esportivas para o que se tornaria o mais influente personagem do século no mercado de opinião: os grupos de mídia.

Mostrariam como foram criadas as redes, desenvolvidas as grades de programação, planejados os grandes eventos, como âncoras centrais da audiência.

Depois, avançariam nos demais aspectos dos grupos de mídia.

Num assomo de modéstia, reconheceriam que, em um grupo de mídia, a relevância do jornalismo é diretamente proporcional à audiência total; e a audiência depende fundamentalmente desses eventos âncora. Por isso mesmo, foi o futebol que garantiu o prestígio e a influência do jornalismo.

Não se vá exigir que descrevam a estratégia da Globo para tornar-se o maior grupo de mídia do Brasil e da América Latina. Mas se avançassem lembrariam que os eventos consolidadores foram o carnaval carioca e o futebol, pavimentando o caminho das novelas e do Jornal Nacional.

Algum entrevistado imprevisto, especialista em segurança, ou na sociologia do crime, poderia lembrar que, para conseguir o monopólio de ambos os eventos, a grande Globo precisou negociar, numa ponta, com os bicheiros que dominavam a Associação das Escolas de Samba do Rio; na outra, com os cartolas que desde sempre dominavam a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), desde os tempos em que era CDB (Confederação Brasileira dos Desportos).

Para não pegar mal para a Globo, diria que a grande emissora foi vítima do anacronismo da sociedade brasileira, que a obriga a entrar no pântano sem se sujar.

Aos ouvintes ficariam as conclusões mais pesadas.

Graças ao submundo dos bicheiros e cartolas, a Globo venceu a competição na radiodifusão. E graças à Globo, bicheiros e cartolas conquistaram um enorme poder junto à superestrutura do Estado brasileiro, um extraordinário jogo de ganha-ganha em que o sistema bicheiros-Globo e cartolas-Globo ganharam uma expressão política inédita e uma blindagem excepcional. Ainda mais se se considerar que o primeiro setor vive da contravenção e o segundo está mergulhado até a raiz do cabelo nos esquemas internacionais de lavagem de dinheiro, através do comércio de jogadores.

Aí a matriz de responsabilidades começa a ficar um pouco mais clara.

Um especialista em direito econômico poderia analisar o abuso de poder econômico na compra de campeonatos e os prejuízos ao consumidor, com a Globo adquirindo a totalidade dos campeonatos e transmitindo apenas parte dos jogos.

Para tornar mais ilustrativo o episódio, poderia se reconstituir a tentativa da Record de entrar no leilão e a maneira como a Globo cooptou diversos clubes, adiantando direitos de transmissão para impedir o avanço da concorrente. Ou, então, as tentativas de dirigentes mais modernos de se livrar do jugo da CBF. E como todos foram esmagados pelo poder financeiro da aliança CBF-Globo.

De degrau em degrau, de episódio em episódio, se chegaria ao busílis da questão, o bolor fétido que emana da CBF e que até hoje impediu que, no país do maior público consumidor, aquele em que o futebol é a maior paixão popular, o evento que mais vende produtos, mais galvaniza a atenção, não se consiga desenvolver uma economia esportiva moderna.

Completado o raciocínio, o distinto público da CBN entenderia os motivos do Brasil ser um mero exportador de jogadores, os clubes brasileiros serem arremedos de clube social, o fato de grandes investidores jamais terem ousado investir no evento esportivo de maior penetração no mundo, de jamais termos desenvolvidos técnicas em campo à altura do talento dos jogadores brasileiros.

A partir dai, ficaria claro as razões do subdesenvolvimento brasileiro e, forçando um pouco a barra, até a derrota de 7 x 1 para a Alemanha.

Texto original em: LUIZ NASSIF ONLINE

domingo, 22 de junho de 2014

O STF e a constituição !

O Brasil vive um momento em que a população cobra punição a tudo que é denuncia de corrupção. Toda a população se orienta nos fatos divulgados plea chamada grande imprensa. Não analisam se as denuncias são realmente falsa ou verdadeira, se estão sendo passadas notícias faltados fatos, se as informações estão distorcidas ou mesmo se são falsas. Basta que a televisão denuncie e já se pede a cabeça do acusado. Em todas essas acusações e denuncias tem um fato interessante, só existem os corruptos e os corruptores nunca são informados ou se passa a ideia que não existem.

A situação fica mais grave ao notarmos que as denuncias são feitas sempre em relação ao partido do Governo Federal, como se não existissem os demais partidos, ou como se nas administrações estaduais (o PSDB governa nove estados) e municipais (o PMDB é o partido com maior número de prefeituras) não existissem corrupção (na realidade estão ocultando os fatos). A coisa se tornou tão grave que não se analisa as informações e se a lei está sendo ou não cumprida!!

O STF é o órgão responsável de se
garantir que se cumpra a constituição.

O Joaquim Barbosa (Presidente do
STR) rasgou a constituição que
deveria defender!!!!!
O fato, que mais me chama a atenção não, é o povão se guiar pelo imprensa , mas advogados, professores e médicos endossarem e em nome da justiça aceitar que se condene qualquer acusado do partido do governo com provas ou não! E nesta ordem a coisa fica mais escandalosa em se tratando de advogados (são os profissionais da Lei). O mais grave é quando olhamos a composição e as atitudes dos ministros (juízes) do Supremo Tribunal Federal (órgão responsável para fazer cumprir o que está escrito na nossa constituição). É só perguntar a qualquer advogado se pode condenar alguém sem provas que o mesmo em vez de dar as devidas explicações vem logo gritando: querem soltar os bandidos, o cara já foi julgado em trânsito, você quer me dizer que ali só tem inocentes? Mas não perguntei se eram inocentes ou culpados! Eu perguntei se é correto condenar uma pessoa sem mostrar as devidas provas? Infelizmente a grande maioria dos advogados saem bradando que sou defensor de bandidos e petista e nem notam que estão demonstrando lado político e sem nenhuma preocupação de serem profissionais da lei e demonstram que não estão nem um pouco preocupado com o cumprimento ou não da lei!

Os professores, embora não sejam profissionais da lei, são os formadores dos futuros cidadãos! E como formadores dos futuros cidadãos e ao não mostrarem os argumentos que justifiquem tal pergunta, já mostram os tipos de cidadãos que estão pretendendo formar, cidadãos que não questionam os fatos!!!. Estão formando cidadãos que se é contra o que eu considero um inimigo, que se condene, pouco importa a existência ou não da lei!!!

Joaquim Barbosa é condecorado com a
medalha da ordem de Tiradentes por
políticos que ele não condenou no
mensalão do PSDB!
É comum se verificar a defesa de Joaquim Barbosa, inclusive entre advogados e professores (já presenciei vários casos), como um herói nacional!!! Esse herói foi relator dos dois processos do mensalões (devido a interferência dos meios de comunicação a população pensa que foi somente um). Um ele fatiou o processo para que fossem mandado para a primeira instância (o mensalão do PSDB) e o outro ele pediu a condenação de todos os acusados e afirmando que não tinha provas, mas utilizando uma tal de “Teoria dos Fatos”, pediu a condenação de todos!!! Estranha contradição!!!!

O processo Mensalão do PSDB é mais antigo que o Mensalão do PT e estranhamente o mensalão do PT foi julgado primeiro e os acuados do mensalão do PSDB estão sendo inocentados porque as penas estão prescrevendo. Justiça com dois pesos e duas medidas!

Leia também:
MEGACIDADANIA - Confirmado, Barbosa forjou condenações
Diário do Centro do Mundo - Quem desmoralizou o STF foi o próprio STF
Blog da Cidadania - Visita de deputados a Dirceu desmoralizou Legislativo, Judiciário e imprensa

Antônio Carlos Vieira
Licenciatura Plena - Geografia
http://carlos-geografia.blogspot.com.br


Texto original neste endereço:

terça-feira, 10 de junho de 2014

Vergonha do Brasil e de ser brasileiro?



Marcelo Zero*

Ao contrário de alguns, não sinto nenhuma vergonha do meu país.

Não sinto vergonha dos 36 milhões de brasileiros que conseguiram sair daquilo que Gandhi chamava de a “pior forma de violência”, a miséria.

Agora, eles podem sonhar mais e fazer mais. Tornaram-se cidadãos mais livres e críticos. Isso é muito bom para eles e muito melhor para o Brasil, que fica mais justo e fortalecido. E isso é também muito bom para mim, embora eu não me beneficie diretamente desses programas. Me agrada viver em um país que hoje é um pouco mais justo do que era no passado.

Também não sinto vergonha dos 42 milhões de brasileiros que, nos últimos 10 anos, ascenderam à classe média, ou à nova classe trabalhadora, como queiram.

Eles dinamizaram o mercado de consumo de massa brasileiro e fortaleceram bastante a nossa economia. Graças a eles, o Brasil enfrenta, em condições bem melhores que no passado, a pior crise mundial desde 1929. Graças a eles, o Brasil está mais próspero, mais sólido e menos desigual. Ao contrário de alguns, não me ressinto dessa extraordinária ascensão social. Sinto-me feliz em tê-los ao meu lado nos aeroportos e em outros lugares antes reservados a uma pequena minoria. Sei que, com eles, o Brasil pode voar mais alto.

Não tenho vergonha nenhuma das obras da Copa, mesmo que algumas tenham atrasado. Em sua maioria, são obras que apenas foram aceleradas pela Copa. São, na realidade, obras de mobilidade urbana e de aperfeiçoamento geral da infraestrutura que melhorarão a vida de milhões de brasileiros. Estive no aeroporto de Brasília e fiquei muito bem impressionado com os novos terminais e com a nova facilidade de acesso ao local. Mesmo os novos estádios, que não consumiram um centavo sequer do orçamento, impressionam. Lembro-me de velhos estádios imundos, inseguros, desconfortáveis e caindo aos pedaços. Me agrada saber que, agora, os torcedores vão ter a sua disposição estádios decentes. Acho que eles merecem. Me agrada ainda mais saber que tido isso vem sendo construído com um gasto efetivo que representa somente uma pequena fração do que é investido em Saúde e Educação. Gostaria, é claro, que todas as obras do Brasil fossem muito bem planejadas e executadas. Que não houvesse aditivos, atrasos, superfaturamentos e goteiras. Prefiro, no entanto, ver o Brasil em obras que voltar ao passado do país que não tinha obras estruturantes, e tampouco perspectivas de melhorar.

Tranquiliza-me saber que o Brasil tem um sistema de saúde público, ainda que falho e com grandes limitações. Já usei hospitais públicos e, mesmo com todas as deficiências do atendimento, sai de lá curado e sem ter gasto um centavo. Centenas de milhares de brasileiros fazem a mesma coisa todos os anos. Cerca de 50 milhões de norte-americanos, habitantes da maior economia do planeta e que não têm plano de saúde, não podem fazer a mesma coisa, pois lá não há saúde pública. Obama, a muito custo, está encontrando uma solução para essa vergonha. Gostaria, é óbvio, que o SUS fosse igual ao sistema de saúde pública da França ou de Cuba. Porém, sinto muito orgulho do Mais Médicos, um programa que vem levando atendimento básico à saúde a milhões de brasileiros que vivem em regiões pobres e muito isoladas. Sinto alívio em saber que, na hora da dor e da doença, agora eles vão ter a quem recorrer. Sinto orgulho, mas muito orgulho mesmo, desses médicos que colocam a solidariedade acima da mercantilização da medicina.

Estou também muito orgulhoso de programas como o Prouni, o Reuni, o Fies, o Enem e os das cotas, que estão abrindo as portas das universidades para os mais pobres, os afrodescendentes e os egressos da escola pública.

Tenho uma sobrinha extremamente talentosa que mora no EUA e que conseguiu a façanha de ser aceita, com facilidade, nas três melhores universidades daquele país. Mas ela vai ter de estudar numa universidade de segunda linha, pois a família, muito afetada pela recessão, não tem condição de pagar os custos escorchantes de uma universidade de ponta. Acho isso uma vergonha.

Não quero isso para o meu país. Alfabetizei-me e fiz minha graduação e meu mestrado em instituições públicas brasileiras. Quero que todos os brasileiros possam ter as oportunidades que eu tive. Por isso, aplaudo a duplicação das vagas nas universidades federais, a triplicação do número de institutos e escolas técnicas, o Pronatec, o maior programa de ensino profissionalizante do país, o programa de creches e pré-escolas e o Ciência Sem Fronteiras. Gostaria, é claro, que a nossa educação pública já fosse igual à da Finlândia, mas reconheço que esses programas estão, aos poucos, construindo um sistema de educação universal e de qualidade.

Tenho imenso orgulho da Petrobras, a maior e mais bem-sucedida empresa brasileira, que agora é vergonhosamente atacada por motivos eleitoreiros e pelos interesses daqueles que querem botar a mão no pré-sal. Nos últimos 10 anos, a Petrobras, que fora muito fragilizada e ameaçada de privatização, se fortaleceu bastante, passando de um valor de cerca de R$ 30 bilhões para R$ 184 bilhões. Não bastasse, descobriu o pré-sal, nosso passaporte para o futuro.

Isso seria motivo de orgulho para qualquer empresa e para qualquer país. Orgulha ainda mais, porém, o fato de que agora, ao contrário do que acontecia no passado, a Petrobras dinamiza a indústria naval e toda a cadeia de petróleo, demandando bens e serviços no Brasil e gerando emprego e renda aqui; não em Cingapura. Vergonha era a Petrobrax. Pasadena pode ter sido um erro de cálculo, mas a Petrobrax era um crime premeditado.

Vejo, com satisfação, que hoje a Polícia Federal, o Ministério Público, a CGU e outros órgãos de controle estão bastante fortalecidos e atuam com muita desenvoltura contra a corrupção e outros desmandos administrativos. Sei que hoje posso, com base na Lei da Transparência, demandar qualquer informação a todo órgão público. Isso me faz sentir mais cidadão. Estamos já muito longe da vergonha dos tempos do “engavetador-geral”. Um tempo constrangedor e opaco em que se engavetavam milhares processos e não se investigava nada de significativo.

Também já se foram os idos vergonhosos em que tínhamos que mendigar dinheiro ao FMI, o qual nos impunha um receituário indigesto que aumentava o desemprego e diminuía salários. Hoje, somos credores do FMI e um país muito respeitado e cortejado em nível mundial. E nenhum representante nosso se submete mais à humilhação de ficar tirando sapatos em aeroportos. Sinto orgulho desse país mais forte e soberano.

Um país que, mesmo em meio à pior recessão mundial desde 1929, consegue alcançar as suas menores taxas de desemprego, aumentar o salário mínimo em 72% e prosseguir firme na redução de suas desigualdades e na eliminação da pobreza extrema.

Sinto alegria com esse Brasil que não mais sacrifica seus trabalhadores para combater as crises econômicas.

Acho que não dá para deixar de se orgulhar desse novo país mais justo igualitário e forte que está surgindo. Não é ainda o país dos meus sonhos, nem o país dos sonhos de ninguém. Mas já é um país que já nos permite sonhar com dias bem melhores para todos os brasileiros. Um país que está no rumo correto do desenvolvimento com distribuição de renda e eliminação da pobreza. Um país que não quer mais a volta dos pesadelos do passado.

Esse novo país mal começou. Sei bem que ainda há muito porque se indignar no Brasil.

E é bom manter essa chama da indignação acessa. Foi ela que nos trouxe até aqui e é ela que nos vai levar a tempos bem melhores. Enquanto houver um só brasileiro injustiçado e tolhido em seus direitos, todos temos de nos indignar.

Mas sentir vergonha do próprio país, nunca. Isso é coisa de gente sem-vergonha.

(*) Marcelo Zero é formado em Ciências Sociais pela UnB

Texto original: PRAGMATISMO POLÍTICO

terça-feira, 27 de maio de 2014

Um tabu que sangra o Brasil

A isenção sobre as remessas, aprovada no governo FHC, tornou-se um desestímulo à reaplicação dos lucros em uma economia carente de investimentos.

por: Saul Leblon

O Brasil perde cada vez mais dólares com as remessas de lucros e dividendos das empresas estrangeiras instaladas no país.

Em abril foram remetidos US$ 3,2 bi; US$ 9 bilhões no primeiro quadrimestre de 2014.

No ano passado, lucros, dividendos e royalties remetidos às matrizes totalizaram quase US$ 40 bilhões.

Equivale à soma dos gastos na construção das usinas de Jirau, Belo Monte, SantoAntônio e a refinaria Abreu e Lima.

Representa quase 50% do rombo externo do período, de US$ 81 bi (3,6% do PIB).

Não há problema, diz a ortodoxia. Com a liberdade de capitais, o fluxo de investimentos diretos, e os especulativos, cobre o rombo, ou quase todo ele.

De fato, o ingresso anual de capitais na economia brasileira oscila em torno de US$ 60 bilhões (a diferença em relação ao déficit cambial total é zerada com captações em títulos).

Parece um lago suíço. Mas não é.

As correntezas submersas das contas externas, embora muito distantes da convulsão vivida no ciclo de governo do PSDB –quando as reservas cobriam poucos meses de importações e eram tuteladas pelo FMI- mostram uma dinâmica estrutural conflitante.

As exportações não conseguem gerar um superávit suficiente para cobrir a fatia expressiva das remessas e gastos no exterior.

O declínio nos preços das commodities e a baixa competitividade das exportações industriais (associada à expansão das importações) completam a espiral descendente dos saldos comerciais.

Em 2013 a diferença entre embarques e desembarques deixou apenas US$ 2,561 bilhões no caixa do país, pior resultado da balança comercia desde o ano 2000.

Em 2014, apesar da melhora refletida em um superávit mensal de US$ 506 milhões em abril, o acumulado no quadrimestre ainda é negativo: menos US$ 5,5 bilhões de dólares.

Em tese, haveria aí um paradoxo: como uma economia onde o capital estrangeiro acumula lucros tão robustos e remessas tão generosas (US$ 9 bilhões entre janeiro e abril), exporta tão pouco?

Duas lógicas se superpõem na explicação do conflito aparente.

A primeira decorre da inexistência de sanções que desencorajem as remessas.

Essa atrofia reflete a evolução política do país.

Em 1952, Vargas instituiu um limite de repatriação de 10% sobre os lucros do capital estrangeiro.

Em 20 de janeiro de 1964, Jango, certo de que estava assinando sua deposição, sancionou e especificou barreiras às remessas no decreto 53.451.

Estava correta intuição do presidente.

O golpe de 1964 eliminou a restrição quantitativa em 1965 - os 20% anuais de retorno do capital e os 10% sobre os lucros foram substituídos por um imposto progressivo.

O mecanismo penalizava adicionalmente remessas acima de 12% do capital médio registrado no triênio anterior. Buscava-se, teoricamente, induzir a permanência do recurso no país na forma reinvestimento, sujeito apenas ao imposto na fonte.

A ‘boa’ intenção da ditadura foi derrubada com a emergência do ciclo neoliberal, que eliminou o imposto suplementar em 31 de dezembro de 1991, no governo Collor. 

A escalada do desmonte incluiu ainda um corte na alíquota do Imposto de Renda sobre remessas , que caiu de 25% para 15%.

Finalmente, em 1995, no governo Fernando Henrique Cardoso, a Lei 9.249 reduziu a zero a alíquota, instituindo a isenção total de imposto sobre as remessas de lucros e dividendos.

É sugestivo que os mesmos veículos que rasgam manchetes para a erosão de divisas na conta de turismo, silenciem diante dessa sangria gerada pelo capital estrangeiro, cujo controle é uma espécie de tabu da agenda nacional.

Embora descabido para um país que enfrenta dificuldades em gerar saldos com exportações, a verdade é que o débito acumulado pelos viajantes brasileiros nas contas externas (US$ 2,3 bilhões em abril e US$ 8,2 bi no ano) é inferior ao fluxo das remessas do capital estrangeiro.

Mas isso não repercute. Talvez porque envolva não apenas uma diferença contábil.

A intocabilidade que cerca o capital estrangeiro sonega um debate que precisa ser feito para destravar a máquina do desenvolvimento brasileiro.

O tabu, na verdade, blinda escolhas políticas feitas nos anos 90, cujos desdobramentos explicam uma parte importante das dificuldades estruturais para a economia voltar a crescer de forma expressiva.

O regime facultado ao capital externo, associado à sofreguidão das privatizações nos anos 90, instalou no país uma azeitada plataforma de remessas de divisas, dissociada de contrapartidas equivalentes do lado exportador. 

As privatizações dos anos 90, mas também os investimentos estrangeiros e aquisições predominantes nas últimas décadas, concentraram-se em áreas de serviços –chamadas non-tradables, não comercializáveis no exterior.

Ou seja, criaram-se direitos de remessas permanentessem expandir proporcionalmente o fôlego comercial da economia.

A desestruturação da taxa de câmbio, traço que se arrasta desde o Real ‘forte’, completou a base de um sistema manco para dentro e para fora.

Três muletas se atropelam nesse tripé: exportações industriais declinantes e importações ascendentes, devido ao câmbio valorizado, e sangria desmedida nas diversas modalidades de remessas do capital estrangeiro.

O Brasil não vive uma asfixia externa, como a da crise da dívida nos anos 70 e 80, em parte decorrente de empréstimos que, de fato, ampliariam a capacidade e a infraestrutura do sistema produtivo.

Mas está constrangido no flanco externo por um descompasso estrutural intrínseco ao regime concedido ao capital estrangeiro.

O pano de fundo incômodo traz pelo menos um desdobramento positivo.

A ideia de que as condições de investimento e financiamento na economia devem estar atreladas –inexoravelmente— ao padrão de liberação financeira dos anos 90 não se sustenta mais.

As facilidades desmedidas oferecidas ao capital estrangeiro não redundaram em um salto no patamar de investimento, tampouco agregaram um novo divisor de competitividade, ademais de nada acrescentarem à inserção da indústria local nas cadeias de suprimento e tecnologia que dominam o capitalismo globalizado.

O insulamento regressivo não é a alternativa.

Mas as evidências demonstram que os protocolos destinados ao capital estrangeiro não servem para gerar os efeitos multiplicadores necessários ao aggiornamento do parque industrial e à inserção internacional da economia. 

Na verdade, a isenção concedida às remessas fez o oposto.

Incentivou o não reinvestimento de lucros, promoveu o endividamento intercompanhias (entre filial e matriz), exacerbou a consequente espiral dos juros e deslocou a ênfase do resultado operacional para a esfera financeira.

Uma conta grosseira indica que o capital estrangeiro remeteu nos últimos 11 anos cerca de US$ 240 bilhões, para um estoque de investimento da ordem de US$ 720 bi.

A relação soa favorável, não fosse a qualidade desse fluxo, boa parte, repita-se, destinado a aquisições de plantas já existentes e prioritariamente focado em atividades não geradoras de divisas.

Não apenas isso.

O líder em remessas de lucros e dividendos nos últimos dez anos, o setor automobilístico, responsável por quase 14% da sangria desde 2003, não exibiu qualquer compromisso com o país quando se instalou a crise internacional.

À renúncia fiscal sobre as remessas veio se sobrepor, então, novas demandas por isenções de impostos, a título de se evitar demissões, sem que de fato se tenha assegurado a garantia do emprego ao trabalhador brasileiro.

O conjunto resgata o tema do controle de capitais como uma ferramenta oportuna, legítima e indispensável à reordenação do desenvolvimento brasileiro. 

Chegou a hora de desmascarar um tabu que sangra o Brasil.

Texto original: CARTA MAIOR

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Brasil investiu R$ 850 bilhões em saúde e educação e R$ 25,6 bi em obras da Copa

Desde 2010, o governo federal investiu R$ 850 bilhões em saúde e educação, enquanto os investimentos totais no Mundial atingem R$ 25,6 bilhões.

Najla Passos

Brasil - Apesar dos investimentos para a realização da Copa do Mundo, o Brasil aumentou de R$ 101 bilhões para 107,5 bilhões os investimentos em educação, de 2013 para 2014, e de R$ 83 bilhões para R$ 91 bilhões os em saúde, no mesmo período.

“Essa discussão de que a copa tira recursos da saúde e da educação é falsa”, afirmou o titular da Secretaria Nacional de Relações Político-sociais da Secretaria Geral da Presidência, Wagner Caetano, no debate “A copa será um bom negócio para o Brasil?”, realizado no Teatro dos Bancários, na noite desta terça (20), em Brasília. 

Segundo ele, os investimentos nessas diferentes áreas são independentes, mas se somam em benefício da população. “Desde 2010, quando o governo começou a discutir os preparativos para a copa, já foram investidos R$ 850 bilhões em saúde e educação, enquanto os investimentos totais no mundial – incluindo federais, locais e privados – atingem R$ 25,6 bilhões”, acrescentou.

O secretário lembrou que os gastos exclusivos com a copa referem-se apenas aos custos dos estádios – de R$ 8 bilhões – que também servirão também para outros fins. “Os outros investimentos envolvem obras que vão impactar diretamente na melhoria da qualidade de vida da população, como as obras de mobilidade urbana”, ressaltou.

Apesar dos atrasos em algumas obras, ele foi taxativo em avaliar os resultados já conquistados como positivos. Dos doze estádios previstos, nove já estão concluídos e três serão entregues nos próximos dias. “Todos eles estarão em pleno funcionamento durante a copa”, assegurou. Das obras de mobilidade urbana, 42 já estão prontas ou em andamento e 16 voltarão para o PAC e serão concluídas em breve. e as outras serão entregues até o final do ano.

Caetano também citou a realização de 30 intervenções nos aeroportos e reformas de seis portos como legados que o mundial deixará para o país. E, ainda, os R$ 402 milhões de investimentos em telecomunicações e R$ 1,9 bilhão em segurança pública, além dos impactos sociais, como a criação dos 50 mil empregos para construção dos estádios, a abertura de 47,9 mil postos na cadeia do turismo, a inserção social de 840 catadores de lixo e as 16 mil matrículas nos cursos do Pronatec.

Tudo isso se justifica, segundo ele, frente às receitas a serem geradas: a expectativa é que o país receba 600 mil turistas estrangeiros e três milhões brasileiros, que devem gastar até R$ 25 bilhões, três vezes mais do que o que foi investido nos estádios.

Expectativas do DF

Em Brasília, as expectativas com o mundial também são grandiosas e, segundo secretário extraordinário da Copa, Cláudio Monteiro, justificam a prioridade que o governo deu à realização do evento. “Só com um jogo na Copa das Confederações, no ano passado, tivemos um incremento de 14% na receita”, comparou.

Para a copa, ele calcula que os lucros serão muito maiores. “A estimativa é que cada turista gaste R$ 11, 4 mil. E estamos esperando 206 mil estrangeiros e 402 mil brasileiros só em Brasília”, contabilizou.

O secretário também listou os legados que ficarão para a cidade, em qualificação da mão de obra, mobilidade urbana, qualidade de vida. “Para cada R$ 1 que o GDF investiu na copa, o Governo Federal investiu R$ 4 em obras e melhorias para a capital. Há décadas a cidade não recebia tantos investimentos”, afirmou.

Texto original: CARTA MAIOR

domingo, 18 de maio de 2014

Guerras, assassinatos e sanções


“O líder do mundo livre” – é assim que os EUA gostam de chamar a si mesmos. Difícil atinar por que alguém acreditaria. Obviamente, as pessoas não são, por aqui, mais livres que em qualquer outra nação. Pergunte a um americano no que ele seria “mais livre” que qualquer cidadão da Holanda para fazer o que quiser; não espere nem conte com ouvir resposta muito significativa. Levando-se em conta apenas o tamanho do PIB, claro que os EUA são uma grande economia; nesse sentido, trata-se, afinal, de um grande país. Apenas Canadá e Rússia são maiores em extensão territorial, mas com populações menores. E os Estados Unidos nem são assim tão bem governados, lá que se diga! Enquanto uma minoria de americanos é obscenamente rica, outros mal ganham o suficiente para sobreviver. Embora a nação como um todo seja evidentemente próspera, grande parte da população é muito pobre. O poderio militar dos EUA é enorme; mas as vitórias militares, ínfimas!

Henry Kissinger
Henry Kissinger certa vez disse que :
  • (...) em minha vida, vi quatro guerras que começaram com grande entusiasmo e apoio público; em nenhuma delas sabíamos como terminar; e de três delas nos retiramos unilateralmente.
Perderam essas guerras. Mas não, ninguém “perde” guerras: o derrotado “retira-se unilateralmente”. Significa que um lado abandona a guerra sem pedir autorização para sair: isso, precisamente, significa “retirar-se unilateralmente”. Essas guerras, como soldados velhos, acabam, e pronto.

Umair Haque, Diretor do Havas Media Labs, e tido pela revista Thinkers50 como um dos mais influentes pensadores de gestão-management do mundo, escreveu na Harvard Business Review a seguinte descrição dos Estados Unidos contemporâneos:

Umair Haque
Os Estados Unidos são ricos em quê? Começam a parecer pobres, para as pessoas comuns. A infraestrutura dos EUA está ruindo. O sistema educacional dos EUA educa mal. O sistema de saúde dos EUA é simplesmente inexistente. Posso atravessar a Europa por trem de alta velocidade em oito horas; mal consigo ir de Washington a Boston em nove. Pior que isso: os EUA estão estragando seus suprimentos de água e comida mediante o envenenamento ininterrupto por energia poluente, enquanto o resto do mundo rico está trocando essa energia por outro tipo, renovável. Os Estados Unidos são flagrantemente deficitários em todos os serviços públicos de educação, saúde, transporte, energia, infraestrutura, para não dizer de outros, raramente listados, mas não menos importantes: parques, centros comunitários e serviços sociais

Assim, mesmo dizendo ser o líder do mundo livre e enquanto tenta ensinar ao mundo como governar, quando os EUA se olham para eles mesmos – o que só muito raramente fazem – veem um consumado idiota.

A política implementada continuará a mesma, por mais persistentemente se prove ser errada e ineficiente. A “guerra às drogas”, iniciada em 1971, tem sido tão desastrosa que vários estados já legalizaram substâncias ainda proibidas pelo governo federal. A dependência viciosa a políticas econômicas há tempos desacreditadas quebrou o mundo duas vezes nos últimos setenta anos. As ruas dos Estados Unidos viraram campo de batalha, porque não há via pela qual o país consiga derrotar o lobby da indústria de armas e não há meio que leve a aprovar qualquer medida que limite a propriedade de armas.

Por muito que os EUA sejam tolos nas políticas internas, é no trato com outros países que o horror aparece mais pleno. Considere-se, por exemplo, a política de chantagear outros países, para fazerem o que não querem fazer, mas interessa aos EUA que façam, usando, como arma de chantagem, as chamadas “sanções econômicas”.

Aplicar sanções é uma modalidade de guerra econômica e, como guerra real que é, os dois lados em luta sofrem baixas, sempre que um lado aplica sanções as quais, em teoria, deveriam ter efeito exclusivamente contra o outro lado.

Já se aplicaram e aplicam-se hoje sanções em, pelo menos, 25 “conflitos” internacionais. Nada, na lista do Departamento do Tesouro dos EUA, indica que a meta estabelecida teria sido alcançada. Hoje, há sanções vigentes aplicadas pelos EUA contra sete países: Cuba (desde 1960), Irã (1979), Myanmar (1997), Coréia do Norte (1993), Costa do Marfim (2006), Síria (2012) e Rússia (2014).

Ora! E não se trata de clara lista de potências econômicas? Pois até a publicação deste artigo, por várias e boas razões, os EUA não conseguiram nenhuma das metas a que visavam com a imposição dessas sanções.

A prática de impor sanções contra nações cujos atos desagradem aos EUA é política orientada para objetivos ou tolos ou infames. É prática que visa a destruir a soberania de outras nações. Tanto quanto sei, até hoje os EUA nada conseguiram, desses objetivos, servindo-se de sanções.

Os EUA são nação narcisista que só enxerga o próprio reflexo em seja qual for a superfície para a qual olhe. A húbris norte americana faz os norte-americanos crerem que o mundo inteiro teria de operar como os EUA operam.

Assim sendo, dado que desde o nascimento da nação a corrupção gerada e alimentada pelos mercadores e pela classe mercantil predomina na política econômica dos EUA, impondo as políticas nacionais, os norte americanos creem que a classe mercantil de outras nações também teriam o poder e a força para mandar e desmandar no plano político e na construção das políticas. Obviamente isso nem sempre acontece. Em Cuba e na Coréia do Norte a classe mercantil praticamente inexiste. No Irã, está submetida às ordens dos aiatolás; em Myanmar e na Costa do Marfim, o controle é exercido totalmente pelos dirigentes corruptos. Quanto à Síria e à Rússia, o relacionamento entre o governo e a classe mercantil é no mínimo ambíguo.

Impor sanções contra essas nações pode causar algum abalo em suas economias, sim; mas é pouco provável que cause qualquer grave efeito contra os seus respectivos governos.

Para que as sanções levem ao resultado que os EUA esperam delas, é indispensável que se configurem algumas condições necessárias. Em primeiro lugar, a nação sancionada tem de ter grande classe mercantil, com poder suficiente para influenciar o próprio governo do país. O governo tem de ser atento e preocupado com atender bem às necessidades da classe mercantil. 

Em segundo lugar, não se sanciona país que tenha ou dívida internacional muito pequena, ou carteira de comércio internacional muito grande. Em nada ajuda o governo de um país dizer aos seus comerciantes que não podem fazer negócios com outra nação, com a qual eles já não tenham comércio. Mas dizer aos próprios comerciantes que interrompam o comércio com determinada nação, com a qual eles têm substancial negociação e muitos interesses, pode vir a ser economicamente mais prejudicial para a nação que sanciona, que para a nação sancionada.

Em terceiro lugar, restam as nações com comércio internacional médio. Alguns danos podem ser causados, se se sancionam essas nações, mas não serão danos suficientes para forçar o país a mudar na direção em que interessa aos EUA que o país mudem. Tais sanções raramente são bem-sucedidas. E o que acontece quando esse tipo de sanção é tentado e falha? Muitas vezes, esses fracassos levam à guerra.

Apenas um ano após os Estados Unidos sancionarem Cuba, o país foi invadido por um grupo paramilitar patrocinado pela CIA.

Oito bombardeios B-26 fornecidos pela CIA atacaram os campos aéreos cubanos. Na noite seguinte, os invasores desembarcaram na Baía dos Porcos. Os norte-americanos supunham que o povo cubano se levantaria e derrubaria o governo Castro. Em vez disso, viram o exército cubano cercar e prender os invasores norte-americanos, em apenas três dias. A invasão foi fracasso escandalosamente vergonhoso para os EUA. Em grande parte da América Latina e do mundo, comemorou-se ali a falibilidade do imperialismo dos Estados Unidos.

Charge de Latuff
Pois, apesar do fracasso escandalosamente vergonhoso, ante o povo cubano, os EUA, ali, “inauguraram” a guerra de sanções.

Desde então os norte americanos têm feito guerra, às vezes sem aviso ou conhecimento, em numerosos lugares onde as sanções falharam: Bálcãs, Iraque, Líbano, Líbia, Somália, Sudão (e mais outra longa lista de potências econômicas).

E, quando as sanções falham pela primeira vez, e vêm as sanções; e as sanções falham, e vem a guerra; e, ainda depois da guerra, vêm mais e novas sanções... o absurdo é flagrante.

Nesse momento do processo, a política de guerra dos EUA evolui para a política de assassinatos dos EUA.

Talvez o propósito das sanções, das guerras que acompanham as sanções, e dos assassinatos que vêm subsequentes, não seja alcançar algum sucesso, nem provocar mudanças. Todo o programa é absurdo, mas repete-se tanto, tão pontualmente, há tanto tempo, que tem de haver alguma explicação. Uma possibilidade para chegar a alguma explicação razoável talvez se possa extrair de um exame atento do sistema penal americano.

Toda sociedade tem cidadãos que, de tempos em tempos, põem em risco outros cidadãos. Eventualmente, esses indivíduos podem pôr em risco a própria existência da sociedade como tal. Em sociedades primitivas, esse pessoal daninho é ou extirpado ou banido ou exilado. Na infância histórica dos Estados Unidos, essa forma de punição foi usada pelos puritanos, quando exilaram Roger Williams (fundador de Rhode Island e da Primeira Igreja Batista). A teologia de Williams colocava em risco a unidade religiosa da sociedade puritana.

Sob vários aspectos, o atual sistema penal é mais duro e desumano com os inconformados, que a antiga pena de exílio. Mas o problema é que vai ficando cada dia mais difícil encontrar lugares para onde exilar alguém; e acabou por prevalecer o sistema penal atualmente vigente, de encarceramento. E tudo se complicou muito.

Em vez de simplesmente remover cidadãos que apresentam perigo para a sociedade, o povo começou a usar as próprias prisões como forma de punição: isso, precisamente, é o que são as prisões como as conhecemos hoje. Quando a vítima (ou o juiz) diz: “quero que seja feita a justiça” ele/ela está dizendo que quer que o criminoso “pague”. Então, os perpetradores de crimes pagam o preço de se deixar aprisionados pela sociedade; e a sociedade paga o preço de manter todo o sistema penal. É um preço pago tanto pelos criminosos, quanto pelos cidadãos que respeitam a lei. O intuito do sistema penal é meramente punitivo, independente do custo. Não há outra função.
Charge de Latuff
Nunca houve qualquer resultado favorável aos Estados Unidos oriundo das sanções contra Cuba e a Baía dos Porcos, mas isso não importa. O povo de Cuba está sendo punido há mais de meio século, por não se ter levantado em revolta e derrubado o governo de Castro em 1961. No Iraque, o povo iraquiano é castigado pelo governo Obama, pelas ações de Saddam Hussein. Assim também, o povo afegão está sendo punido porque o governo afegão não entregou Osama Bin Laden aos EUA quando lhe foi “ordenado”, para ser “julgado” por ter – supostamente – planejado o incidente de 11/9. Não importa que esse castigo tenha custado e continue a custar também muito caro aos Estados Unidos. O custo dos castigos não vem ao caso. Não apenas não é importante o custo da punição, como também é irrelevante que povo será punido...

O mundo ocidental continua, até hoje, a castigar os palestinos, pelo holocausto de judeus europeus assassinados por europeus da Europa ocidental!

Essa política não é exclusividade dos EUA


Os EUA só continuam a aplicar essa política “de sanções”, porque seus fracassos são anotados como sucessos. O princípio que rege essas operações “de sanções” é deixar claro que quem não “respeite’” (no sentido de “obedeça servilmente”) os EUA, desencadeará sobre a própria cabeça fúria tão violenta e avassaladora que faria tremer de medo o demônio.

[*] John Kozy é professor aposentado de Lógica e Filosofia, que escreve sobre questões sociais, políticas e econômicas. Depois de servir no exército dos EUA durante a guerra da Coréia, viveu 20 anos como professor universitário e outros 20 como escritor. Seus trabalhos online podem ser encontrados no blog.

TEXTO ORIGINAL NESTE ENDEREÇO:
http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2014/05/guerras-assassinatos-e-sancoes.html?spref=fb

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Ucrânia e Venezuela: lutar com palavras

“Lutar com palavras é a luta mais vã. No entanto lutamos mal rompe a manhã.” (Drummond)

por Rodrigo Vianna

Não se trata de poesia. Mas de política. A edição da “Folha” desta sexta-feira é mais uma demonstração de que a batalha nas ruas de Kiev ou Caracas não é feita só de coquetéis molotov, bombas e fuzis. A batalha se dá na mídia, na TV, na internet, nas páginas envelhecidas dos jornais. São Paulo, Caracas, Kiev, Moscou e Washington. A batalha é uma só. 

Reparemos bem. Ao lado, temos a primeira página do jornal conservador paulistano – o mesmo que apoiou o golpe de 64 e emprestou seus carros para transporte de presos durante a ditadura militar. Na capa da “Folha”, ucranianos escalam uma montanha de entulho no centro de Kiev, e a legenda avisa: “Manifestantes antigoverno usam pneus e entulho para montar barricadas…” Logo abaixo, uma chamada sobre reintegração de posse em São Paulo: “Em SP, invasores destroem imóveis do Minha Casa”. Numa página interna, o jornal informa que esse “invasores resistiram e, até a noite, praticavam atos de vandalismo”. (página C-1)

Ucranianos não praticam “vandalismo”. São tratados de forma heróica. Ainda que se saiba que parte dos manifestantes em Kiev tem um discurso racista, próximo do nazismo. Brasileiros são “vândalos”. Ucranianos são “manifestantes”.

Mas sigamos adiante. Nas páginas internas, a “Folha” traz vários textos do enviado especial a Kiev. Num deles, o repórter mostra uma pequena fábrica para produção de coquetéis Molotov, dentro do Metrô de Kiev. O cidadão que produz as bombas é descrito assim: “Sem afiliação a partidos ou uma proposta ideológica clara, o cidadão diz ter sido atraído pela praça e pelas manifestações a partir da ideia de que é necessário mudar o sistema político na Ucrânia.” 

Mudar o sistema político. Hum. Não fica claro se o cidadão quer uma ditadura. A Ucrânia não é uma democracia? O governo não foi eleito pela maioria? Hum… “Sem afiliação a partidos” – essa parece ser a chave para legitimar tudo nos dias que correm. A CIA, os EUA, a CNN, a Folha não tem filiação a partidos. Não. Nem o nobre manifestante de Kiev.

Ao lado da reportagem sobre os molotov, um texto opinativo assinado por Igor Gielow (sobrenome “eslavo”, muito bom! Isso dá credibilidade ao comentário). Basicamente, Gielow diz que a crise na Ucrânia é “reflexo da estratégia de Putin para a região”. Ele não está errado. Pena que esqueça de contar uma parte da história. “O importante não é o que eu publico, mas o que deixo de publicar”, dizia Roberto Marinho.

Gielow e a “Folha” ensinam: Putin é um líder malvado, que pretende manter na Ucrânia “a esfera de poder dos tempos imperiais e soviéticos”. Aprendam: só a Rússia tem interesses imperiais na Ucrânia. Do outro lado, há cidadãos sem afiliação partidária, lutando contra um insano governo pró-Moscou. Os EUA e a Europa não têm interesses na Ucrânia. Só Putin. A culpa é dos russos.

Na “Folha” luta-se com as palavras muito antes da manhã começar. Luta-se com as palavras em Kiev, em São Paulo, Moscou. Washington fica invisível. E toda a estratégia passa por aí. O poder imperial só existe por parte da Rússia. Washington não tem qualquer projeto imperial: nem na Ucrânia, nem na Síria, nem tampouco na América Latina…

Falando nisso, a cobertura sobre a Venezuela é também grandiosa no diário da família Frias. Declarações de Maduro aparecem entre aspas. Velho truque jornalistico para desqualificar, colocar no gueto da suspeição, qualquer fala dos chavistas. Segundo a Folha, o governo de Maduro afirma que o movimento (golpista? Isso a Folha não diz) é uma armação de “forças de ultradireita da Venezuela e de Miami”. No texto original a expressão está assim, entre aspas. Por que? Para dar a impressão de que Maduro é um lunático, e que não há forças de ultradireita lutando nas ruas. Não. Há só “estudantes” e “manifestantes” (e agora sou eu que coloco entre aspas).

A legenda da foto ao lado (também publicada pelo jornal conservador paulistano) diz: “Estudantes queimam lixo em atos contra Nicolás Maduro”. Primeiro, como se sabe que o sujeito é um “estudante”? Depois, reparem que queimar lixo na Venezuela é “ato contra Maduro“. Queimar prédios em desapropriação, em São Paulo, vira “vandalismo”.

Em Caracas não há “vândalos”.

Ao lado da foto, um texto assinado por repórter (que está em São Paulo!!!!!) narra roubo de equipamento da CNN em Caracas: “o ataque à CNN se assemelha a inúmeros relatos de motociclistas intimidando manifestantes, com tolerância e até respaldo das forças de segurança do governo”. O roubo ocorreu em manifestação da oposição. Mas o roubo certamente é coisa dos chavistas. Claro. Nem é preciso ir até Caracas pra saber (registro a bem da verdade factual que o repórter - a quem conheço, ótima pessoa – foi correspondente em Caracas).

No mesmo texto (assinado, de São Paulo) os grupos que defendem o governo são chamados de “milícias”. Ok. Já estive em Caracas cinco ou seis vezes. E há grupos chavistas que se assemelham mesmo a milícias. Mas do lado da oposição há o que? Não há milícias? A turma de Leopoldo, que deu golpe em 2002, é formada por cidadãos inocentes. E só.

Quem lê a “Folha” aprende que, em Caracas, há de um lado “milícias chavistas”. De outro, só “estudantes” e “manifestantes”. 

Não há neutralidade no uso das palavras. Nunca houve. Nunca haverá. E quanto mais agudas as crises, mais isso fica claro. Há escolhas. A “Folha” faz as suas. A CNN, a Telesur, a VTV – ou esse blogueiro. A diferença é que uns assumem que têm lado. Outros fingem que estão “a serviço do Brasil”. 

Lutemos, com as palavras. Não há saída. O outro lado luta todos os dias, todas horas.

“Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate” (Drummond).

Texto original ; O ESCREVINHADOR

sábado, 7 de dezembro de 2013

MANDELA E VOCÊ, TUDO A VER?

Juntamos numa só postagem informações para quem quer entender mais o papel de Nelson Mandela, incluindo texto  publicado em postagem anterior da página. É muito bom que todos glorifiquem Mandela. Mas nem sempre foi assim.
Os Williams (Bonner e Haack) fazem suas homenagens a Mandela. VEJA e ÉPOCA devem estar preparando uma edição inteira. Dá enjôo só de pensar como a morte nivela por baixo os oportunistas. VOCÊ, que se baliza pela grande imprensa, deve ter ficado até emocionado, de verdade. Talvez já tenha postado aqui no Face sua homenagem também. A imprensa está vestindo o homem de mito. Edificando para a posteridade o herói.

Mandela foi um herói em vida. Não precisa da edificação hipócrita de quem o odiou, e odeia a tudo que ele representa.

Mandela não foi o SEU herói, muito menos herói da imprensa.

Estou falando com VOCÊ, que acredita no Jornal Nacional.

VOCÊ, que chora convenientemente a morte de um homem cuja história acaba de conhecer um pouquinho mais no Jornal Nacional. VOCÊ, que acredita que Mandela foi apenas um símbolo abstrato da liberdade e da luta contra o racismo. VOCÊ, que imagina um Mandela apolítico que lutou apenas por ideias. Saiba, Mandela não lutou apenas contra a opressão, lutou contra os opressores. Não se engane, ele não era o SEU herói.

Gente como VOCÊ construiu uma sociedade injusta na África do Sul, se orgulhava desta sociedade dividida, enriqueceu explorando gente como Mandela. O apartheid não era apenas um fenômeno de ódio racial, mas uma ferramenta de exploração de uma classe sobre a outra. Gente como VOCÊ inventou o apartheid.

Gente como VOCÊ não admitiu que sul-africanos negros da geração de Mandela frequentassem universidades, melhorassem de vida, fossem equiparados aos sul-africanos da elite local.

Em tempos atuais, em que se escuta protestos dos ricos brasileiros contra aeroportos cheios de "pobres", transformados em "rodoviárias", não soa bastante irônico que a primeira prisão de Mandela tenha ocorrido por ele ter viajado ao exterior "sem permissão"? Pois é, gente como VOCÊ pensa até hoje que "negros e pobres" não deveriam viajar sem a permissão dos "patrões", não é verdade?

Gente como VOCÊ "justificava" a divisão da sociedade africana entre dominadores (brancos) e dominados (negros) com "argumentos" baseados numa suposta meritocracia. Ou seja, os negros africanos, na visão de gente como VOCÊ, eram dominados porque seriam "incultos", teriam mais filhos, seriam "preguiçosos", viveriam das migalhas, seriam um peso para a elite sul-africana. Estes conceitos te lembram alguma coisa?

Gente como VOCÊ chamou Mandela de terrorista, encarcerou Mandela a partir de uma farsa judiciária, num tribunal de exceção, num processo cheio de mentiras. A imprensa local fez gente como VOCÊ acreditar que Mandela era um bandido. E foi tratado como tal por quase três décadas por gente como VOCÊ.

A imprensa torturou Mandela por 30 anos e gente como VOCÊ ficou do lado da imprensa. VOCÊ, que apoia linchamentos midiáticos, ajudaria a linchar Mandela.

A determinação e o simbolismo de Mandela contra o racismo e o apartheid fizeram dele um homem respeitado fora de seu país. Fora. Porque dentro da África do Sul, a elite local, em parceria com a imprensa, continuava tratando-o como um traidor.

Um dia, a pressão de organismos internacionais fez com que Mandela voltasse a ser um homem livre. Mandela teve o apoio de gente como a Anistia Internacional. Não de gente como VOCÊ. Compreende o que é a Anistia Internacional e sua luta a favor dos direitos humanos? Compreende que ela e VOCÊ têm estado em campos opostos desde todo o sempre? Compreende que eles representam princípios dos quais você zomba? Pois é, eles e Mandela estavam do mesmo lado. Sempre estiveram. Gente como VOCÊ, não.

Ao contrário do que querem te fazer crer os noticiários de hoje, Mandela nunca foi uma unanimidade na África do Sul. Seu partido foi duramente perseguido e acusado de todo tipo de coisa. Quando foi candidato à Presidência, Mandela sofreu a oposição da elite, da imprensa e de gente como VOCÊ.

Quando venceu, convocou o país à união. Àquela altura, pegava mal bater diretamente em Mandela que, afinal, havia se tornado um símbolo. E o que gente como VOCÊ fez?

Houve, no início do governo Mandela, uma sórdida campanha interna contra seu partido, contra pessoas do seu círculo político e pessoal. A própria família de Mandela não foi poupada. O alvo indireto, claro, era Mandela. Gente como VOCÊ fez isso, para defender regalias e privilégios mantidos por décadas naquela sociedade fracionada.

Mandela lutou por moradias, por dignidade, contra a fome e a miséria. Cometeu muitos acertos e alguns erros.

Desculpe te "decepcionar", mas Mandela foi um homem de centro-esquerda, à frente de um partido posicionado no espectro das esquerdas, que fez um governo de centro-esquerda. A turma dos líderes mundiais que foram seus interlocutores mais próximos, que inspiraram e foram inspirados por sua luta política, nunca foi a SUA turma.

O governo Mandela, foi marcado por políticas de distribuição de renda e oportunidades, por ações que visaram diminuir o imenso fosso social da África do Sul, de criação de um mercado consumidor interno, de democratização das relações sociais, do uso do Estado como instrumento de justiça social. No poder, Mandela fez tudo contra o que gente como VOCÊ luta cotidianamente.

Ao final de seu governo, a África do Sul era um país muito melhor para seu povo. Mas estava (e ainda está) longe de ser um país justo e plenamente desenvolvido. Gente como VOCÊ o criticou por isso, como se um período de governo de um só homem pudesse reverter séculos de história torta.

Depois de cumprir seus mandatos, Mandela continuou a usar sua influência para defender causas que gente como VOCÊ abomina.

Mandela foi fundamental para que a África do Sul realizasse um evento da importância da Copa do Mundo.

A autoridade moral de Mandela ajudou a inserir a África no mapa dos BRICS, este fenômeno emergente dos países antigamente chamados de "terceiro-mundo" que hoje gritam por seu espaço na geopolítica global como novos protagonistas. Este movimento que gente como VOCÊ, colonizado, despreza.

Mandela foi um homem cuja grandeza e poder de representação de uma causa importante como a luta contra o racismo muitas vezes ofuscou o líder político identificado também com causas muito mais comuns a outros povos: a luta contra a opressão (independente de raça, cor ou credo), a luta de classes, a construção de um mundo mais justo.

Fique com o Mandela-mito cuja persona é homenageada pelos Williams do JN e do JG.

Porque o Mandela real, aquele que viveu, sofreu injustiças, governou, este não tem nada ver com gente como VOCÊ. Deixe-o em paz.

noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI2984218-EI8141,00-EUA+retiram+Nelson+Mandela+da+lista+de+terroristas.html

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Globo cala jornalista

Por Eliakim Araújo

Vou usar este espaço hoje, para solidarizar-me com Luiz Carlos Azenha, um correto e honesto jornalista,  que edita um dos mais respeitados blogs da mídia alternativa brasileira, o Viomundo

Azenha, que deixou a Globo em 2006, “enojado” com a parcialidade da emissora na cobertura da campanha eleitoral daquele ano, vinha incomodando os poderosos da antiga emissora, porque sabia demais.

Foi testemunha ocular e auditiva de um sem número de manobras praticadas no submundo do jornalismo global, cujo feitor era (e continua sendo) Ali Kamel, o homem encarregado pela família Marinho de reescrever a história recente do Brasil a partir da ótica do Jardim Botânico, numa operação destinada a limpar o passado comprometido da emissora com a ditadura militar.

Azenha - que não recebe um tostão dos anunciantes que fazem a fortuna da grande mídia - foi penalizado pela Justiça que o condenou a pagar R$ 30 mil ao subserviente Ali Kamel.  Na última sexta-feira, Azenha anunciou o fechamento de seu blog, por falta de condições financeiras de brigar contra o poder da Globo.

Azenha jogou a toalha, mas estou certo de que seu exemplo de determinação e coragem vai germinar e fortalecer a luta pela democratização dos meios de comunicação no Brasil.  Leia aqui a nota em que Azenha explica as razões que o levam a desistir do Viomundo.

Globo consegue o que a ditadura não conseguiu: calar imprensa alternativa

por Luiz Carlos Azenha

Meu advogado, Cesar Kloury, me proíbe de discutir especificidades sobre a sentença da Justiça carioca que me condenou a pagar 30 mil reais ao diretor de Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel, supostamente por mover contra ele uma “campanha difamatória” em 28 posts do Viomundo, todos ligados a críticas políticas que fiz a Kamel em circunstâncias diretamente relacionadas à campanha presidencial de 2006, quando eu era repórter da Globo.

Lembro: eu não era um qualquer, na Globo, então. Era recém-chegado de ser correspondente da emissora em Nova York. Fui o repórter destacado para cobrir o candidato tucano Geraldo Alckmin durante a campanha de 2006. Ouvi, na redação de São Paulo, diretamente do então editor de economia do Jornal Nacional, Marco Aurélio Mello, que tinha sido determinado desde o Rio que as reportagens de economia deveriam ser “esquecidas”– tirar o pé, foi a frase — porque supostamente poderiam beneficiar a reeleição de Lula.

Vi colegas, como Mariana Kotscho e Cecília Negrão, reclamando que a cobertura da emissora nas eleições presidenciais não era imparcial.

Um importante repórter da emissora ligava para o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, dizendo que a Globo pretendia entregar a eleição para o tucano Geraldo Alckmin. Ouvi o telefonema. Mais tarde, instado pelo próprio ministro, confirmei o que era também minha impressão.

Pessoalmente, tive uma reportagem potencialmente danosa para o então candidato a governador de São Paulo, José Serra, censurada. A reportagem dava conta de que Serra, enquanto ministro, tinha autorizado a maior parte das doações irregulares de ambulâncias a prefeituras.

Quando uma produtora localizou no interior de Minas Gerais o ex-assessor do ministro da Saúde Serra, Platão Fischer-Puller, que poderia esclarecer aspectos obscuros sobre a gestão do ministro no governo FHC, ela foi desencorajada a perseguí-lo, enquanto todos os recursos da emissora foram destinados a denunciar o contador do PT Delúbio Soares e o ex-ministro da Saúde Humberto Costa, este posteriormente absolvido de todas as acusações.

Tive reportagem sobre Carlinhos Cachoeira — muito mais tarde revelado como fonte da revista Veja para escândalos do governo Lula — ‘deslocada’ de telejornal mais nobre da emissora para o Bom Dia Brasil, como pode atestar o então editor Marco Aurélio Mello.

Num episódio específico, fui perseguido na redação por um feitor munido de um rádio de comunicação com o qual falava diretamente com o Rio de Janeiro: tratava-se de obter minha assinatura para um abaixo-assinado em apoio a Ali Kamel sobre a cobertura das eleições de 2006.

Considero que isso caracteriza assédio moral, já que o beneficiado pelo abaixo-assinado era chefe e poderia promover ou prejudicar subordinados de acordo com a adesão.

Argumentei, então, que o comentarista de política da Globo, Arnaldo Jabor, havia dito em plena campanha eleitoral que Lula era comparável ao ditador da Coréia do Norte, Kim Il-Sung, e que não acreditava ser essa postura compatível com a suposta imparcialidade da emissora. Resposta do editor, que hoje ocupa importante cargo na hierarquia da Globo: Jabor era o “palhaço” da casa, não deveria ser levado a sério.

No dia do primeiro turno das eleições, alertado por colega, ouvi uma gravação entre o delegado da Polícia Federal Edmilson Bruno e um grupo de jornalistas, na qual eles combinavam como deveria ser feito o vazamento das fotos do dinheiro que teria sido usado pelo PT para comprar um dossiê contra o candidato Serra.

Achei o assunto relevante e reproduzi uma transcrição — confesso, defeituosa pela pressa – no Viomundo.

Fui advertido por telefone pelo atual chefão da Globo, Carlos Henrique Schroeder, de que não deveria ter revelado em meu blog pessoal, hospedado na Globo.com, informações levantadas durante meu trabalho como repórter da emissora.

Contestei: a gravação, em minha opinião, era jornalisticamente relevante para o entendimento de todo o contexto do vazamento, que se deu exatamente na véspera do primeiro turno.

Enojado com o que havia testemunhado ao longo de 2006, inclusive com a represália exercida contra colegas — dentre os quais Rodrigo Vianna, Marco Aurélio Mello e Carlos Dornelles — e interessado especialmente em conhecer o mundo da blogosfera — pedi antecipadamente a rescisão de meu contrato com a emissora, na qual ganhava salário de alto executivo, com mais de um ano de antecedência, assumindo o compromisso de não trabalhar para outra emissora antes do vencimento do contrato pelo qual já não recebia salário.

Ou seja, fiz isso apesar dos grandes danos para minha carreira profissional e meu sustento pessoal.

Apesar das mentiras, ilações e tentativas de assassinato de caráter, perpretradas pelo jornal O Globo* e colunistas associados de Veja, friso: sempre vivi de meu salário. Este site sempre foi mantido graças a meu próprio salário de jornalista-trabalhador.

O objetivo do Viomundo sempre foi o de defender o interesse público e os movimentos sociais, sub-representados na mídia corporativa. Declaramos oficialmente: não recebemos patrocínio de governos ou empresas públicas ou estatais, ao contrário da Folha, de O Globo ou do Estadão. Nem do governo federal, nem de governos estaduais ou municipais.

Porém, para tudo existe um limite. A ação que me foi movida pela TV Globo (nominalmente por Ali Kamel) me custou R$ 30 mil reais em honorários advocatícios.

Fora o que eventualmente terei de gastar para derrotá-la. Agora, pensem comigo: qual é o limite das Organizações Globo para gastar com advogados?

O objetivo da emissora, ainda que por vias tortas, é claro: intimidar e calar aqueles que são capazes de desvendar o que se passa nos bastidores dela, justamente por terem fontes e conhecimento das engrenagens globais.

Sou arrimo de família: sustento mãe, irmão, ajudo irmã, filhas e mantenho este site graças a dinheiro de meu próprio bolso e da valiosa colaboração gratuita de milhares de leitores.

Cheguei ao extremo de meu limite financeiro, o que obviamente não é o caso das Organizações Globo, que concentram pelo menos 50% de todas as verbas publicitárias do Brasil, com o equivalente poder político, midiático e lobístico.

Durante a ditadura militar, implantada com o apoio das Organizações Globo, da Folha e do Estadão— entre outros que teriam se beneficiado do regime de força — houve uma forte tentativa de sufocar os meios alternativos de informação, dentre os quais destaco os jornais Movimento e Pasquim.

Hoje, através da judicialização de debate político, de um confronto que leva para a Justiça uma disputa entre desiguais, estamos fadados ao sufoco lento e gradual.

E, por mais que isso me doa profundamente no coração e na alma, devo admitir que perdemos. Não no campo político, mas no financeiro. Perdi. Ali Kamel e a Globo venceram. Calaram, pelo bolso, o Viomundo.

Estou certo de que meus queridíssimos leitores e apoiadores encontrarão alternativas à altura. O certo é que as Organizações Globo, uma das maiores empresas de jornalismo do mundo, nominalmente representadas aqui por Ali Kamel, mais uma vez impuseram seu monopólio informativo ao Brasil.

Eu os vejo por aí.

PS do Viomundo: Vem aí um livro escrito por mim com Rodrigo Vianna, Marco Aurelio Mello e outras testemunhas — identificadas ou não — narrando os bastidores da cobertura da eleição presidencial de 2006 na Globo, além de retratar tudo o que vocês testemunharam pessoalmente em 2010 e 2012.

PS do Viomundo 2: *Descreverei detalhadamente, em breve, como O Globo e associados tentaram praticar comigo o tradicional assassinato de caráter da mídia corporativa brasileira.

 
TEXTO RETIRADO DESTE ENDEREÇO: